Publicado por: yumejin | domingo, 21 janeiro 2007

O Abismo do Meio


Uma vez, há um tempo, estava eu conversando com um religioso católico. Ele me falava de muitas coisas da Igreja e do Reino dos Céus. Em um dado momento, resolvi saciar uma antiga curiosidade minha: qual dos sete pecados capitais era o mais perigoso, o que devia ser evitado a todo custo.

Eu acreditava que era a inveja, que motiva tantos crimes e traições, injúrias e atos excusos… o monstro dos olhos verdes que se alimenta daquele ressentimento lento e fétido, que se acumula a cada dia, a cada gota, dentro de nós, até o momento em que nos cega.

No entanto, esse religioso me respondeu que a inveja era, sim, terrível, mas existia outro pecado ainda mais hediondo: a soberba, ou o orgulho.

“Esse foi o pecado dos fariseus, que condenaram Cristo.” disse ele. Prosseguiu explicando que não é que eles fosse malignos, não eram. Por não cometerem atos reprováveis, os fariseus viam a si mesmos como melhores do que o resto, acima das demais ovelhas.

Isso me lembrou de outra coisa. “Não ser tolo não significa ser sábio; não ser feio não significa ser belo; não ser mau não significa ser bom.” Platão – Banquete.

A verdade é que, como ele disse, não basta não praticar atos vis… há que se fazer coisas boas também. Mas esse não é o propósito pelo qual eu escrevo.

Quando Lúcifer desejou para si o poder de Deus, ele convenceu 1/3 das falanges a lutarem ao seu lado. O final da história, todo mundo conhece. Lúcifer foi derrotado e expulso dos céus, junto com seus comparsas. Há, porém, um trecho desse tempo antes do tempo que pouca gente se lembra ou conhece.

Os anjos, no céu, não ficaram divididos apenas em seguidores de Lúcifer e os fiéis a Deus Todo-Poderoso. Havia também um terceiro grupo, os neutros. Eles decidiram não apoiar nem um lado nem o outro. Quando Deus frustrou os planos ensandecidos do antigo Portador da Luz, Ele não só puniu os anjos decaídos, mas também os que decidiram se abster.

Embora isto possa surpreender alguns, a lógica é simples: na escolha entre o certo e o errado, eles se mantiveram calados. Oras, ainda que isso não os torne maus, também não os torna bons. E o céu é a moradia eterna dos bem-aventurados, que tem o coração repleto de bondade.

A neutralidade é apenas uma maneira de fugir da verdade. Alguém verdadeiramente justo posiciona-se sempre, em todas as questões, de maneira justa. Obviamente, isso não significa saltar a conclusões precipitadas antes de ouvir os dois lados, ou procurar conhecer os fatos, mas, uma vez que informações o suficiente sejam conseguidas, determinar sua visão e, não só isso, externá-la.

Porque de boas intenções…

Não é mínimo o número de pessoas que discordam veementemente disso. O argumento principal e razoável é que ninguém tem moral e capacidade para determinar o quê é verdadeiramente justo ou bom para todos os casos.

Digam o que quiserem, eu não me importo, ninguém me tira a certeza de que todos sabem exatamente o que é certo e o que é errado. Todo ladrão sabe que está fazendo algo ruim. Ainda que tenha uma justificativa genuína, o ato em si é mal. E todos sabem que ignorar alguém que pede ajuda é uma falha de caráter e que permanecer calado enquanto alguém sofre uma injustiça é simplesmente errado.

Então, não matar estranhos por aí, chutar animais ou roubar uma coca-cola no mercado da esquina não o torna bom. E não procurar tirar vantagens ilícitas no trabalho ou nunca falar mentiras que prejudiquem os outros não o torna justo. No máximo, neutro. E quem é neutro não tem lugar entre os maus… e tampouco entre os bons.

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Responses

  1. Uma vez um homem que eu respeito muito me disse uma coisa mais ou menos assim
    “Quem tem o poder tem o dever de agir… porque tem o poder nas mãos”

    Afinal, esse é o parâmetro da salvação não? O Livre arbítrio. O que torna aquele que escolhe o lado bom tão valoroso é o fato de que, com a mesma facilidade, poderia ter escolhido o outro caminho.

    Nem eu lembrava dos neutros.
    See ya

  2. Os covardes, fracos e preguiçosos costumam ser neutros. Por isso tenho um certo preconceito com esse grupo.. mas a neutralidade em sí… é só sem graça.


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