Publicado por: yumejin | sexta-feira, 11 maio 2007

Aviso ao Residente

Aqip,

Se minhas palavras chegam aos olhos de cinco, já é muito. Mas não preciso de mais, contudo. Gostaria, é certo, mas não preciso. “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Agora que entendi o significado dessas palavras, fica difícil não utilizá-las sempre que posso.
Enfim, escrever é uma coisa que me deixa feliz, de alguma forma. Sempre acho que posso fazer melhor, claro, mas me deixa feliz de um jeito ou de outro. A razão, bem, a razão é tão simplória que até fico um pouco receoso de escrever: é que gosto que os outros saibam o que penso. Apenas isso. É que escrevo melhor do que falo. Não nasci com o dom da oratória. Não falo pior do que a média da nossa terra, mas isso, em si, quer dizer pouco ou nada.
A carta de hoje é bem mais objetiva do que a da última semana, acho. Ainda não a escrevi. Mas penso que será assim porque, na última semana, estive eu doente de verdade. Não entendi ainda muito bem porque, mas, aos poucos, acho que compreenderei. Enfim.
No dia seguinte à minha recuperação, acordei bem cedo. Antes até do que Lutia e Caius, alguns minutos mínimos, dois, quinze, mas o suficiente para que ficasse olhando o céu no horário em que não é nem manhã nem noite, o céu que assume uma cor difusa, um azul, roxo, com um pouco de vinho. Complicado descrevê-lo, mas quem o conhece, conhece. Já a hora, é aquela hora em que as coisas estão em silêncio, o frio é denso e você pode sentir o vento a cortar-lhe caminhos, o ar que se respira é, realmente, revigorante, algumas pessoas caminham pelas ruas vazias, em seus casacos bem fechados, com um meio-sorriso no rosto quando lhe passam o caminho, o pensamento bem, é, eu também acordei cedo, aqueles que dormem são os inocentes que não vivem.
Ao escutar os passos de Lutia no chão de madeira do corredor, fechei meus olhos para fingir que estava dormindo e simulei o melhor que pude a respiração de alguém desacordado. Tolice minha, acreditar que uma mulher seria enganada por um artifício tão ingênuo. Ela simplesmente abriu a janela sobre minha cama, separou-me uma roupa e, ao abrir a porta para sair, disse-me, sem virar o rosto, ‘Bom dia, viajante. Mais quinze minutos aí e Caius lhe deixa pra trás’.
Não há, afinal, como enganar as mulheres de quem gostamos, acho eu.
Vestido, encontrei-me com Caius na sala. Ao contrário dos outros dias, a mesa de madeira sólida não estava coberta por uma toalha de cor beje, mas nua. Ante o meu olhar pensativo para a mesa, Lutia respondeu-me ‘Vocês comerão com o residente da vila’.
Já estava a me dirigir para a carroça, quando Caius me gritou, no portão da casa, ‘Apressado, hoje, não vamos por carroça. Vamos caminhar. Faz bem de vez em quando, ainda mais para quem acabou de se levantar de uma doença’. De certa maneira bem-disposto, caminhei até o seu encontro e passamos a andar. A vila em si estava iniciando sua vida, voltando, como eu, da morte.
Posso descrevê-la, mas não é interessante, de fato. Algumas casas, parecidas com a de Caius, algumas pessoas, de feições que lembravam as de Lutia, mas não a de Caius. Ainda não o descrevi, eu sei, mas é que alguma coisa me falta pra fazê-lo, algum lugar onde já vi uma expressão como a dele, alguma pessoa que conheci que era semelhante. Não posso descrevê-lo incompleto, sem essa singularidade de semelhança que preciso apontar. Desculpe-me a descrição, mas ela vai esperar eu me recordar. “Recordar é viver”… hmmmmm….
Um armazém, em reformas de ampliação, assim como um celeiro. Um pequeno quartel, com dois soldados, muito semelhantes ao resto dos aldeões, exceto pela pequena espada de ferro, nada ameaçadora, e um elmo de ferro amassado. Representantes do poder central, provavelmente. Pensara em poder central vagamente, pois que eu não fazia a menor idéia de como era governado o lugar.
A um dado momento, enquanto eu estava distraído com minha imaginação, Caius interrompeu sua caminhada, ação que secundei. Olhei para a direita e vi a segunda maior moradia da vila, perdendo apenas para o edifício central, em torno do qual todos construíam suas casinhas, numa ordem impressionante. Meu companheiro estava apenas olhando a porta, de madeira polida e brilhante, calma, mas compenetradamente, e eu me peguei perguntando se ele telepaticamente iria ordená-la abrir-se, quando aconteceu que esta de fato abriu. Entramos.
A casa do residente, de três andares e com uma pequena torre, feita de pedra, diferente do resto da vila, que era primariamente de madeira, era acolhedora por dentro. Peles de animais selvagens pelas paredes e quadros com pinturas da natureza. O mais rico da aldeia, com absoluta certeza.
Caminhamos pelo corredor até uma sala, onde uma bela mesa de pés trabalhados e lugares para oito pessoas, duas à cabeceira, três de cada lado, dominava o espaço, que contava também com um aparador de cor e madeira idênticas, um quadro do que deveria ser uma besta mitológica, um grande felino de oito patas, sobre uma pedra, e um tapete de pele com padrão tigrado. Bonita.
A tal mesa estava posta, com lugares para sete convivas. Nós dois devíamos estar ou atrasados ou eles adiantados, porque cinco já estavam sentados. Dois homens, com cabelos tão parecidos com os de Lutia, embora curtos, que, se convidado a julgar, coisa que jamais seria, acho, diria que eram parentes próximos, irmãos talvez, duas mulheres já não tão belas quanto Lutia, mas com um sorriso afável e um outro homem à cabeceira. Este homem, em especial, petrificou-me por instantes.
Suas feições e seu olhar eram serenos, mas próprios da aristocracia, como um ser superior entre súditos especiais que fizeram por merecer a sua presença. Sua compleição era mais delicada e mais clara do que a dos outros habitantes da aldeia, como a minha própria era. Seus lábios eram finos e o nariz, ligeiramente adunco, combinava soberbamente com os olhos negros e estáticos. Os cabelos eram ondulados e curtos, muito bem aparados. No geral, era uma figura imponente pela firmeza dos traços e, honestamente, um homem belo.
Ele pousou seu olhar sobre mim por uns tantos instantes e ouvi sua voz, convidativa, mas com um tênue tom, ou talvez era minha impressão, acho que não, de agressividade passiva, pedindo que eu me sentasse em um dos dois lugares vagos, que Caius ocuparia o outro.
Passamos nós à refeição, e, para falar a verdade, ninguém conversou comigo, mas não me importei. Fiquei entretido observando a relação entre os outros e o anfitrião. Era como estivessem em uma partida de um jogo, o anfitrião era jogador e árbitro ao mesmo tempo, mas mudava as regras ao seu bel-prazer, fazendo com que os outros convidados tivessem que se esforçar de maneira visívil para se manter nas regras. Pensei notar duas ou três vezes um brilho de satisfação em brincar assim nos olhos do residente, mas não me foi possível averiguar se assim o era, porque ele logo reassumia seu aspecto opaco e distante.
Depois de comermos, todos os outros foram embora e ficamos sós, o residente, Caius e eu. Ele fez um gesto leve com a mão esquerda e indicou-nos uma sala adjunta, com quatro poltronas revestidas de pele de animais também, com uma jarra de vinho e três cálices de um metal dourado. Sentei-me em uma delas e aceitei, por cortesia, o cálice que ele levou às minhas mãos. Era uma bebida doce, saborosa, realmente, como fora a comida que tivemos, quase sem a marca indelével do álcool. Claro, se não a tivesse, não seria indelével. Retomando.
Ele nos olhou placidamente, não como um cordeiro, mas como um felino, e nos falou, numa voz tão calma que nem pareciam partir as palavras que ele diziam da boca do residente:
– De fato, os convidados muito se alegram por virem aqui. São pessoas boas, afáveis, mas simples, comuns, ordinárias. Entretenho-me por um dia e nada mais. Acontece muito. Normalmente, escolho um em especial. A ele, dedico meu tempo e minha vontade, enalteço suas características boas e diminuo suas falhas. Ajudo-o como posso, passo-lhe a mão em carinho e sorri-o com ternura. Cativo-o e sou por ele cativado.
A esse ponto, ele fez uma pausa, sorveu um gole do vinho e suas pálpebras baixaram um pouco, sem que fechassem-se os olhos. Ele fez um baixo múrmurio com os lábios, afastou o cálice da boca e continuou.
– Sim, cativo-o e sou por ele cativado. Como disse, ele é especial para mim e faço o possível para sê-lo para ele. Contudo, assim como a árvore que cresce no meu jardim, os homens que trabalham nos poços de barro lá fora e a minha gata, deitada no telhado desta casa a se aquecer, eu conheço bem minha natureza. Sei quais são meus instintos básicos e sei, também, as motivações do que faço. Sou um sistema em equilíbrio, por assim dizer. A verdade é que eu sei que estou a me distrair em um jogo, prazeroso, verdade, mas como qualquer brincadeira, uma só perda de tempo em troca de diversão. Logo, semanas, meses ou anos, não importa, pra falar a verdade, acabo por cansar da rodada. Passo por todo o processo de separação, com a tristeza e a dor que lhe cabem, verto lágrimas tão sinceras que enganariam o mais sábio dos homens. Não sou o maior de todos os sábios, então sei que as lágrimas, que quase me enganam, são falsas, ainda que verdadeiras.
Enquanto ele sorvia mais um gole de seu vinho, aproveitei para olhar, discretamente, para Caius. Ele olhava nosso anfitrião com um olhar inexpressivo. Teria já escutado esse discurso?
– São verdadeiras, porque eu realmente estou sentindo a falta desse de quem me despeço. São falsas, contudo, porque eu sei, minha natureza, que eu só estava jogando para me distrair e que nada daquilo foi verdadeiro. Para os meus olhos, a chuva e o sol tanto fazem, porque não me importam verdadeiramente. A minha natureza é semelhante à da minha gata, que se tem em tão alta estima que nada realmente lhe afeta o orgulho de si mesma. Logo, logo, ela encontra outra coisa e eu, outro homem a quem me ligar e de quem partir quando cansar.
O residente pousou seu cálice na mesa de centro, da mesma madeira da mesa da sala anterior, fitou-me com um olhar menos seco e opaco e vezes mais instigante e disse, afinal, e as palavras me ficaram bem marcadas, de modo que não foram deturpadas pela memória:
– Sou o residente desta vila e ajo de uma maneira sensata, de acordo com a visão daqueles que sabem. O viajante é bem-vindo em nossa pequena aldeia, mas recomendo-lhe visitar também outras paragens. Nossa terra é muito rica em governantes diversos e o poder central, que estou certo de que desconhece, só aparecerá depois de muito ver. Quanto aos acontecimentos a se seguirem, não sou vidente para sabé-los com certeza, mas assim como um jogador experiente, tenho a idéia correta. Lembre-se da máxima ‘em Roma, como os romanos’.
Caius levantou-se e eu o segui, calado, até a casa. O resto do dia foi desinteressante, provavelmente porque o residente me causara tão forte impressão. Sinto-me até este momento um pouco desnorteado e creio não saber que farei amanhã.
Saudações,

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Responses

  1. Neste momento me pergunto qual a real natureza de mais esse personagem na jornada do narrador.

    E de certo modo também me pergunto qual a real natureza desse tão misterioso narrador, porque se revela tão pouco para nós? Para deixar o caminho em evidência em detrimento a si? Talvez.

    Mas aposto que existem mais coisas contidas nessa trama do que o viajante quer nos dizer por ora…


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