Publicado por: yumejin | terça-feira, 6 novembro 2007

Clamor interno

[Green Day – Holiday

Inspirado por: aqui ]

Imagine pela duração desta leitura que possuímos uma série de corpos em camadas sucessivas. Numa delas, no campo das idéias e dos pensamentos, o que corre pelo nosso corpo no lugar do sangue é o instinto. Não é àquela vontade animal que me refiro, mas ao produto do atavismo, à herança dos nossos genes e do nosso solo.

Somos todos brasileiros e isso, de algum modo oculto e místico, causa efeitos em nosso comportamento e nosso raciocínio. Não, não é devido à maneira com que somos criados, ao que somos expostos desde criança, violência e miséria, descaso e corrupção, festejos e lamentos, não, é algo ulterior, incomensurável por estar envolto por o tal véu que distorce a visão dos homens sãos e racionais.

Entre muitas coisas que esse brasileirismos nos concede, coisas boas e coisas más, existe um clamor interno que grita e arde desde os momentos em que tropeçamos nos primeiros passos até o fim, quando tombamos inertes, nada mais do que o repositório de lembranças, um brinquedo cuja corda se rompeu.

Esse clamor é o autoritarismo. Todos nós acreditamos que temos a solução para o Brasil e para o mundo. Somos todos certos, temos a visão necessária e fosse nos dada a faculdade da decisão geral, levaríamos o país ao seu lugar de direito. Empunhamos a bandeira da democracia, mas reservamo-nos o direito de pensar secretamente que a maioria é estúpida e que o certo seria seguir nossa linha de raciocínio. Quem discorda de nós é impatriota, é néscio, nós que sabemos, nós que queremos o bem, eles, o mal.

Sou brasileiro também, sinto essa voz aos berros em meus ouvidos cada vez que vejo, ouço e presencio ações idiotas e vis oriundas de cima e de baixo. Não nego que acredito que minhas idéias sejam melhores do que as de quase todo mundo ou que tenho a solução para nossa terra, seria mais do que hipocrisia, seria contra o meu princípio-mor.

Porém, mesmo eu, portador dessa pira cujo fogo nada mais é do que a vaidade, sei que a tolerância é a medida que me impede de me consumir e queimar por um segundo, não mais, e apagar-me para sempre. Escutar a opinião dos outros e considerá-la sob todos os prismas e todas as luzes, procurando defendê-la contra sua própria visão é um exercício não necessário, mas vital.

Calem-se por um longo tempo, retenham o fluxo do atavismo que nos corre o corpo e escutem os outros, mesmos os que deprezam. O único que não precisava fazer isso já morreu há mais de dois milênios.

[Preparar o terreno 1/5
Pearl Jam – Black]

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