Publicado por: yumejin | quinta-feira, 8 novembro 2007

Ars Secunda

Se a primeira das artes trata do domínio da codificação das idéias e dos sentimentos, a segunda arte cuida da outra ponta, a interpretação e compreensão de tudo que é escrito, as duas ensinadas simultaneamente nos dias que vivemos, a arte da escrita e a arte da leitura.

Para nós que a exercemos todo dia, a leitura pode parecer fácil, simples e natural, mas não o é. Percebam que aqueles incapazes de relacionar letras a fonemas e fonemas a palavras estão cercados de símbolos impossíveis, repetidos de maneiras díspares, uma multitude deles os rodeando e oprimindo. A prisão dos iletrados é tão cruel que eles passam os dias vagando entre tantas oportunidades de melhorarem e não as realizam porque não as lêem.

São absolvidos de qualquer culpa, portanto, de ingenuidade e incapacidade de raciocínio amplo, já que nasceram mortos para esse mundo, não, universo paralelo a que temos acesso sem pensar. Incorre em falta temível aqueles que têm a capacidade de leitura e as desperdiçam com nada ou coisa pior, pois há pior do que o nada, que apenas é o intermediário entre o bom e o ruim numa escala.

À primeira vista, ler e interpretar as palavras de outrem é tão simples quanto, bem, ler esse texto. Conhecendo todas as palavras, ou buscando no dicionário aquelas que não pertecem à sua memória, você certamente está apto a compreender tudo o que o escritor colocou no papel.

Finitos são os números que podemos pensar e, ainda assim, infinitas vezes mais são as interpretações cabíveis em uma palavra. Numa analogia simplória, sem a chave certa, você apenas vai especular sobre o que está além da porta. Igualmente, sem o retrospecto mínimo, sua compreensão será risível, se não prejudicial a si mesmo.

Veja que a arte da leitura talvez tenha ainda tantos níveis a mais do que a arte da escrita, posto que nem passando todos os minutos de sua existência efêmera lendo você seria capaz de passar uma vez só os olhos por cada letra de todos os livros ao menos medianos já escritos. Se nem os mais importantes e os clássicos damos conta de ler, que dirá essa quantia quase inimaginável.

A arte da leitura, assim como a arte primeira, se beneficiam da prática. Quanto mais você a exercita, melhor você fica nela. Contudo, a arte segunda é talvez ainda mais rica – dependendo do que você lê, sua capacidade se amplia em uma ou outra de n direções existentes. Acompanhar uma revista fútil por tempo demasiado pode até lhe tirar um grau ou mais em certa área.

Para entender Nietzche, por exemplo, há que se ler Nietzche; mas para realmente entender Nietzche, há que se ler Nietzche, Spinoza, Kant, Platão, Proust… a arte da escrita é cíclica e pode tanto tomar o rumo do ciclo virtuoso como o do círculo vicioso.

Uma observação cabível aqui é que enquanto a arte segunda influi na primeira, o contrário é verdadeiro muito restritamente. Escrever auxilia, sim, entender certos aspectos de outros escritos, mas tão limitadamente que somente os melhores escritores podem se beneficiar em um nível noticiável.

Seria sábio, portanto, pensar com cuidado o que se faz. Ler por ler vai causar tanto dano que pode levar tanto tempo para revertê-lo que até o maior ânimo decairá. Errar é humano e é por isso que somos, em grande parte, medíocres.

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