Publicado por: yumejin | sexta-feira, 9 novembro 2007

Ars Tertia

A pergunta bem poderia ser “falar ou não falar, eis a questão?”. A terceira arte, a da fala, é uma muito vulgarizada na nossa auto-proclamada sociedade do conhecimento. Novamente ignorando casos óbvios, todo humano atinge um nível inicial nessa área e utiliza-a desde o momento em que acorda até aquele em que cai em inconsciência.

Como mencionado en passant, como dizem os franceses, as primeira e segunda artes são limitadas em seu escopo – apenas uma parcela chega a conhecê-las. Falar, porém, é tão natural e modo tão mais prático de se comunicar que somos incentivados desde o primeiro dia a balbuciar qualquer som.

Talvez por isso mesmo, a tanto não me compete analisar agora, essa seja, de todas as artes, a mais corrompida e desfigurada. Se existisse um contador como esse ao lado para o número de vezes que uma palavra é arremetida no saco das pronunciadas erroneamente ou uma expressão é usada em lugar tão errado que ao interlocutor só resta ignorar o engano, para não causar um grave constrangimento, ele atingiria o primeiro milhar em espaço de tempo mais curto do que o que você levou para chegar até essa palavra aqui.

Na discussão em certa medida interessante sobre qual é o verdadeiro idioma, o falado no cotidiano ou o sacramentado pelas normas da língua, a divisão entre baixa linguagem e alta linguagem torna-se nítida como nunca. Apesar de não ser regra mágica sem exceção, pessoas cultas e literatas costumam utilizar esta enquanto os mais simplórios recorrem àquela.

O domínio da arte de falar é tão vasto que seria possível subdividí-lo em dois propósitos, transmissão e argumentação – todos o arsenal de recursos empregado para subjulgar a vontade alheia e demonstrar que a água, na verdade, é vinho, pertence ao subconjunto da argumentação; o que sobra, técnicas mínimas e comuns para comunicar um desejo ou uma informação reúnem-se na categoria da transmissão.

É, de fato, muito defensável essa postura. Eis que, no entanto, é uma defesa pelo prazer da discussão, pois que é uma falácia: a arte de falar é uma só e, dessa forma, seu domínio é uno. O que pode existir, claro está, são especializações em um ou mais estilos de fala, mas nunca totalmente separados.

Se alguns incorrem na falha do erro crasso, outros caem em armadilha muito pior: são tão verborrágicos, em sua tentativa de brilhar, que terminam por impressionar apenas os mais suscetíveis e menos atentos, aqueles que compreenderam sequer dois períodos do discurso. É bom lembrar que toda palavra tem um significado e, muito embora, ela tenha o sentido que você quer dá-la, independente de ser um que nunca havia sido proposto antes, em sua forma normal, cada uma delas tem seu momento.

Três profissões são notoriamente conhecidas por seu jargão intrincado e, por vezes, completamente desnecessário: os que optaram pelo Direito, uma nobre e, maliciosamente, pérfida carreira, e seu legalês, jogos intermináveis de arcaismos e locuções latinas com o fim único de montar, de facto, um idioma dentro de um idioma; os que se entregam à mais nobre das escolhas, os médicos, escravos, por vezes, de seus termos técnicos; e os que deveriam ser reis, filósofos e pseudo-filósofos, que buscam conceitos tão díspares e tão variados que podem se perder no labirinto de idéias formado.

Talvez seja tempo de lembrar que não penso, quando discuto nossa pauta, nos discursos escritos e preparados de antemão. Não insinuo que não sejam formas válidades de se expressar, visto que algo pensado e ponderado é, muitas vezes, extremamente eficaz e eficiente, mas é apenas uma transfiguração da primeira arte na terceira e não verdadeiramente um exemplo desta última.

Atingir graus elevados nesta arte requer prática, paciência e, não obstante, níveis na sexta das artes, algo que será discutido mais à frente. Até certo ponto, esta arte caminha sozinha, sendo exigido do praticante apenas que reflita sobre o que falou e que busque uma personalidade própria para suas frases. Atingido o limite, a influência de escrever e ler são tão tremendas que avançar sem elas é tarefa hercúlea, reservada para os obstinados e, sem o resquício da dúvida, idiotas.

Falar com emoção genuína também faz parte da transição entre os graus – uma teoria dita monotonamente pode ser perfeita hipoteticamente, mas causa efeito nenhum ou pouco na prática. O interlocutor consegue percebe o estado de espírito do que profere as frases e, nas relações humanas, o morno é repudiado. Emular emoções, produzindo-as a fim de gerar um impacto de interesse, é válido também, e lembra da grande vantagem da fala sobre a escrita – enquanto escrever é quase uma ciência exata, letras impressas são incapazes de transmitir todos os sentimentos que uma só palavra dita.

Há muito mais a ser escrito e dito sobre esta arte, mas temo que o conjunto de explicações para essa parte seja complexo demais para agora, tanto para mim quanto para quem parte só do que eu escrevi. Assim sendo, postergo esse pedaço para uma outra ocasião e, assim como a arte da leitura é o oposto da arte da escrita, a quarta arte é o reflexo da terceira.

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