Publicado por: yumejin | sábado, 10 novembro 2007

Ars Quarta

[Jorge Ben Jor – Os Alquimistas Estão Chegando]

O meridiano dessa compilação, por fim, onde metade dos tópicos passaram-se e outra metade está no porvir, a arte de escutar é de uma contraditoriedade estupenda, a maior parte dos que a citam representando a antítese do que ela versa.

Se a terceira arte é a mais vulgarizada, a quarta é a mais lembrada e, simultanea e algo não surpreendentemente, a menos empregada. De fato, a lógica simples e racional nos dita que, em um mundo onde todos são incentivados a falar o que pensam, poucos são aqueles que recebem as instruções corretas para escutar.

Perceba-se que, se por um lado, ler é compreender não apenas o que está escrito nas linhas e letras, mas também nos pontos e nos espaços em branco, escutar não é apenas absorver e analisar cada palavra dita pelo seu interlocutor, mas também as pausas e as intonações. Para proceder nesta examinação, parece útil montar correlatos entre a segunda e a quarta arte, ler e escutar.

Ao ler um romance, por exemplo arbitrário, para compreendê-lo melhor, ter uma idéia decente do contexto da época, dos valores e da moral vigentes, fornece uma grande ajuda. Analogamente, saber um pouco sobre o estado de espírito e das virtudes e ética seguidas por quem fala auxilia a entender a mensagem.

Livros são, de fato, produtos da mente humana, mas, ao contrário das falas, são pensados, editados e cuidadosamente planejados. Deste modo, embora categorizá-los em gêneros, como relativistas, absolutistas, modernistas, classicistas, simbolistas ou espiritualistas, dê uma noção do que tratam, não é possível afirmar com exatidão que idéias você encontrará ali até lê-lo realmente e, talvez, até relê-lo.

Isto posto, diálogos com pessoas poderiam ser classificados, em tese, do mesmo modo, a partir da pessoa que fala, pessimista, otimista, realista, analista, subjetivista, misticista, abstrativista, se mentes humanas fossem exatas, com limites bem-definitos e sem a contínua possibilidade de mudança súbita ou gradativa de opiniões. Em outras palavras, escutar uma pessoa com um pré-conceito simplesmente não dá certo e, se uma pessoa insistir nisso, somente vai prender-se nos níveis mais baixos desta arte.

À medida que se progride nos ensinamentos desta linha, vê-se que, como com autores e livros, escutar melhor seus pares e opostos, isto é, tentar escutar todo tipo de pessoa, fornece-lhe uma gama quase irrestrita de conhecimentos em relação a objetivos ocultos e segundas ou terceiras intenções em cada frase, assim como no recurso de certas figuras de linguagem e lugares-comum.

Cabe, nesse instante, notar algo muito interessante: enquanto alguém pode melhorar, permanecer no mesmo lugar ou piorar na arte de ler, dependendo do objeto em que ela é aplicada, a arte de escutar sempre é aprimorada quando praticada, independente do momento. Sendo assim, seria de se esperar que ela fosse, entre aspas, “a mais fácil de todas as artes a ser dominada”. Ledo engano, ou ainda, engano crasso e grave. Se esta arte sempre melhora, ela apresenta uma limitação forte em compensação.

Depois de muito escutar, atinge-se o patamar que pode ser considerado como máximo, onde você está apto a compreender quase tudo o que alguém diz. E a chave e o segredo para isso está precisamente na palavra ‘quase’.

Em equações diferenciais, um tópico de Cálculo Diferencial e Integral, o estudante primeiro aprende a reconhecer a forma geral da resposta, com constante desconhecidas e escopo muito abrangente. No entanto, essa solução geral não serve como conclusão final. Para isso, é preciso buscar a solução particular dentro da geral.

De forma semelhante, a arte de escutar é, juntamente com a sexta arte, ligada intimamente ao conhecimento do objeto analisado. Quanto melhor você conhece a pessoa com quem você interage, muito melhor será sua perícia nesta quarta arte. Portanto, talvez ironicamente, por ser capaz de aprimoração contínua, esta é restrita, e o cume só é atingido em alguns casos específicos.

Isso não significa que escutar é uma arte menor do que as outras cinco, mas que apenas é uma mais seleta. Não há razão para preocupação, pois é tão raro atingir esse nível onde apenas a intimidade permite compreender o que não poderia ser captado por conhecimentos gerais na arte que, no final das contas, não interessa, de verdade, chegar a esse local exceto com algumas pessoas bem-quistas, o que completa o ciclo e a torna tão perfeita quanto todas as outras.

[Tim Maia – Você]

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