Publicado por: yumejin | sexta-feira, 16 novembro 2007

Ars Quinta

[MPB FM pela internet

Em novo endereço, mas a mesma linha. O hiato entre os textos foi devido à mudança.]

Se das outras artes, muito eu podia escrever, desta nem tanto posso explicar. O motivo é a própria essência da arte de mostrar, a terceira forma de se comunicar algo.

Todos conhecemos o velho ditado “uma imagem vale mais do que mil palavras” e, como todas as antigas máximas, ele existe porque é a mais pura verdade. Ele pode ser representado por outra sentença famosa, “contra fatos, não há palavras” – os bons argumentadores e ludibriadores podem tentar distrair com belos discursos e grande eloqüência, mas pouco podem contra uma ação que desmanche todo o quadro tão meticulosamente pintado.

Contudo, não é esse o pilar desta arte mui, mui antiga, anterior às outras quatro sobre as quais discorri. Quando os homens primitivos eram sequer capazes de produzir um som que não gutural ou manejar com algum propósito gravetos chamuscados que deixam rastros de carvão quando arrastados contra a superfície dura das paredes da caverna, eles contavam contos e lendas, acontecimentos cotidianos, o momento mágico em que avistaram sua mulher ou sua melhor caça e tudo o mais que pudesse ser imaginado por suas mentes através de gestos, olhares significativos, expressões forjadas e movimento de mãos, bailando no ar, representando ora o mundo e, logo depois, a morte.

Como em todas as grandes artes, é preciso nascer um virtuose pra ser um virtuose, isto é, alguns bons filhos da Terra nascem com esse talento e outros, não. Obviamente, não é uma questão de ter ou não ter, pura e simplesmente, mas é gradual, alguns mais, outros menos, para uns, tudo, para outros, nada.

Quando crianças miúdas, antes de sermos capazes de reproduzir os sons alienígenas que nossos pais produziam a toda hora, nossa única forma de expressão era através desta arte. E, à medida que crescemos, percebemos que a comunicação através do corpo, ferramenta criada pelo Divino e, portanto, divina, é única no sentido de que é capaz de transmitir sem protelações ou erros o que queremos ou o que sentimos, o primeiro nem sempre equivalente ao segundo.

Os atores são os mais conhecidos usuários do que versam esses conhecimentos. Por horas, eles deixam de ser eles mesmos e, de fato, vivem outra vida, seu corpo sendo o corpo de outra pessoa, suas expressões genuínas no sofrimento ou na lascívia da história. Claro está, não me refiro aos bonecos de cera que se proliferam pelas telas e pelos palcos, única arma deles sendo uma beleza falsa e pegajosa, reproduzida aos milhares, chegando ao ponto de sair do destaque ao comum, até asqueroso.

Existem outras classes e profissões que fazem uso dela: dançarinos, por exemplo, também podem transmitir certas emoções através de seus movimentos, mas, talvez, sejam restringidos pelos limites dos passos de sua apresentação.

Numa conversa direta entre duas pessoas, não são apenas as palavras que contam, mas o comportamento e os gestos. Observar os olho, a boca, as mãos, os braços, pernas, o todo, que não é igual a tudo, diga-se de passagem, por fim, é essencial para exercer com maestria a terceira e a quarta artes.

Mais ainda, que palavras comunicariam melhor alívio do que relaxamento completo da tensa expressão que até dois segundos atrás figurava no rosto do seu interlocutor? Qual frase pode retratar mais a dor da perda de um filho do que o desespero nos olhos e nas lágrimas de uma mãe, a loucura desfigurando sua face?

De todas as seis, a arte de mostrar é única pelo fato de que quase todos passam por esta existência sem jamais receber uma tutoria nela. Exceto pelos que se dedicam por completo a ela, só a notamos através da sexta e última arte.

[MPB FM pela internet.]

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