Publicado por: yumejin | sábado, 17 novembro 2007

Ars Sexta

[Absolutely nothing.]

Por fim, a sexta arte, gêmea da quinta, e o encerramento deste ciclo. Se para entender o que está escrito é necessário ler e para compreender o que foi dito é preciso escutar, para ver o que foi mostrado é preciso enxergar.

A arte de enxergar é talvez a mais exercida e a menos explorada. Exceções deixadas de lado, abrir os olhos é a primeira coisa que fazemos quando acordamos. De fato, reconhecemos o mundo material assim, pelo que vemos. Quando você pensa em um livro, não imagina suas idéias, mas seu formato, um de capa dura vermelha com páginas um pouco amareladas, digamos.

Se mostrar é terreno para poucos, enxergar, com efeito, é para todos e para poucos seletos. Ver, todos vemos. Nesse momento, você pode parar e olhar ao seu redor quantas coisas individuais consegue perceber através da sua visão. Uma, duas, três… cinqüenta só naquele canto empoeirado da quina da parede, onde um dos trilhões de mosquitos está pousado.

Cruelmente, mesmo os versados e bem-versados nesta arte não conseguem mantê-la em prática o tempo todo. Na realidade, nós não estamos vendo tudo o que estamos vendo. Nossa mente enxerga um objeto pela primeira vez e, se não nos focarmos nele, assume que ele permanece igual no lugar onde está. Em outras palavras, aquele livro na periferia do seu campo de visão pode, na verdade, estar em chamas e você vê-lo intacto. Claro, assim que lhe chamei a atenção para o tal livro, sua mente girou o chamado mind’s eye, ou olho interno na literatura brasileira, para lá e confirmou que não, ele não está pegando fogo ou andando ou qualquer coisa absurda do gênero. Foi só um exemplo extremo, não se ligue a ele.

Uma experiência que talvez todo já tenhamos feito é parar no meio da vida e apenas olhar as pessoas andando de um lado pro outro, as casas, os prédios, as plantas, os pássaros, os carros buzinando, as crianças barulhentas, os pombos, uma borboleta preta que voa despreocupadamente. Nesses breves instantes, estamos praticando com toda nossa consciência esta sexta arte. Então, por quê não o fazemos o tempo todo?

Não tenho a resposta final, só Ele tem, mas tenho uma possibilidade. Você pode acatá-la, descartá-la, ignorá-la, analisá-la. O mundo tem tantos detalhes, de tamanho finito, porém infinito para nossos cérebros, que se fôssemos atentar para cada um deles, ficaríamos instantaneamente insanos. Nosso delicado equilíbrio mental se romperia tão vistosamente que, se fosse possível, ondas de impacto atingiriam as mentes de quem estivesse próximo.

Talvez isso queira dizer que esta é, de todas as seis artes, a única que jamais poderá ter um mestre extremado. Pode ser que não. Contudo, os versados nestes conhecimentos aprendem a aplicá-la pontualmente, nos momentos apropriados.

A verdade é que não vemos o que realmente está ali, mas o que pensamos estar ali. O adepto desta filosofia quebra, por um segundo que seja, essa barreira e avalia a realidade pura. Talvez ali encontre algo que vale a pena: um brasão em uma pedra na rua; um número anotado na borda do papel; uma série de termos místicos que indiquem o caminho a ser traçado.

Como escrito, enxergar é para todos e para uns poucos seletos. Ela pode ser usada em conjunto com a segunda e quarta artes, assim como com a primeira, a terceira e a quinta.

A propósito de teste, procure ativamente aprimorar-se nas seis artes com as seis pessoas de quem goste mais. Talvez você descubra que elas têm mais do que o seu olhar capta. Não custa nada e, afinal de contas, é só uma vida, não é?

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