Publicado por: yumejin | quinta-feira, 22 novembro 2007

“Απολογία”

Capa da Apologia de SócratesΑπολογία, no nosso alfabeto Apologia, porém mais conhecido como A Apologia de Sócrates, escrito por Platão, seguidor de Sócrates.

Como se sabe, Sócrates jamais escreveu um livro ou sequer uma linha num caderno de anotações para a posteridade, talvez por idiossincrasia. Em compensação, seus fiéis seguidores, não discípulos já que o próprio não admitia tê-los, tomaram para si a tarefa de transcrever e repassar alguns dos discursos e das idéias mais importantes de seu mestre.

Embora o mais conhecido e competente de todos esses tenha sido Platão, um filósofo competente e sábio, existiram outros, como Xenofante, que escreveram, inclusive, textos sobre a mesma ocasião, incluindo a apologia que Sócrates fez diante do tribunal composto por Anito, Meleto e Lícon.

Diferente da grande maioria dos textos de Platão, este não é um diálogo, em que Sócrates conduz um ou mais interlocutores até uma conclusão ou à refutação de uma proposição inicial, mas, em sua grande maioria, um monólogo em que ele não busca definir algo abstrato como a beleza ou a verdade, e sim falar de quem é o verdadeiro Sócrates.

Talvez por causa disso, sua linguagem é simples e fluida, sem a aridez e a preocupação com os termos que existe, por exemplo, em Πολιτεία, ou A República, e Σοφιστής, ou O Sofista. Além disso, pela primeira vez talvez, Sócrates responde às acusações que lhe perfizeram e seguiram pela sua vida ateniense.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, Sócrates apresenta sua apologia propriamente dita, utilizando como base os argumentos formais principalmente de Anito e Meleto, já que Lícon mal é citado e não tem qualquer papel relevante, tendo sido provavelmente apenas chamado para apoiar seus colegas. É exatamente desse primeiro pedaço que vêm duas de minhas citações prediletas de Sócrates:

” … há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que éverdade. E isso é o que vai me vener, se eu for condenado… e não Meleto, ou Anito, mas a calúnia e a insídia do povo: pela mesma razão se perderam muitos outros homens virtuosos e outros ainda, creio, serão derrotados, pois esse mal não termina comigo.” – Primeira Parte, XV

“… Ninguém sabe se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior de todos os males.” – Primeira Parte, XVI

Na parte central, Sócrates comenta o resultado da votação dos jurados, que decidiram, por 281 a 210, que era culpado. Por tradição, era concedido ao condenado outra vez lugar para comentar sobre a decisão e fazer sua defesa final, procurando amainar a pena. Contudo, é exatamente isso que o filósofo não faz. Visivelmente, há um certo deleite em mostrar que, se 30 pessoas, apenas 30, tivessem votado por ele, a decisão seria revertida. Além disso, o réu também tinha o direito de fazer uma contra-proposta à pena sugerida, que no caso era uma pesada multa. Sócrates sugeriu primeiro o direito de refeições gratuitas até o fim de sua vida no local reservado aos heróis da cidade. Depois, pensou que uma moeda de prata fosse a multa justa, já que ele nunca cobrara por suas lições nem tinha rendas.

Na terceira e última parte, em que os juízes, forçados pelas opções que Sócrates lhes dava, o condenam a tomar um cálice de cicuta, o filósofo faz um último discurso diante daqueles que ali estavam antes de seguir para a cela, onde agüardaria a execução que viria logo. Deste trecho, segue esta citação:

“Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou, como se costuma dizer, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. Creio que, se alguém escolhesse a noite na qual tivesse dormido sem ter nenhum sonho, e comparasse essa noite às outras noites e dias de sua vida e tivesse de dizer quantos dias e noites na sua vida havia vivido melhor, e mais docemente que naquela noite, creio que não somente qualquer indivíduo, mas até um grande rei acharia fácil escolher a esse respeito, lamentando todos os outros dias e noites. Assim, se a morte é isso, eu por mim a considero um presente, porquanto, desse modo, todo o tempo se resume em uma única noite.

Se a morte, porém, é como uma passagem deste para outro lugar, e, se é verdade o que se diz que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Porque, se chegarmos ao Hades, libertando-nos desdes que se vangloriam de serem juízes, havemos de encontrar os verdadeiros juízes, os quais nos diriam que fazem justiça acolá: Minos e Radamantes, Éaco e Triptolemo; e tantos outros deuses e semideuses que foram justos na vida; então essa viagem não valeria a pena? Que preço não seríeis capazes de pagar para conversar com Orfeo, Museo, Hesíodo e Homero?

Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim, especialmente, a conversação acolá seria maravilhosa, quando eu encontrasse Palamedes e Ajax Telamônio e qualquer um dos antigos mortos por injusto julgamento. E não seria desagradável, me parece, confrontar com os seus os meus casos e, o que é melhor, passar o tempo analisando e comparando os de lá e os de cá, os últimos dos quais têm a pretensão de conhecer a sabedoria dos outros, e acreditam ser sábios e não são. A que preço, ó juízes, não se consentiria em examinar aquele que guiou o grande exército a Tróia, Ulisses, Sísifo, ou infindos outros? Isso consistiria indescritível felicidade.

Com certeza aqueles de lá mandam a morte por isso, porque, além do mais, são mais felizes do que os de cá, mesmo porque são imortais, se é que o que dizem é verdade.” – Terceira Parte, XXIX

Por último, Sócrates termina perguntando quem estará indo para o melhor destino, seus juízes em liberdade, ou ele, preso.

Convém lembrar, no entanto, que, apesar de ser homem de excelente caráter e ótimas idéias, Sócrates não era perfeito. Ele idolatrava Esparta, considerava a monarquia o melhor sistema político, vendo a democracia como uma corruptela menor, e foi mentor de dois tiranos que controlaram Atenas por certo tempo. Além disso, apesar de citar dois exemplos onde ele teria sido muito fiel à cidadania, Sócrates pouco se movimentava para tornar mais justa sua cidade, preferindo ficar na praça e discutir sua filosofia.

Embora não seja o mais edificante,  Απολογία é um bom livro de Platão e merece ser lido.

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