Publicado por: yumejin | sábado, 24 novembro 2007

Constituição Interna

Constituição de 3 de maio de 1791

[Natasha Bendingfield – Unwritten]

“Assim como é em cima, é embaixo” disse uma vez Hermes Trismegisto, o Três Vezes Máximo, a lei que rege as relações macro e microscópicas do nosso universo. Desta maneira, o mundo real tem suas leis e o nosso, também.

É a constituição interna que rege a nós e a nosso universo particular, um código de leis, comportamentos, tabus e penas que criamos e modificamos constantemente.

De certo modo, somos todos criadores de mundos, pessoas, espíritos. A grande diferença entre nós e Ele é que nós não podemos produzir senão uma imagem mal-feita do que imaginamos – por isso que tudo parece melhor quando imaginado e sempre sentimos que não saiu do jeito que queríamos – enquanto Ele pode, com o menor movimento de um dedo, criar a vida ou acabar com uma estrela. Nós estamos presos a uma longa série de limitações humanas, uma impotência congênita frustrante, mas que existe para nossa proteção, enquanto Aquele que nos criou, não. De fato, existem certas escolas que dizem ensinar meios de afrouxar essas amarras, porém isso é nebuloso e incerto e não me cabe discutir sobre algo que não sei.

Essas leis e posturas são regidas pelos nossos valores, aquilo que acreditamos ser correto e errado, o que cremos ser bom e mau e o que achamos ser forte e ser fraco. Embora exista certa dependência do mundo ao redor, isto é, se vivemos em uma sociedade déspota, teremos certa tendência ao autoritarismo, também leva-se em conta nossas capacidades físicas e mentais e, por último, um fator aleatório não-aleatório [no sentido de que não há uma lei que o reja, mas que é escolhido pelo Ser Maior] pessoal e único, cujas propriedades são insondáveis, ao menos, para mim.

É por causa dessa gama virtualmente infinita de diferenças, das mínimas às essenciais, que dar uma esmola ao mendigo pode ser quase compulsório para alguns e impensável para outros. Da mesma forma, colar num exame de Geografia ou Cálculo pode ser normal para vários, mas impensável e errado para alguns.

Todos os elementos da nossa criação mental obedecem essa constituição – isso não quer dizer que todos os personagens que criamos sigam as leis fielmente, mas que são julgados e vistos de acordo com elas. Da mesma forma, as pessoas que conhecemos são avaliadas de acordo com esse cânon.

Mais do que importante, vital é lembrar que isso jamais quer dizer que a moral é relativa e que o certo é questão subjetiva, dependendo de cada um. Existe, sim, o mal e o bem absolutos e todas as ações podem ser categorizadas como boas, más ou neutras, sem meio-termos. Quebrar uma garrafa e cortar a garganta de um bêbado por causa de uma briga de bar é mau. Pegar o revólver do avô e derrubar o assaltante que queria violentar sua irmã é uma defesa compreensível, mas permanece sendo mau. O que é necessário é avaliar se cometer esse ato mau é melhor do que permitir que outro mal seja cometido.

Como escrito acima, essa constituição não está a salvo de modificações e influências externas. Muitas pessoas, com o passar dos anos, dos sonhos e das decepções, tornam-se mais cínicas e menos idealistas, com leis mais brandas para corrupção e inação e recompensas mais foscas para boas ações e méritos. Além disso, depois de viver num ambiente cruel por tempo o suficiente, é comum questionar seus próprios valores. Por último, duvidar se vale a pena fazer o certo quando todos fazem o errado e se dão melhor com isso é humano.

Na via contrária, ter filhos costuma ser uma renovação de energias, apesar do desgaste envolvido e do esforço durante anos não-reconhecido; fazer caridade e observar os efeitos, sem alardeá-los, é também o motor de alguns; a fé ou a religião são suportes poderosos e a crença em Deus pode manter muitos no caminho da retidão em busca da felicidade verdadeira.

Embora seja assunto para outro escrito, permita-me lembrar de uma coisa: o certo será sempre o certo, os bons serão sempre os bons e os maus nunca triunfarão enquanto existir alguém que não seja fraco e resista às tentações do mundo corrupto – porque ser bom não é ser perfeito, mas conseguir dizer não mesmo quando todo o mundo lhe é oferecido em troca de fechar os olhos para um pequeno mal que seja.

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