Publicado por: yumejin | domingo, 25 novembro 2007

Panteão Pessoal

Os Doze do Olimpo reunidos[Buffy Musical – Standing in the Way]

A afirmação “dentro de cada um tem um herói” é, ao mesmo tempo, certa e incorreta. Ela está certa porque, de fato, dentro de cada um há um herói, mas é imprecisa porque não é só um herói, mas vários deles, além de vilões, protegidos, deuses e deusas, sacerdotes e mentores, tutores e discípulos e por aí vai.

Quem nunca sonhou em ser o super-homem? Eu nunca, mas uma pergunta para a qual a resposta com certeza será sim é: quem nunca sonhou em ser um super-herói? Alguém com poderes sobrenaturais, como super-força, super-velocidade, conhecimentos místicos e mágicos, controle sobre o ki, o chakra, a energia ou o mana?

Na verdade, dentro de nossos universos particulares, temos não apenas um alter-ego super, mas vários, com poderes variados, que apreciamos. Não só justiceiros e paladinos da justiça, mas também vilões e anti-heróis, com propósitos, se não malignos, egoístas ou que não agradariam à maior parte do mundo.

Essas facetas “impossíveis” são parcelas da nossa mitologia pessoal, mas apenas umas das muitas que ela apresenta. Cada ser humano tem um conjunto de crenças, por assim dizer, para não confundir com fé, que é a crença que temos no mundo real, e poderes ocultos que regem o mundo interno e externo aos nossos olhos.

Partindo dos heróis, ou semideuses, podemos falar dos deuses e deusas – modelados a partir de pessoas que admiramos, esses seres imaginários são dotados de sabedoria infinita ou beleza infindável – que existem no mundo real e interagem ou não conosco. Uma fã, por exemplo, do Leonardo pode vê-lo, no seu interior, como alguém além das estrelas, incompreensível e fascinante ao mesmo tempo.

Esta parte da mitologia interna é tão poderosa que interfere na nossa visão de mundo, retribuindo com uma imagem diferente o que passamos para a nossa mente. Melhor explicando, aquela sua amiga inteligente pode ser o expoente do conhecimento no seu mundo e, por causa disso, você a trata com total reverência e procura sanar todas as suas dúvidas com ela. Mesmo quando ela diz “não tenho certeza”, você ainda terá a opinião dela em mais alta conta até do que a sua.

Uma terceira via da mitologia particular age ainda mais diretamente sobre nossa interação com o mundo real – são as superstições e crendices – isto é, crenças menores. Para o seu primo, por exemplo, as plantas têm, na verdade, uma consciência única, como uma rede mundial completamente interligada, e os cachorros são seres muito evoluídos que vieram de outra galáxia e estão aqui para vigiar os humanos. Além disso, é preciso fechar os olhos todas as vezes que um ônibus passar ao seu lado na rua e nunca deitar sem camisa ou a alma dele pode partir e não voltar. Essa via varia enormemente de pessoa para pessoa, o que não impede que vários pontos em comum existam entre conhecidos ou estranhos. Mesmo que tenhamos sidos nós que formulamos essas hipóteses ou que tenhamos lido em uma revista em quadrinhos, ainda que sejam absurdas ou improváveis e tenhamos consciência disso, gostamos de acreditar e agir como se fossem verdade e lembrar que nada palpável contesta essas convicções.

A base do nosso panteão pessoal é, provavelmente, o mais interessante de tudo. Como qualquer mitologia, e daí vem o nome, a nossa é sustentada por mitos, como o de Édipo, Ulisses, Desespero, Osíris ou os Sete Homens. Em geral, são histórias reais, algo simples como um acidente de bicicleta, uma conversa entre amigos, uma briga, um passeio da escola, uma coisa que sua vó lhe contou, a partir das quais tiramos lições e fazemos juízos de valores. É a essas histórias que recorremos quando queremos nos lembrar do justo, do feio, do medo e do maravilhoso. De todos os aspectos, que aqui só mencionei quatro, esse é o mais único de todos, a parte mais pessoal, e aquela que, apesar de mais sutil, é a mais duradoura, se enriquecendo ao longo da vida.

[Milton Nascimento – Paisagem da Janela]

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Responses

  1. e… se fala do imaginário humano.


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