Publicado por: yumejin | sábado, 1 dezembro 2007

Certas coisas nessa vida…

[Herbert Grönemeyer – Mensch]

Certas expressões me irritam profundamente. São frases de cunho particular geralmente utilizadas com reticências ao final e um sorriso um quê superior como remate no meio de uma discussão ou contra uma oposição.

Uma delas é “se a carapuça serviu…” – essa frase, em si, contém elementos de [des]argumentadores que me deixam, ao mesmo tempo, frustrado, desanimado e furioso.

Um parêntese aqui cabe para comentar sobre o uso de adágios, ditos, provérbios, ditados e expressões célebres ou celebradas. Em especial com os primeiros cinco, não tenho qualquer desgosto. Adágios, ditos, provérbios e ditados são riquezas da memória de uma população e transmitem em uma linha várias lições que as pessoas fazem o [des]favor de esquecer sempre. As expressões célebres, citações de grandes homens ou atribuídas a eles, também são duplamente interessantes – servem para lembrar o significado da frase em si e rememorar todas ações de tal pessoa. Um “veni, vidi, vici” ou “Ave Caesar, morituri te salutant” bem colocadas são melífluas aos ouvidos dos que estão presentes.

No entanto, é preciso cuidados com as expressões celebradas. Essas, sim, são o perigo. É de consenso geral que existem mais pessoas que não sabem discutir do que o contrário. Não estou dizendo se opôr, não confundam-se, mas argumentar com clareza, organizar as idéias e os fatos, as estatísticas e as teorias de modo que possa guiar mesmo um adversário através de ambigüidades e possíveis interpretações de má fé até a sua visão. O mundo carece desses raros pássaros, livres de algumas das amarras a que estão presos a retumbante e augusta maioria.

A apelação para uma expressão celebrada ocorre, em geral, quando os parcos argumentos do que fala se esgotam e ele resolve “jogar para a platéia”. Aí está uma frase celebrada que não é de todo mal – não é mais do que popularizar e resumir uma boa interpretação dos fatos. Fim do parêntese.

Ia eu começar este parágrafo com “o mundo de hoje sofre de um grande mal…”. Contudo, parando pra pensar menos de 2 segundos, vi que um grande mal é uma brincadeira de péssimo gosto… nós estamos moralmente falidos, com uma sociedade estúpida e hedonista, sem grandes aspirações, propósitos ou crenças, egoístas e simplórias. Então, recomeço-o de modo diferente.

Seguramente, quase todas as pessoas são inseguras. A necessidade temerosa de agradar quem quer que seja, até mesmo colegas por quem não se tem apreço, apenas para não ser vistos com maus olhos, é tão sufocante, quase materializada a ponto de se sentir um leve olor doce demais, faz com que seletos tenham a coragem, quase a bravura, quem sabe temeridade, de dizer o que realmente pensa.

Semente disso é que, para impressionar que mais ouvir e, ao mesmo tempo, não se responsabilizar por insinuações, jocosas, vis ou covardes, muitos tentam dar um coup de grâce na discussão com o tal “se a carapuça serviu…”. Uma saída tão asquerosa, que combina em si incapacidade e cinismo, pedância e medo, que deveria ser banida das bocas dos homens bons.

Portanto, se minhas palavras escritas de algo valem, ouçam meu conselho, que eu lhe dou de graça: Combinem entre si e abolem a expressão ou percam parte da credibilidade em suas discussões, não as de bar ou as de faculdade, aquelas em que quem utilizar a citação do filósofo mais complexo vence, mas as de verdade, com pessoas que vocês reconhecem saber pouco menos, tanto ou mais que vocês próprios.

[Chico Buarque e Elis Regina – Noite dos Mascarados]

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Responses

  1. Bem,

    Quando li, pensei que a carapuça poderia servir para mim inclusive, mas eu trato de criar meus próprios termos usuais, e não me limito simplesmente a usar àqueles que já habitam o palavrório do populacho.

    E como bom falador, realmente também me irrita certos vícios de linguagem e de argumentação que ao invés de garantir ao proponente vantagem de estilo ou argumentativa, apenas servem para deixar o discurso obtuso e irrisório

    No mais, bom texto, MENOR.

    Não propagandeei o Quodlibetários antes pelo mesmo motivo pelo qual não postei nem comentei nem li os demais textos: falta de tempo.

    Mas isso está para melhorar.

    Quodlibet!.


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