Publicado por: yumejin | domingo, 2 dezembro 2007

Fios de Nuvens

Quanto melhor se é em alguma coisa, mais amaldiçoado se torna. No início, a euforia de ser o primeiro entre todos que o rodeiam é recompensadora, a admiração, o respeito, os olhares de reverência e o poder são enlevantes. Dois meses ou dois anos depois, o que resta daquele brilho e do furor é a purpurina salpicada pelo vestido antigo e caída como estrelas no chão do armário, uma constelação de passado.

Competir com si mesmo? O tão fabuloso e belo ideal dos atletas das entrevistas, procurar sempre ser melhor, aprimorar-se, vencer-se? Espere até que a repórter sorridente saia do ginásio ou do quarto de hotel e veja por si a realidade – um olhar perdido, seco, sem propósito.

O alto do monte é solitário demais. O que nos traz mais e conforta no mundo é a igualdade – irmãos na dor, na diversão, na dispersão, no asco e no sangue. Pares, colegas, convivas, comensais.

A angústia de saber que ninguém pode saltar ao seu lado, enxergar as mesmas linhas, pensar as mesmas coisas… ser medíocre é estar mergulhado num lago de éter, anestesiado para o que flutua acima e para o que ronda abaixo.

Cada um sabe a cruz que carrega… cada um sabe o sol que leva… não, nada disso. Ninguém sabe a sina que lhe cabe, a sorte da corda em que se equilibra. Cair é simples como dar um passo para o lado, calmo, de olhos fechados, os braços se movimentando inúteis no espaço. Não vale o custo.

O fel que lhe escorre pelos olhos escondidos e em que só você é embebido é mais real. Quanto mais perto do Sol, mais derrete a cera das suas asas e voar se mostra tão ilusão quanto é. Lá está ele para queimar nossas retinas.

Olhar para o mais alto e se segurar naquele que carrega em si a cor que lhe completa, o riso que lhe dignifica, o olhar que lhe sangra. Somente isso faz com que o próximo movimento dos outros, digladiando-se com seus próprios gestos, se torne tolerável.

A redenção pela fé e pelo amor. Ridiculamente divino, sublimemente humano.

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Responses

  1. perfeito.

  2. Dificilmente me identifico tanto com um texto como me identifiquei com esse.
    Pretensamente digo que é horrível, tudo. Que sim, é solitário. Que a euforia logo passa. Não só a alheia, mas a nossa. Que a euforia dá lugar justamente a eterna competição entre nós e nós mesmos. E a passada euforia alheia dá lugar a uma mistura de inveja e pena. Em alguns cesos, simples indiferença.

    Eclaro que no fim das contas, não vi nem a metade da missa.

  3. Concordo. O mal de boa parte dessa geração é realmente procurar pêlo em ovo. Acho que é justamente o trechinho que termina o post (que é uma fala de uma das gurias do seriado). Estão todos afoitos demais para sentir. E duvido muito que saibam o que, no fim das contas.

    Ah, eu sou metida mesmo. Fui deixar um scrap pra Muzitano e vi o seu com link. Resolvi entrar e tal.

  4. Isso me cheirou sabe a que?

    NIETZSCHE.

    “A promotoria encerra.”


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