Publicado por: yumejin | quarta-feira, 5 dezembro 2007

A correnteza de piche

Dia 04 de dezembro de 2007. Não ficará marcado por nada em especial. Não foi o nascimento de um grande líder [provavelmente], nem a morte de outro. Nenhuma revolução ocorreu, a vida não mudou, as aves no céu continuam a flutuar indiferentes ao que ocorre sob suas asas tão livres.

Esse dia foi ontem e aconteceram duas coisas – Romário foi pego no exame anti-doping por causa de um tônico capilar e Renan Calheiros foi absolvido novamente por seus pares.

De tão desiludidas, desenganadas e enganadas, as manchetes dos jornais que as pessoas lêem deram enorme destaque à calvície do Baixinho e publicaram, com certa complacência, a notícia que partiu do Senado. Dos grandes, como “O Globo”, aos tablóides do nível do “Expresso”, nenhum apresentou grande manifesto, repulsa, indignação.

Não vou mentir, aliás, não preciso mentir. Se nas reuniões sociais, adotamos máscaras e convenções, embora eu muito relute em usá-las, escrevendo não há razão para fazê-lo. Apenas os tolos o fariam [e o fazem]. Eu também fiquei decepcionado. Minhas esperanças também feneceram um pouco. As flores do mal que em mim vivem se tornaram mais fortes. Só por uma noite.

Se os justos submergirem nessa correnteza de piche, é o fim de tudo, eu acho. Derrota por desistência. Só restará a imagem retorcidade de uma pedra no fundo do rio, algo que um dia fora orgulho e hoje, é vergonha.

Sentei ontem com meu irmão e meu amigo para assistir a votação. Vi alguns senadores discursarem. Não sei ao certo qual era a minha sensação. Pedro Simon, senador gaúcho do PMDB, admitiu que já sabia o resultado, todos já o conheciam, absolvição do Renan e aprovação da CPMF, mas ainda assim iria votar do jeito que deveria. Outros “representantes do povo” também discursaram – alguns fracamente, como Arthur Virgílio e Francisco Dornelles, outros com melhor capacidade, como Jefferson Peres, redator do processo. Por fim, o representado, Renan Calheiros, ex-presidente da Casa, pois que renunciou estrategicamente horas antes, argumentou por 50 longos minutos.

Para quem não acompanhou, fique sabendo desde já que esse vil possui a qualidade certa que lhe cabe – a retórica. Como poucos, soube utilizar as acusações a seu favor. Delicadamente, torceu os poucos fios que lhe prendiam tenuamente, a ponto de passar por uma metamorfose, de torpe a alvo em menos de uma hora. Em contraste com os outros, ele parecia um dos poucos vivos naquele sarcófago de más intenções.

Confesso que no momento da votação, fiquei com uma expectativa imensa. Acreditei, de verdade, que ia acontecer… que o painel eletrônico mostraria um 41 x 39 a favor da cassação. 78 senadores já haviam votado, faltando Eduardo Suplicy de São Paulo, Jorge Bornhausen de Santa Catarina e Renan Calheiros de Alagoas.

Renan Calheiros deixou seu voto por último e decidiu, grandioso espetáculo aquilo foi, abdicar de seu direito ao voto. Desejei com todas as minhas forças que ele se desesperasse por esse ato… mas não aconteceu. 29 x 48, com 3 abstenções. Pisquei uma vez, incrédulo, e outra, para não esquecer daquele momento.

Vale notar que, apesar de só ter escutado Francisco Dornelles, do PP, falar, sei em quem votaram também Paulo Duque, do PMDB, e Marcelo Crivella, do PRB. Os três, representantes do meu estado, o Rio de Janeiro, representantes da minha vontade, votaram à favor de Renan Calheiros. Novamente. Peço que se lembrem disso daqui 4 anos.

Aproveitando o ensejo, tenho outro pedido: não consigo disfarçar, continuo tendo esperança mesmo quando diante desses reveses todos. Acredito porque, em trinta anos, esses que maculam o nome da nossa pátria terão o mesmo destino que qualquer outro ser, serão pó da terra. O que restará então somos nós. Então, se você é justo, é bom, ou pelo menos tenta sê-lo, permaneça fazendo-o. Não desista, por favor. Ainda que você seja o único a não colar na prova, ainda que seja o único a dar a vez a um senhor idoso, ainda que seja o único a pegar o lixo do chão e jogá-lo na lixeira, ainda que seja o único a ajudar seus pais em casa, não desista. Ou eles vencerão.

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