Publicado por: yumejin | sexta-feira, 7 dezembro 2007

O Ideal e o Real

Qualquer pessoa já se viu diante de uma bifurcação no caminho. Algo simples, “ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva”, ou muito mais elaborado, como a escolha entre duas amizades e seus futuros possíveis desdobramentos.

Em qualquer uma dessas situações do amplo espectro possível, existe uma atitude que é chamada de “ideal”. Ela é o que, idealmente, se todas as melhores hipóteses fossem realidade, deveria ser tomada.

No mundo ideal, o sistema de governo seria a democracia total, porque todas as pessoas teriam conhecimentos decentes para votar conscientemente, e não levadas por desejos mesquinhos, como uma vaga na empresa de águas da cidade se o cunhado se tornar vereador.

Pra falar a verdade, no mundo ideal, não seria necessário sequer governo, já que todos teriam acesso a estudo o suficiente para se auto-gerirem sem grandes problemas. Qualquer decisão necessária seria tomada pelo conjunto, levando-se mais em conta as opiniões de quem é melhor. Uma espécie de meritocracia.

No mundo ideal, não existiriam provas, com as de vestibular ou as de fim de ano. As avaliações seriam feitas constantemente durante as aulas e o aluno só progrediria se tivesse entendido realmente a matéria.

No mundo ideal, nós aprenderíamos coisas importantes, como ética, boas maneiras, leis freqüentemente desrespeitadas, no campo teórico, e educação física, relaxamento e alongamento e meditação, no campo prático, em qualquer escola ou faculdade que nos matriculássemos.

No mundo ideal, teríamos acesso, físico ou virtual, a qualquer livro feito, para que pudéssemos beber da fonte das idéias de pensadores que viveram e morreram séculos antes de nós e que levaram uma vida tão distinta da nossa atual que nosso horizonte mental se expandiria milhas e milhas só de ler seus livros.

No mundo ideal, a busca pelo prazer incessante seria substituída pela busca pela felicidade verdadeira, onde quem tivesse mais faria o possível para ajudar quem tivesse menos, fosse inteligência, experiência, dinheiro ou habilidade.

No mundo real, nada disso vale. É duro, mas é a verdade. Não podemos tomar as atitudes ideais nesta realidade. Podemos tomar atitudes reais que levem às atitudes ideais. Do quê estou falando?

O ideal seria que você decidisse em conjunto com sua família todas as suas escolhas que a afetassem. Comprar ou não um utensílio doméstico, sair de férias ou não. No entanto, se só você tem idéia real de quanto vale o dinheiro, então não pode fazê-lo. É um dilema ético? Não, porque se as condições não são ideais e perfeitas, não podemos usar fórmulas para coisas ideais e perfeitas. Podemos almejá-las como metas, como exemplos, mas nunca como ações concretas.

Chegando ao pináculo da exposição, se a democracia é justa, só o é se todos forem iguais. Contudo, como diz a minha mãe, “o problema é que uns são mais iguais do que os outros”. Para liderados desinteressados ou desinformados, que não querem se mover e nem para onde deveriam ir e só fazem besteiras sozinhas, um líder autocrático é o mais recomendado.

Não estou fazendo apologias a ditaduras ou regimes deste gênero. Não sou fã do homem de vermelho do país ao lado e nem comungo dos ideais distorcidos dele. Só vejo que o sistema certo com raízes podres não resultará em nada de bom.

A solução são os militares, então? Claro que não. O autoritarismo burro é, sem dúvida, ainda pior do que a democracia burra. Uma pessoa sozinha tem mais chances de errar do que uma multidão que debate as idéias. Então, o quê?

“O homem não muda senão a si mesmo”. Tome, você, as decisões que deve tomar. Isso não significa justificar todos os atos que faz, não interprete tudo errado. Só aja com convicção depois de refletir que aquilo é o melhor a fazer. Atente que isto não indica que você deve sempre se postar em demorada ponderação sobre o curso de ação a tomar, mas que você deve decidir sempre conscientemente, mesmo que essa resolução demore meros milissegundos.

Paute sua vida com valores ideais, como a justiça, a igualdade, a fidelidade, a bondade, mas aja no mundo real. Ouça as opiniões dos outros, mais velhos e mais novos, amigos e opositores, mas não se deixe levar pela escolha de ninguém. Todos fomos dotados com um intelecto maior do que a de um cachorro, que simplesmente abana o rabo e segue o primeiro que lhe afaga a cabeça.

A grande divisória entre o certo e o errado é complicada de ser enxergada todo o tempo, mas você deve sempre buscá-la. Tomar atitudes reais não significa ignorar as ideais, mas se aproximar delas por uma via concreta, e não só imaginária. Se o ideal seria que você doasse para o asilo todo mês um décimo das suas receitas, mas você se acha fraco demais pra isso ou não tem como [o que é bem difícil ser verdade], resista à tentação de simplesmente balançar a cabeça com uma cara patética de “desculpa, eu não tô com a menor vontade de tirar as duas notas de 1 real da minha carteira por você” e entregue dois reais para alguém de uma casa de caridade que lhe pedir – uma ONG, um orfanato, um asilo, um centro de recuperação de viciados, o que for. Não precisa fazer isso todo dia, sempre que lembrar e tiver vontade para isso está bom.

Nosso mundo real não é o ideal. Porém, nunca chegará a sê-lo se nós não começarmos a mudar, saindo das atitudes reais “comuns” para as atitudes reais-ideais, aquelas que não são as ideais, mas que tentam chegar perto delas. Um dia, nem que leve um tempo infinito, elas serão iguais. E a eternidade pode ser amanhã.

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