Publicado por: - TCZ - | sábado, 8 dezembro 2007

“A caixa de som ruim, os bêbados barulhentos e dois pedaços de dedo”

“Então foi assim

Era um clube desses, onde muita gente se aglomera para beber, fumar e cultivar outros maus hábitos. O ar estava terrivelmente carregado, denso como se pudéssemos cortar uma fatia e servir num prato raso junto com um copo dum alcoól qualquer. Pouco dava para ver por entre a cortina de fumaça, a iluminação ruim ajudava muito, nenhuma luz no teto que chegasse a todos, a pouca luz do lugar vinha de abajures sobre as mesas e lâmpadas suspensas sobre locais estratégicos

Os abajures estavam sobre várias mesas colocadas de maneira espalhada, cada uma num canto formando grupos ou não. Não importa mesmo, dificilmente nesse clube os habitantes das mesas cruzariam seus assuntos. Normalmente as pessoas desse lugar vão em bando, bandos autônomos socialmente. Apenas precisando de bebida e fumo, muito de ambos.

Claro, também existem aqueles que estão sozinhos e estes estavam debaixo dos abajures do balcão e dos neons semi-apagados com nome de bebidas famosas e maços de cigarro cultuados. Um grande balcão, talvez o único móvel sólido do local, estava junto a uma das quatro paredes e vários bancos com seus repectivos moradores estavam acompanhando o amigo balcão. Pessoas de um lado forneciam a bebida para que pessoas do outro pudessem esquecer enquanto pudessem pagar, assim que funcionava.

Também tinham lâmpadas suspensas sobre as mesas de bilhar, onde pessoas mal encaradas ou esnobes, bebiam e fumavam o suciente para manter a firmeza dos seus movimentos (ou bebiam e fumavam justamente para garantí-lo) apostavam dinheiro, copos, mulheres ou a sí próprios enquanto tentavam adivinhar em que buraco a bola que acertassem com a outra bola que seria acertada pelo taco que era movido com firmeza pelo adivinho iria cair. Era um jogo complicado, mas muitos sabiam jogar, talvez jogassem para mostrar isso para os incapazes ao redor.

Num canto esquecido havia um pequeno espaço vazio com um palquinho baixinho, quase um defeito no piso de tão insignificante. Poucos ali sabiam que era de fato um palco, talvez até mesmo os donos não sabiam disso. Pouca gente se lembrava porque nesses lugares, você vai para se ouvir falar enquanto os outros tentam fazer a mesma coisa, todos gritando e achando, por causa do alcoól, que fazem sentido e que todos, exceto ele, estão bêbados e imbecis demais para peceberem. Naquele dia, quatro homens se preparavam para tentar encher o ambiente, competindo com a névoa feita pelo suor e com a cortina de nicotina, com música. Naquela época era moda guitarras elétricas graças aos astros americanos da música. O que antes era música de negros tão somente, invadia os pubs mal cheirosos da capital inglesa. Mas, em lugares como aquele e em muitos outros, a música servia apenas para que houvesse alguma coisa que não o burburinho da turba, que preenchesse todos os silêncios constrangedores, os hiatos tensos entre poteciais duelistas e silenciace a temida voz da consciência de cada frequentador. Se entregando ao ritmo e aos entorpecentes todo o resto não importa mais. Amnésia acústica.

Tudo pronto, instrumentos preparados, todos os botões e chaves no “ligado”, que haja música! Mas ninguém parece ouvir. “Malditos sejam”, ninguém os ouve, não precisam exatamente ouvir a música, precisam mesmo não ouvir a si mesmos, essa a função da banda. A banda discordava veementemente. Os tons da música precisavam ser mais altos, talvez quem sabe se o guitarrista tivesse todos os dedos poderia fazer algo melhor, mas infelizmente, tinha perdido partes de dois dedos da mão direita num acidente industrial, não conseguia imprimir a tensão suficiente as cordas para que elas soassem bem na afinação padrão, logo teve que diminuir a tensão nas cordas de modo que pudesse controlar melhor a força e a profundidade do som de sua guitarra, mas graças a isso o som ficava mais grave e chamava menos a atenção das pessoas.

E se aumentassem simplesmente o som das caixas? Era arriscado devido a fiação terrível do local, poderiam até mesmo provocar um curto ou quem sabe mais o que. “Que se dane” pensaram, “esses malditos ouvirão nossa musica queiram ou não”. O volume foi ao máximo, a distorção acústica foi a extremos que em outras ocasiões poderiam ser considerados desconfortáveis, mas não naquela noite. O som atingira tons graves muito definidos como jamais se havia escutado em toda a história humana. Aquele som tocou a parte mais profunda da alma dos freqëntadores da casa, atingindo toda a sujeira negra daquelas pessoas, convocando para fora aquilo que desejavam esquecer. Como uma corrente de energia vinda do próprio inferno, aquele som, metálico, vinha e atraia todos os humores malignos a superficie. A cacofonia deu vazão a uma catarse gigantesca, uma catarse de fel que tomou todos os presentes num transe.

A voz que vinha aos seus ouvidos era rouca e algo de fanha, cômica sem acompanhamento sem dúvida, mas integrada a sua sinfonia era como um líder daquela legião infernal, um maestro que mantinha o piche oculto do espirito dos homens sob seu comando. Cantava as dores do mundo e sobre os seres humanos, seus sentimentos e seu potencial destrutivo. Cantava tudo isso e esvaziava os ouvintes de sua fadiga e ansiedade. Estavam mais leves, tudo pela música. Prestavam atenção, totalmente dominados por aquele som.

Quando a banda entrou no clube era mais um grupo inglês alternativo e mal produzido de musica ruim, quando sairam, ovacionados, eram história. Naquele fim de semana, naquele Sábado negro como o ébano, o Black Sabbath inaugurou a história do metal.

Graças a uma caixa de som ruim, bêbados barulhentos e dois pedaços de dedo.”

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Responses

  1. E eu pensando “nossa, essa parte dos dedos… lembra a do guitarra do Sabbath”

    ¬¬

    muito bom :) todo de autoria tua? (mesmo que tenha buscado os fatos e referências…)

  2. *clap clap clap*

    Muito bom, Tcz!!!

    Tá de parabéns, mto interessante o texto e as descrições tb, me remeteu a imaginar o lugar todo! ^^
    Ah e nem sabia que o Black Sabbath tinha começado assim!!! tenho que ver mais MTV AHUiahiuHAIuhau

  3. […] Agora um vídeo da primeira banda de metal (embora alguns afirmem que é o Led Zeppelin, eu digo que para mim a primeira é esta) Uma banda que ainda influencia muito a cena do Metal mundial e que é citada por onze entre dez músicos do metal como referência obrigatória para qualquer headbanger que se preze: Black Sabbath! […]


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