Publicado por: yumejin | quarta-feira, 19 dezembro 2007

Os Ateus de Internet e a Pseudo-Vitória

Existe uma raça que se prolifera no ambiente da internet: são os pseudo-intelectuais.

Não estou falando dos aspirantes a escritores, como eu, por exemplo, ou dos teóricos e filósofos em início de carreira, como meu co-Quodlibetário, mas daqueles que buscam chamar para si o título de inteligentes procurando mostrar que os outros são mais burros do que eles.

Entre as muitas variedades dessa espécie de praga, que pode render várias e várias discussões, existe uma que é, ao mesmo tempo, peculiar e adaptada a esse admirável mundo novo onde digitamos: os ateus de internet.

Em geral, os ateus de internet são pessoas na faixa de 15 a 30 anos, inteligentes, cultas, literatas e boas articulistas e argumentadoras que escrevem páginas e páginas da rede com provas, ou melhor, supostas provas de que é impossível que Deus exista num mundo como o nosso.

Deixando de lado a prepotência e a arrogância da maior parte dessa classe e não entrando no mérito da questão de se Deus existe ou não [acho que a minha opinião é bem óbvia pra quem já leu certos textos meus], gostaria de fazer uma breve análise deles.

Em primeiro lugar, uma característica universal dos ateus de internet é a utilização de palavras difíceis. Parecem que eles sacam um dicionário Houaiss do bolso cada vez que digitam um texto e passam horas buscando sinônimos em tesauros para “enriquecer” sua prosa. Digo “enriquecer”, entre aspas, porque os mais espertos percebem que palavras complicadas e arcaísmos, além de jargão técnico, são simples fogos de artifício, dispositivos para distrair e ludibriar o leitor menos preparado.

Um parêntese merece ser aberto aqui para tornar a deixar clara minha opinião sobre as belas palavras complicadas. Quando o objetivo é elucidar o leitor, explicando suas teorias ou comunicando idéias, o uso do mais simples sempre é melhor. Contudo, quando é preciso descrever melhor, deixando claro o que cada coisa é, a utilização de palavras específicas, logo raras ou técnicas, é natural e não pode ser enxergada como exibicionismo.

Outro ponto comum é abrir argumentos ou exemplificá-los com citações de cientistas famosos, inteligentes e presumivelmente ateus. Ponderar sobre a reflexão alheia é saudável e necessário, mas tomar as opiniões do Carl Sagan, do Albert Einstein ou do Isaac Newton como melhores do que as das pessoas que não têm ou tinham um raciocínio tão apurado quanto eles é pura estupidez. Sem eufemismos.

Por si só, essas duas coisas não seriam tão irritantes se não entrasse em jogo o terceiro fator: utilizar-se de fanáticos idiotas como escada. Não importa de onde seja o ateu com sua teoria genial anti-Deus à prova de falhas, sempre terão três ou quatro teístas sedentos por convencer aqueles que não podem ser convencidos. E, em 29.999 de cada 30.000 casos, esses teístas, mesmo os bem-intencionados, têm intelecto, vocabulário e conhecimentos técnicos, teóricos, informáticos e lingüísticos inferiores ou bem inferiores ao do ateu.

E é aí que entra a pseudo-vitória – derrotar proposições de maus argumentadores não é prova de nada, exceto massagem de ego. E, na minha opinião, uma massagem nem tão boa assim. É como um lutador experiente de Muay Thai bater em um cara normal que discordou dele: só os mais torpes acham que se provam muito fortes depois do esperadamente rápido combate.

Em tempo, vale sempre a máxima de que só acredita quem quer e enxergar quem tem vontade. Numa nota para outro texto, só pode ser perdoado quem se arrepende, então não adianta perder tempo perdoando quem nunca se culpou pelo erro cometido.

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Responses

  1. Completando o que Carl Sagan já disse antes de mim, noventa porcento da população é ignorante, junto a esses estão claro, os pseudo-intelectuais de internet. Essa gente tosca que usa palavras assim como chimpanzés usam armas de fogo.

    Deus não dá asa a cobra né?

  2. Pelo visto parece que essa discussão sobre Deus existir ou não ocorreu por algum site de relacionamento, do tipo Orkut.
    Nesses sites é sempre difícil você discutir qualquer tipo de coisa: se a pessoa não gostar é só ela fechar a janela, não vai ter que encarar o olhar do interlocutor ou a vexação pública.

    Agora, para completar, existe pseudo-intelectuais tanto do lado dos ateus quanto dos crentes. Hoje em dia com a supervaloração da ciência e da erudição só ganha uma discussão quem cumpre com certos critérios: 1- palavras difíceis, 2- boa articulação e 3- uma boa pesquisa cientifica pra embasar o argumento.

    Enfim, me eximo desses tipos de discussão virtual, afinal elas na maioria das vezes não levam a nada. Prefiro o velho e útil face to face.

  3. Bem, entre ateus inteligentes, cultos, literatos, bons articulistas e argumentadores, que citam Carl Sagan, Albert Einstein e Isaac Newton e teístas, mesmo os bem-intencionados, com intelecto, vocabulário e conhecimentos técnicos, teóricos, informáticos e lingüísticos inferiores ou bem inferiores ao do ateu. Eu fico com os ateus.

  4. Não vejo por que haveria de se ter algo contra sujeitos que, além de bons articulistas, apresentam argumentos científicos — até porque ciência é segura; se alguma teoria não faz sentido, cedo ou tarde alguém há de desprová-la.

    Se deus existe, deve ser do tipo deísta do Iluminismo — totalmente alheio, não-intervencionista . Assim, sua existência ou não-existência é indiferente — as coisas vão continuar funcionando exatamente do mesmo jeito.

    Claro que, com a não-existência, iriam cair por terra odiosas instituições como a Igreja Católica Apostólica Romana, junto com, por exemplo, a proibição descabida de reprova experiências com embriões (sem sistemas nervosos) — inclusive, manipulação genética virou pecado agora… — e o ranço com a eutanásia — desta, quando chegar a hora, muito gostaria de me beneficiar. Isso sem falar no dano que já foi feito em nome dele — ou d’Ele: quem sente na pele os resquícios de coisas como o Levíticos ou a historinha de Sodoma e Gomorra sabe o mal que a religião causa.

    Por mim fico sempre com a visão de mundo livre de elementos místicos ou sobrenaturais.

  5. […] situação lembra à que descrevi em Os Ateus de Internet e a Pseudo-Vitória. Nos dois lados da argumentação, existirão elos fracos – pessoas bem ou mal-intencionadas que […]

  6. Um ateu não é, por definição, uma má pessoa – da mesma forma que um teísta não o é. O problema se encontra na forma como se encara essa escolha.

    Um ateu pode ser mais fanático do que um religioso, por exemplo. Richard Dawkins é, hoje, muito mais fervoroso em sua defesa do ateísmo e, na verdade, em seu ataque às religiões, do que a grande maioria dos religiosos sérios.

    Como diz o título da postagem, os ateus de internet estão para os ateus como os satanistas de internet [devem estar] para os satanistas – não passam de ignorantes que leram os textos de outras pessoas e tomaram para si idéias que não compreenderam e buscaram provar-se contra indivíduos bem mais fracos no argumentar.

    Seria como Tyson querer provar ser o homem mais forte do mundo lutando contra o vocalista do NXZero. Ele daria uma surra, mas isso prova alguma coisa?


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