Publicado por: yumejin | terça-feira, 5 fevereiro 2008

O preconceito enrustido

Bruno Chateaubriand

Veja a foto da pessoa ao lado. Conhece? Ele se chama Bruno Chateaubriand, nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1975 e tem como ocupação atual anfitrião de grandes festas na cobertura onde mora. Nada que chamasse tanto a atenção se ele não passasse do que ele aparenta ser na foto: uma bicha afetada ao extremo, com nenhuma idéia na cabeça e muito dinheiro para gastar em bebidas e homens.

Exceto que não. Para meu total espanto, a Veja da semana passada, edição 2045, trouxe nas páginas Amarelas uma entrevista feita pela repórter Juliana Linhares. Esperando uma certa “bandeirante” – a revanche, deparei-me com pensamentos sólidos e lúcidos e uma atitude muito mais sensata e realista, além de honesta, do que eu jamais imaginaria para esse Bruno.

As perguntas passam da experiência pessoal, onde Bruno conta que passou anos se reprimindo e reprovando por se sentir atraído por garotos, até encontrar um certo André Ramos, empresário e consorte dele há 11 anos. Porém, é na terceira e última página de perguntas que estão todas as jóias do pensamento do homem, quando a repórter passa a buscar as idéias dele.

Ele revela que não se sente à vontade para beijar seu namorado, mesmo na própria casa, quando está dando uma festa, por medo de ser motivo de chacota, reflexos da infância. Além disso, avalia que, por ser rico, foi poupado de muito sofrimento, já que se fosse apenas pobre, “teria virado, como dizem, ‘aquela bicha pobre'”.

Na derradeira questão, defende um ponto de vista muito interessante: passeatas de orgulho gay mais atrapalham do que ajudam. “Acho que eles [atos de afirmação homossexual] têm dois problemas. O primeiro é que são caricatos: fazem pensar que todo gay é exibicionista e vive em clima de boate. O segundo é que, em matéria de defesa dos direitos dos gays, essas passeata não funcionam. Pelo contrário: aquelas cenas de homens quase nus se pegando e se beijando em cima de um caminhão podem fazer com que políticos e juízes pensem que somos todos promíscuos ou incapazes de adotar e educar uma criança”.

Acabei de ler a entrevista, fechei a revista e me envergonhei quase biblicamente – inteligente e culto e, ainda assim, preconceituoso o suficiente para ter certeza, até 10 minutos antes, de que Bruno Chateaubriand era só uma dondoca que não valia o ar que respirava.

Os mais inteligentes e mais conscientes de toda a lastimável herança que as últimas gerações deixaram e a nossa começa a formar é que deveriam ter as mentes mais abertas e, no entanto, em muitos casos, vemos posturas tão radicais e retrógradas em questões tão simples como o direito de uma pessoa de gostar de quem quiser que subvertem todo o mérito com uma mácula de primitivismo.

Minha namorada já comentou por diversas vezes que uma das coisas que mais lhe incomodavam e lhe davam pena do tipo que gera um dor incômoda no peito, uma sensação ruim de verdade, eram duas conhecidas, lésbicas, que andavam juntas, mas não podiam ficar de mãos dadas ou se abraçar, sempre se policiando para não incomodar os ouvidos e olhos sensíveis das pessoas pelas ruas.

Entre ser corrupto e ser gay, entre ser estúpido e ser gay, entre ser machista e ser gay, entre ser beberrão e ser gay, entre não dar nenhum valor aos pensamentos alheios, aos sentimentos alheios, às ações alheias, à vida alheia e ser gay, entre desrespeitar todas as leis e ser gay, entre ser fumante e ser gay, o que causa mais mal a todo mundo? E ainda assim, o que é motivo de maior chacota, de maior repulsa, de maior asco?

Sodoma e Gomorra, dizem alguns fanáticos das igrejas cristãs. Deus quer a morte dos homossexuais. Ele quer? Não, claro que não, Deus não quer a morte de nenhum de seus filhos – Ele quer a redenção, que sejam pessoas boas, que acreditem em Jesus Cristo, que amem uns aos outros, que trabalhem juntos, que lembrem-se d’Ele, que sejam felizes.

Trezentos mil males a mais, trezentos mil demônios atormentando nossos irmãos e irmãs de Terra e ainda existem muitas pessoas, inteligentes e cultas como eu e você, provavelmente, que negam o direito de ser para tantos. Aquela velha resposta hipócrita “por mim, tudo bem, desde que não chegue perto” é tão doentia quanto “na minha casa, não pisa viado”.

Quem é consciente de verdade tem posição sobre a maioria das coisas, exceto aqueles assuntos que desconhece por completo ou sobre o quais não têm informações suficiente. Sobre homossexuais, todos temos conhecimentos em número bastante – eles existem desde a Antigüidade. Resolvam-se, então, mas não ignorem. Fechar os olhos é atitude das pessoas que falharam em transformar esse mundo, não das que o transformarão.

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Responses

  1. Há muito que se pensar nessa questão ai… sobre o que é certo e o que é comum acordo, onde começa o domínio da sociedade e onde aparece o da natureza. Podemos até mesmo questionar o que são essas coisas e o que é esse desejo de querer o “errado”…

    No final, todo mundo acaba meio inseguro do que é de verdade e sobre o que pensa, sobre a sua mesma autenticidade…

    E é verdade uma coisa, temos muito preconceito por mais que sejamos cultos. Mas afinal, eu acho sinceramente que PRECISAMOS de preconceitos, afinal, se não tivessemos o pre-conceito, morreriamos diante da primeira janela que víssemos…


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