Publicado por: yumejin | quinta-feira, 1 maio 2008

Polaróides Urbanas e o Autoconhecimento

[Primeiramente, desculpas pelo hiato e pela irregularidade dos textos, mas é que uma combinação corriqueira de desorganização com várias tarefas díspares geralmente termina em falta de tempo hábil para digitar, mesmo que por quinze minutos. Hoje temos uma curta apresentação do filme, seguida por uma resenha leve, culminando com minha teoria sobre um dos motes principais.]

Poster de Polaróides Urbanas

Há alguns dias, estava eu e minha namorada andando sem rumo quando nos lembramos da opção de assistir um filme. Dado a adiantado da hora, 20:15, só tínhamos duas opções: um filme qualquer com amor e dinheiro no título [igual a lixo na maior parte das vezes] e o Polaróides Urbanas, adaptação da peça Como Encher um Biquini Selvagem, que estava marcado para 20:10. Para piorar, um grupo de casais demorava sabem Deus e o diabo por que motivo na fila, sem comprar nada. Como já nos tinham dito individualmente sobre o filme, decidimos correr para pegá-lo no comecinho.

Pra falar a verdade, eu não estava exatamente empolgado para vê-lo. Certo, sejamos frNicolas Trevijanoancos: observe atentamente o cartaz dele – não parece ser um filme bom, parece? Pois é. Meu irmão assistiu o trailer e disse que não se sentiu compelido a pagar a meia entrada cara dos cinemas meia-boca de Petrópolis.

Tirando os cinco ou dez minutos introdutórios, por mais ou menos meia hora o longa se arrasta como se estivesse perdido nas brumas, sem direção ou mesmo pretensão de ter uma. Talvez essa tenha sido a intenção de Miguel Falabella dirigindo, mas não contribuiu para que eu quisesse continuar na sala de cinema. Não havia nada de errado com a película, quero que entendam… mas também não havia nada certo, ou ainda, nada cativante. Como na hora dos comerciais, você simplesmente fica sentado ali, por pura preguiça de fazer outra coisa enquanto o programa que você tá assistindo não retorna.

No entanto, a partir da metade do filme, a coisa fica mais interessante. Pequenas ligações entre as tramas aparecem e o objetivo, do texto original ou do adaptador, não sei creditar ao certo, se torna cada vez mais delineado. Até que, por fim, o próprio Falabella prova que não estava só entregando os roteiros para os atores e decidindo a direção da câmera – a cena final merece aplausos de pé pela idéia. Não sei se é original, Ana Roberta Gualdapode até não ser, mas foi utilizada com primazia. [Diga-se de passagem, acabo de descobrir que o roteiro para o filme está pronto desde 1999. Puxa…]

Entre os atores, tirando as já esperadas grandes atuações de Marília Pêra e Neuza Borges, surpreendem Ana Roberta Gualda, como Melanie, e Nicolas Trevijano, como Mike, ambos sendo antes prioritariamente figurantes e pontas em novelas da Globo. Infelizmente, não consegui nenhuma foto do ator na pele do personagem, então vai essa mesma.

===
Uma das personagens da trama, vivida por Natália do Vale, é uma terapeuta e, de certa forma, o filme gira em torno dos problemas das pessoas com o sentido de suas próprias vidas e de sua existência como ela se apresenta.

Ultimamente, tem se tornado comum que os pais mandem seus filhos a terapeutas, que casais façam terapia juntos para tentar remendar a união instável e que nomes como Freud e Jung sejam invocados com suposta propriedade em conversas casuais, para basear essa ou aquela análise sobre aquela ou essa pessoa que acabou de passar.

Por quê isso? Ou melhor – pra quê isso? O terapeuta faz apenas o que as próprias pessoas que vão a eles não fazem: escutar, a si mesmos e aos outros. Algumas vivem num frenesi absurdo em torno de si próprias ou em função de outras pessoas ou objetos que, em dado instante, percebem o vazio completo de suas ações dos últimos dias, semanas, anos. A total inutilidade de seus esforços e a pouco diferença que fazem. A vida não é aquilo que elas sonharam ter.

Porém, são incapazes de entender o motivo para isso – buscam ciência e religião como muletas, fugindo da resposta óbvia. São incapazes de fecharem os olhos e se enxergarem de verdade, despidas das roupas fastidiosas que apresentam aos seus pares e da maquiagem que pintam para se cegarem.

O grande “segredo” das religiões orientais que viraram moda é isso: o autoconhecimento. Conhece-te a ti mesmo, sabem? É difícil e é algo que deve ser trabalhado cotidianamente, exigindo reflexões constantes sobre suas ações, suas palavras e seus pensamentos. Por vezes, pode ser incômodo admitir certas falhas ou negar vaidades fabulosas, mas é o caminho para ser melhor.

A ênfase em possuir, seja um carro, uma casa, uma filha, e em parecer, melhor, humilde, especial, são nocivas para o espírito como o álcool e o cigarro para o nosso corpo. Até que a pedra bruta se transmute em algo polido e perfeito, muitos golpes devem ser desferidos e muitas ilusões, fraturadas.

Assistam, se puderem, no cinema ou em casa.

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Responses

  1. Poizé

    Se por um lado é importante ressaltar a importância do “Gnothi Seauton” (anote pra sua coleção de citações) por outro é preciso enxergar que nem todo mundo pode (nem deve, nem precisa…) ser igual a nós nem ser o melhor que podem ser. Tudo tem uma função nesse mundo, até a ignorância.

    Btw, nunca verei esse filme até passar na “Tela quente”

  2. Achei também muito interessante o filme “polaróides urbanas”, onde no começo, inspirava puro tédio, mas que depois mostrou-se de extrema profundidade no quesito psicologia, mostrando que por mais diferente que sejamos, tanto de classe social, beleza, natureza ou empregos, todos sem distinção, temos problemas que com certeza achamos que é o fim do mundo, e acabamos nos esquecendo que outras pessoas tem problemas muito piores….. Eu recomendo, o Nicolas Trevijano esteve ótimo no papel de Mike, com a emoção à flor da pele, e claro com uma beleza incomparável……..

  3. Achei muito interessante; é bom que o Brasil produza filmes de tamanha categoria para mostrar o outro lado da moeda, que indiferente das classes sociais, do profissional que seja, da situação vivida, todos somos seres humanos e que temos nossos sofrimentos internos que muitas vezes não sabemos lidar e fica insuportável. A psicoterapia ajuda, mas a pessoa deve saber se escutar, se entender-compreender e assim ficará mais fácil poder compreender o outro.
    Assista vale a pena.


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