Publicado por: - TCZ - | sexta-feira, 2 maio 2008

Noir² – parte I – Salsep

Então estava ele sentado na sua cadeira, que ficava atrás de sua mesa, dentro de seu cubículo que estava no quarto andar do departamento de polícia do setor sul de Holy City. O investigador Salsep estava sentado como de costume, atrás de sua muito organizada plataforma de trabalho, onde por um lado entravam os papéis e por outro saíam. Era espantoso que um investigador de campo mantivesse seu cubículo tão arrumado, visto que sempre estavam na rua e raramente tinham oportunidade de manter a organização de seus escritórios, pois quando lá estavam era para despachar trabalho burocrático e as vezes nem isso conseguiam fazer. Libbs Salsep era um homem diferente por muitos motivos e este era um deles: prezava muito a organização de sua mesa mantendo a papelada sempre em dia, sempre organizada, nada faltando nem atrasado. Um verdadeiro exemplo para seus colegas investigadores e para todo os funcionarios do prédio, uma vez quiseram lhe entregar uma placa em homenagem ao seu caráter ordeiro que foi gentilmente negada e devolvida com muitos sorrisos e um pouco de vergonha.

Essa era a mesa de Libbs Salsep e ela refletia um pouco de como o Inspetor Salsep era na sua vida cotidiana. Um homem pacato de poucos vícios e algumas virtudes. Um servidor fiel no seu auto de fé pela cidade e população, que tanto eram negligenciados pela máquina púbica, que era ausente em Holy City – a cidade era mais governada pelos seus industriais que mais propriamente pela prefeitura, um casarão velho que outrora continha o esplendor de ser uma Loja Simbólica Maçônica, a primeira do então Holy Count, mas agora perdera todo o seu brilho e excelência e se permitiu cair nas sombras e na indignidade duma adiministração inexistente. Salsep compreendia como muito poucos que a cidade tinha necessidade real de possuir servidores mais dedicados e cumpridores do seu dever, para defender a cidade, tentar transformá-la em qualquer coisa diferente do que era agora. Esse era Libbs Salsep, investigador da força policial de Holy City – divisão Sul, cidadão honrado e servidor fie. ERA. Um dos papéis que chegara naquele dia a sua mesa o transformaria para sempre.

Salsep estava com uma folha em mãos, dobrada duas vezes, que veio dentro de um envelope comercial, desses que tem uma parte em plástico transparente onde aparece o nome e o endereço do destinatário (“Salsep, Libbs. Departamento de polícia – Divisão sul. Rua fleet…”). Vinha dos laboratórios Fisher, uma rede de Laboratórios e hospitais que mantinham convênio com o serviço público da cidade desde tempos imemoriais. Os detetives, investigadores e demais empregados do departamento passavam por exames de rotina, avaliações psíquicas e físicas, apenas para manter o protocolo. Como não existia de fato uma preocupação sincera quanto ao bem-estar dos empregados, raramente alguém recebia qualquer coisa do Fisher. Salsep recebeu uma carta esta manhã.

E ainda estava com a mensagem nas mãos, e olhava fixamente para o seu contúdo. Para onde havia seu nome escrito, onde havia todas as formalidades necessárias a uma carta oficial (“Prezado Senhor”, “viemos por meio desta”, “Atenciosamente”…) e também havia dois dados importantes que mudariam todas as perspectivas de Libbs pelos próximos meses, três para ser mais preciso, pois três meses era tudo o que Libbs Salsep – Investigador sênior de Holy City: servo fiel, homem honardo, tinha. Libbs Salsep possuia nesse exato momento um tumor de tamanho considerável no lado direito de seu cérebro. Libbs iria morrer dentro de exatos três meses e essa notícia o deixou atônito.

– Libbs, levanta dai que temos trabalho! E dos grandes!
– Perdão?

Era Howard Marx, investigador sênior do departamento de polícia – divisão sul. Amigo pessoal de Salsep e parceiro por muitos anos durante a juventude de ambos, quando eram apenas investigadores junior. Agora não mais, pois eram investigadores sênior, tinham uma carreira e vários casos resolvidos. Eram gente importante, mas permaneciam amigos.

– Anda Sal, é um dos grandões. Parece que metade do departamento de assuntos indígenas na rua Barnabé explodiu! Todos os peixões do nosso departamento foram convocados, inclusive nós!
– Perdão?
– Sal, o que houve? Algo errado?
– Não, não, desculpe. Distração minha… você dirige certo?
– Claro!

Naquele momento, não saber dirigir era o último problema de Salsep que Salsep queria se preocupar.

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Responses

  1. aimeldels ele vai morrer…

    o.O

    “/

  2. Gostei do “Libbs”. De onde você tirou “Salsep”? A versão reduzida, “Sal”, é mais simpática, no entanto.

    Vai fazer uma ligaçãozinha entre as duas histórias, não vai? Tô sentindo isso. Meio Sin City, eh?


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