Publicado por: - TCZ - | quinta-feira, 22 maio 2008

[Noir] Salsep, Parte II

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Marx e Salsep chegaram a cena do acidente minutos após deixarem o escritório, o local não ficava muito longe da sede do Departamento Policial de Holy City – Divisão Sul então foi questão de alguns instantes dentro do carro de Marx para estarem presentes ao palco da mais nova notícia nos jornais de HC.

O lugar cheirava a churrasco, fuligem e suor, e estava abarrotado de pessoas – bombeiros, policiais, jornalistas e curiosos – que lutavam por uma chance de fazer aquilo que queriam fazer naquele lugar. Mas todos sem excessão estavam de certa forma impressionados com o inferno dantesco que apresentava-se ali, diante deles.

As chamas iam alto, como se quisessem queimar o céu, iluminavam a noite como numa véspera de Natal, deixando tudo e todos com uma tonalidade avermelhada. O céu parecia de fato em chamas, e as nuvens de fumaça subiam formando torres negras sinalizando o local da tragédia. Em todo o lugar, por toda parte, ficava suspenso no ar um cheiro opressor, que anunciava que da porta dupla de carvalho que leva ao Inferno, a esquerda estava escancarada e convidava todos os presentes a uma espiadela sem volta.

Pouco restava do prédio, um esqueleto gigante de um Deus-antigo, cúbico e anti-natural, queimando por dentro, agonizando sua iminente morte em gemidos e estalos terríveis de madeira queimando e caindo aos montes pelo chão. A multidão se aglomerava numa última oferenda ao Deus-moribundo, num ritual tenebroso que confundia os sentidos e enchia as mentes daquela fuligem e fumaça, deixando tudo menos nítido. Marx estava perdido nessa atmosfera do momento em que abriu a porta de seu carro até agora, minutos de contemplação silenciosa ao funeral do prédio em formato de cubo do início do século. Salsep, pelo contrário, no momento possuia outras preocupações e permanecia ainda à parte dos acontecimentos que se impunham à sua volta. E talvez por isso, foi dele o ímpeto que despertou Marx de seu torpor, e que os levou, empunhando seus brilhantes distintivos, para além da linha de segurança que mantia muitos repórteres e curiosos distantes da arena de profissionais, que mantinham seus esforços inúteis por tentar compreender e quem sabe evitar uma tragédia maior.

– É uma coisa incrível não rapazes? Incrível, tanto a explosão quanto esse circo armado aqui… impressionante! Estou feliz por ter durado tanto tempo para ver algo assim!

– Verdade Gandolfo, verdade…

Marx, desde os tempos de academia, gozava do direito de chamar o Superintendente Hunter pelo primeiro nome, Gandolfo, que particularmente o mesmo odiava, permitindo somente que os seus amigos mais próximos o utilizassem. E Marx era um de seus melhores amigos, pelo menos passou a ser depois do “Caso C. Johnson” vinte anos atrás. Desde então, para Marx o então Comandante Hunter seria sempre Gandolfo e para Gandolfo, Marx seria “O Vermelho” por causa de seus intensos cabelos ruivos.

– Então Gandolfo, o que temos aqui? A Polícia se tornou tão inútil nessa cidade que somos chamados por qualquer acidente? Ou nos chamaram para apreciar o calor e assar marshmallows na grande fogueira?

– Não foi acidente. Explodiram o prédio, com todo mundo dentro Vermelho, com todo mundo… você sabia que o departamento estava mantendo na ala oeste – a que foi atingida – uma creche indígena de refugiados da reserva Nanook? Exatamente Vermelho, exatamente… algum sádico explodiu JUSTAMENTE A ALA OESTE. Vermelho, essa cidade realmente não presta sabe… agora estamos tentando salvar aquelas crianças Vermelho, antes que todo o prédio caia. Mas quer saber do pior? Ele VAI cair logo logo, e não poderemos fazer absolutamente nada por quase nenhuma delas.

– Mas Gandol… SAL! O QUE VOCÊ VAI FAZER SAL???

Tarde demais. Salsep agora corria em direção do prédio. Ele estava morrendo, não era justo que estivesse morrendo. Ele sempre foi o melhor cidadão que aquela cidade maldita jamais tivera. Ele mais do que ninguém merecia uma recompensa. Ele mais do que ninguém merecia uma recompensa. Ele estava morrendo, morrendo da forma mais covarde e terrível que alguém pode morrer: aos poucos, de dentro para fora. Nós próximos meses Salselp seria consumido aos poucos, definharia, apodreceria e terminaria numa cama fria de hospital, cercado por meia dúzia de amigos da corporação e dois parentes que mal conhecia. Que fim terrível para um nobre servidor!

Com lágrimas nos olhos, Libbs decidiu como utilizar seus últimos momentos, decidiu que aquelas crianças mereciam a chance que ele não teria. Se ninguém pode abrir seu crânio e retirar aquele tumor, ele abriria aqueles muros e retiraria quantas pequenas vidas pudesse da fogueira do Holocausto. Se morresse nesse processo, quanto melhor, pelo menos oferecia a pouca vida que lhe restava como oferta à vida daquelas crianças.

“Que piegas” pensou, “Mas para o inferno com a originalidade!” e com um sorriso por entre a fuligem e as lágrimas entrou no prédio, disposto a, custe o que custar, fazer valer sua vida além do distintivo, além de si mesmo.

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Responses

  1. Vai ser uma mini-série de 4 capítulos ou vamos ter um “deixa de idiotice” e pessoas agarrando Salsep antes dele fazer qualquer coisa? Vejamos.

    Notei certa irregularidade entre estilos – nas descrições, assemelha-se ao que eu costumo usar, que é uma visão subjetiva, de impressões. Contudo, nos diálogos e mesmo em alguns pontos das próprias descrições, é o estilo… noir, eu acho, já que não sou especialista nisso.

  2. “Ele estava morrendo, não era justo que estivesse morrendo. Ele sempre foi o melhor cidadão que aquela cidade maldita jamais tivera. Ele mais do que ninguém merecia uma recompensa.”

    Esse é meu TCZ.
    ;)

    Magnífico, sem mais.


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