Publicado por: - TCZ - | domingo, 8 junho 2008

Versus Wittgenstein

Uma vez, meu companheiro Quodlibetário Yumejin falou que gostaria de ter conhecido o Professor Junito de Souza Brandão, por ler uma de suas obras (a coleção sobre mitologia que, aliás, peguei emprestado o volume três e ainda NÃO li… “shame on me“…) e ter se interessado por seus estudos e por sua vida acadêmica. Ou algo próximo disto.

O importante foi a questão que meu colega levantou assim que terminou o seu post: se você pudesse interagir com alguma personalidade – escritor, músico, filósofo…- quem seria e o que gostaria de fazer? Pode parece uma pergunta boba é verdade, mas não é, já digo porquê. Imagine que, de todas as pessoas da história, todas mesmo, fosse lhe garantido o direito e a execução, quase mágica, de qualquer desejo envolvendo qualquer pessoa em qualquer circunstância, quem você escolheria? O que escolheria fazaer?

Não tenho dúvidas que, certamente, muitas pessoas escolheriam qualquer famosidade, mulheres pôster-de-borracharia ou algum Metrossexual, levados apenas por motivações superficiais. Para quando muito não de forma carnal, expressar sua adimiração pelo “estar perto”. Como se naquela foto “fodástica” que você tirou com o Fulano-da-moda estivesse todo a essência da adoração desmedida e torpe. Exibem esse tipo de presença evanescente como troféus, marcas de uma caçada bem-sucedida em busca da celebridade mais célebre. Isso é vazio.

[Mas afinal, estarei eu sendo “intelecto-centrista”? Uma das coisas que eu mais acredito é na minha descrença à unânimidades cósmicas. Não creio de muito bom grado em pontos de referência universalmente válidos&vigentes – o que pode ser muito certo para você, em outra esfera pode ser muito errado para outra pessoa – portanto estou longe de me afirmar como o certo cósmico (claro, no MEU microcosmo EU sou a LEI) e acredito que cada ponto de vista, por mais imbecil que possa me parecer, é correto de certo ângulo específico. Estou, longe de ser “intelecto-centrista”, um simples emissor de juízo particular: digo o que eu estou valorizando e porquê acho o estar perto por estar perto uma vacância desnecessária]

Pessoas deixam sua marca de muitas formas e em muitos lugares diferentes. Alguns marcam profundamente outras pessoas, outros marcam profundamente o mundo. A diferença básica entre “espíritos da história” e pessoas comuns é que alguns conseguem romper com o fluxo histórico pela grandeza e profundidade de suas personalidades de forma tão poderosa que atingem momentos “a-históricos” e modificam todo o resto que lhes vem depois. Pessoas comuns vem e vão, grandes espíritos vem apenas, em pouca quantidade, aqui e ali. Ludwig Wittgenstein é um desses.

Sem dúvda, Wittgenstein é uma das, senão a criatura mais inteligente que já tocou nosso plano nesse último século, o vinte. Suas profundas reflexões sobre a realidade conseguem me impor revolta e vertigem, fazem com que despertem tanto minha mente plástica quanto minha inveja. Como um homem conseguiu chegar tão perto de Deus? Como conseguiu enxergar tão longe? Como conseguiu resumir tudo o que há em SETE PROPOSIÇÕES???

Eu gostaria de ter meu desejo atendido com Wittgenstein.

Mas não travaria um só colóquio filosófico, não faria uma pergunta que fosse. Poderia passar posts desfiando minhas opiniões e o que é de fato a filosofia de Wittgenstein, de como propôs um real novo olhar sobre as coisas e sobre como simplesmente se propôs a “destruir” a filosofia (e em grande parte conseguiu…)

Eu só queria uma partida de Xadrez.

Wittgenstein era um exímio matemático, um titânico pensador… e um entusiasta do jogo de Xadrez! Muito de sua filosofia e de sua forma de ver o mundo perpassam o nobre jogo. Arrisco-me a dizer que sem o Xadrez, Wittgenstein não seria sobra do que é.

Mas engana-se quem pensa que eu tenho a audácia de insinuar que poderia vencer tal partida. Acredito que meu desejo, de travar um duelo enxadrista com o filósofo austríaco, teria a duração de poucos minutos. Certamente eu seria derrotado de forma banal em poucos lances. Nunca foi um Kasparov, e nunca arraiguei para mim algo do tipo, minha relação com o jogo é muito mais peculiar (e futuramente me comprometo em escrever um post SÓ sobre Xadrez).

O porém é que num jogo de xadrez, e aqui vai a proposta de comprovação aos que me leem: se discordarem expressem-se, mais do qualquer jogo eu acho, se bem jogado, como se deve, revela os adversários mutuamente. Nos despimos da carne e ossos e nos enfrentamos como intelectos puros, movidos pela tática e pelo desejo não só de vencer, mas de um bom espetáculo, estimulante e arrebatador. E eu gostaria de me defrontar com o maior intelecto que já encontrei em minhas leituras, de ficar face-a-face com o leviatã e perecer feliz, pois feliz é aquele que perece diante daquilo que admira e considera digno. Quantos homens não ficam felizes em satisfazer os desejos de sua amada ou até mesmo de por ela morrer? E quantos mais não diriam algo do tipo diante de um grande ideal? Morrer pela perpetuação das boas idéias, pela concretização dos bons planos?

Eu sinto quase o mesmo, mas talvez de forma mais banal, talvez de forma mais nobre.

Gostaria apenas de ter a honra de ser derrotado por Wittgenstein. Esse seria o meu desejo.

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Responses

  1. Ainda não leu o livro que eu te emprestei faz meio ano? Vai morrer… Aliás, você sabe como sou bom no xadrez. Ainda tem na memória o jogo na hora do recreio entre eu e o Jorge, há muito tempo?

    De qualquer forma, é um desejo interessante. Mas eu acrescentaria uma cláusula: que ele demonstrasse toda a força do intelecto dele, sem restrições. Perecer fulminado por isso deveria lhe satisfazer, não?

  2. Certamente.

    Pros dois: seria uma honra ser derrotado por um Wittgenstein “escroto”, que me fizesse penar em mindgames, sem encerrar o jogo direto! Seria demais.

    E po, CLARO que eu não me esqueci daquela partida, NUNCA ME ESQUECEREI, vc sabe disso hauahauah


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