Publicado por: - TCZ - | segunda-feira, 23 junho 2008

The Inner Hulk

Criançada boa, tudo beleza?

Estou eu aqui, quando deveria já estar lá, mas estava terminando um trabalho de Licenciatura&Filosofia voltado para o ensino médio. E o trabalho ficou TÃO BOM (realmente gostei dele, me orgulhei hahaha) que decidi compartilhar com vocês. Mas apenas uma parte, o resto é burocracia boba.

Um dia paro para escrever mais sobre Quadrinhos.

Hulk, Incr�vel Hulk

“Durante toda a vida, o ser humano é produto do seu meio, da sua razão e dos seus conhecimentos, sendo parte importante destes últimos as histórias e narrativas com que entramos em contato no decorrer de nossos dias. O ser humano depende essencialmente delas para existir de forma sã, somos criaturas dotadas de intelecto e pensamento abstrato, nos entretendo contando histórias fantasiosas e mesmo relatando fatos que nos ocorrem sob a forma de narração. Nos primórdios era assim nas paredes das cavernas e assim é hoje com a literatura, o teatro e o cinema, e por um bom tempo continuará sendo. Dentre estas formas de mídia que possuímos para contar nossas histórias uma se destaca por sua incontestável popularidade e crescimento assombroso no século vinte (mais precisamente na sua segunda metade): a história em quadrinhos, que atravessou gerações, ideários, governos e editoras e até hoje permanece como parte integrante de nossa cultura popular. Por mais negligenciada que seja por vezes, tomada apenas por “coisa de criança”, as histórias em quadrinhos, sobretudo as de super-heróis, são reflexos de situações políticas, sociais e mesmo de correntes intelectuais pertencentes aos períodos em que estão situadas, para saber como é determinada época nessa nossa idade “Pós-moderna” (até que prossigamos e a batizemos de uma maneira melhor) basta olhar os quadrinhos de heróis e perceber quais valores que estão sendo transmitidos que, dependendo de seu público-alvo, são densos e repletos de significados.

 

E não é característica apenas das HQ’s atuais, com seus roteiros intricados de fazer inveja aos melhores filmes ou a alguns livros consagrados, essa presença de um aprofundamento conceitual que geralmente jaz oculto nas entrelinhas dos balões e páginas, desde a criação do Super-homem em 1932 por Jerry Siegel e Joe Shuster já havia ali algo de significado oculto e denso, até mesmo filosófico. Super-heróis são personificações, avatares de aspectos gerais das forças do mundo cotidiano e até mesmo de conceitos metafísicos. A interação entre personagens, seus pensamentos e reflexões por vezes favorecem nossa compreensão do mundo e desenvolvem o pensamento abstrato. O já citado Super-homem portanto representa a força e o poder tomados em seu sentido mais metafísico: é um deus em forma de homem, que transcende todas as nossas limitações tendo como fraqueza apenas suas próprias origens (simbolicamente representadas pela “Kryptonita”, material residual de seu planeta de origem) Outro herói muito popular, o Batman, representa o ser humano comum, sem poderes, elevado ao máximo em todas as suas capacidades e potencialidades: é muito rico, inteligente, atlético, considerado o “melhor detetive do mundo”. O Homem-Aranha por sua vez é seu reflexo-de-espelho: um homem comum, com todos os problemas que um homem comum deve ter – casamento, contas à pagar, filhos – confrontado diariamente com a responsabilidade de ser um super-herói. O Capitão América é a personificação do patriota ideal, o Lanterna Verde do Guardião da Lei, O Thor do guerreiro da antiguidade clássica e assim por diante. Marvel, DC, e as demais editoras primam por, intencionalmente ou não, criar e/ou manter personagens que eventualmente portam uma grande carga de significados sociais ou ideológicos profundos.

 

Dentre estes personagens encontramos aquele que é o tema deste trabalho e que por muitas vezes é tomado com um personagem sem muita carga dramática nem de conteúdo pelos mais apressados (e talvez quem sabe preconceituosos): O Incrível Hulk. O Doutor Bruce Banner, atingido por uma explosão de “Raios Gamma” (não confundir com a radiação gama, que existe em nosso mundo, porém não cria monstros verdes gigantes) durante um experimento, sofre uma mutação em suas células se transformando ocasionalmente, quando irritado, num monstruoso gigante verde (o “Gigante Esmeralda”), a criatura mais forte do planete, personificação do estado físico dos corpos – indestrutível e portador de força irresistível – que age a sabor dos instintos (ironicamente, sobretudo o de auto-preservação) com uma sombra muito fraca da racionalidade do doutor, uma das cinco maiores mentes do “Universo Marvel” (como é chamado o conjunto canonico das histórias dentro da editora). A temática maior do Hulk ( do inglês “pessoa muito grande ou excessivamente musculosa) é quase como um “Jekyll e Hyde” de Stevenson levado as últimas conseqüências: como o homem racional e inteligente, sereno e ponderado pode conviver com sua “besta interior”, a parte i/amoral interior que existe em cada um de nós e que pela razão mantemos do “lado de dentro” evitando que saia e causa maiores estragos. O problema maior tanto na obra de Stevenson quando na obra de Lee/Kirby (Stan Lee e Jack Kirby, os criadores de praticamente todos os personagens clássicos do Universo Marvel) é quando, seja por uma fórmula ou por uma mutação causada por um acidente, a besta interior foge ao nosso controle e nos obriga a nos afastar do que mais gostamos, de nossa vida cotidiana e pessoas que amamos, pela responsabilidade posterior a “fuga” que ainda mantemos, do medo que se machuquem. Nos quadrinhos quando Banner adquire a criatura Hulk dentro de si, parte em busca de uma cura, escondendo-se do exército americano, que deseja utilizá-la como arma e também para não ferir aqueles que ama (como sua namorada, Betty Ross), porém eventualmente quando se vê em perigo, perde o controle e se transforma em Hulk, que providencia a sobrevivência de seu duplo Bruce Banner. Banner, devido a independência de sua “besta interior” leva uma vida solitária, fugindo sempre e nunca retomando por mais que tente, sua vida cotidiana. Sua jornada em busca de uma cura torna sua vida um constante pesadelo de incidentes com o Hulk e fugas.

 

Porém o Hulk não é um mal absoluto. No decorrer de sua vida pós-acidente o doutor Banner aprende que por sua própria responsabilidade reconhecer que a força do Hulk é necessária a si mesmo, quando obrigado a lutar pela própria sobrevivência, e ao mundo, quando confrontado com alguma ameaça maior. Portanto Banner decide se manter como Hulk enquanto herói, ajudando a manter a ordem no mundo e protegendo o planeta e seus habitantes contra possíveis ameaças, chegando até mesmo a manter sua forma Hulk. Assim podemos enxergar a questão Hulk sob um novo ponto de vista: antes de aceitar sua nova condição, Banner vivia em fuga, pondo-se em situações de perigo constantemente devido tanto a sua condição física obviamente inferior a do Hulk frente às ameaças planejdas para capturá-lo enquanto portador do Hulk. Depois de sua aceitação, Banner não apenas consegue manter seu intelecto enquanto está como Hulk mas adquire uma estabilidade em sua vida, não sendo mais perseguido pelo governo americano pois recebe a aceitação popular como herói (e não mais “força da natureza”) e dos demais heróis. Assim, podemos ver que quando negava sua própria condição, Banner estava muito pior do que quando a entendeu e a aceitou, tornando-se assim não um ser dual, Banner/Hulk, mas apenas Bruce Banner, o Hulk (pois é revelado nos quadrinhos que “Hulk” é um estado celular possuído por muitos personagens infectados com a “radiação Gamma”, sendo Banner denominado como é apenas por ser o primeiro e mais famoso/importante Hulk).

 

 

Nietzsche certa vez disse, citando um autor latino, “torna-te aquilo que tu és”, pois acreditava na assunção dos indivíduos sem amarras que os prendam e minem sua força plástica vital. Regras sociais, morais e religiosas segundo ele apenas prejudicam a formação do indivíduo perante ele mesmo, tornam-no fugitivo de si mesmo, incapaz de aceitar segundo as regras que lhe são impostas a si mesmo, e ao mesmo tempo incapaz de deixar de ser ele mesmo para ser outro. O melhor caminho para a plena realização é se tornar aquilo de melhor que se pode ser, independente de regras e amarras artificiais que podem existir podando as possibilidades de vida do sujeito, para tanto este deve olhar para o abismo, deixando que o abismo olhe para dentro de si e aceitar aquilo que enxergar, sem tentar se tornar nada do que é esperado por outros, mas apenas por si mesmo. Seguindo como guia apenas a thélema, a sua real vontade. E isto, essa assunção, é exemplificada pelo paradigma de Bruce Banner, Hulk, que transformando sua força de destrutiva para criadora, se realiza enquanto indivíduo completo, não apenas um ser dual, fragmentado, mas uma unidade poderosa, unida mente e corpo, como um só.

 

Conclusão –

 

Portanto, assim como este paralelo entre Nietzsche e “O Incrível Hulk” é possível, tantos outros o são, dentro e fora das páginas e das telas, mostrando assim que a Filosofia, longe do que nos diz o senso comum, não é conhecimento de gabinete, trancada em quatro paredes, tampouco coisa que para nada serve, e com nada se relaciona, mas sim ferramenta poderosa de compreensão do mundo que, tal qual a semiologia e a lógica, a tudo pode ser combinar e se aplicar ampliando a nossa compreensão deste tudo.

 

O grande problema da Filosofia talvez seja não seu rigor ou seu “afastamento” do mundo concreto para o abstrato mas sim o preconceito tanto do senso comum quanto mesmo dos profissionais de Filosofia, Filósofos que assim como o homem que por procurar moedas de ouro no chão jamais olhou para o Sol, por demais se levarem a sério, a si e aos seus sagrados profetas, esquecem que por muitas vezes o cotidiano e coisas medíocres, como por exemplo HQ’s, podem possuir conteúdo filosófico e poder de exemplificação daquilo que tanto compreendem mas tão pouco conseguem transmitir. Portanto, assim que o preconceito acadêmico puder ser dissipado, talvez o ensino de Filosofia possa ser uma tarefa mais fácil e mesmo a prática filosófica se torne mais rica e profícua com a adesão de novos pensadores e com a articulação dos conceitos ideais com a realidade concreta que nos cerca.”

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Responses

  1. eu gostei. deve ser legal, quando se é professor, pegar esses trabalhos pra ler. deve ser o que salva as porcarias XP

  2. Em primeiro lugar, se você notar, seu texto está um pouco diferente do que você publicou. Procurei acertar alguns erros no código, mas não sou minimamente proficiente em HTML. Consegui isso que você está vendo – um espaçamento excessivo, mas que considero melhor do que nenhum espaçamento. Além disso, tirando a parte em parênteses que deixei pequena por talvez ser proposital, coloquei o restante em tamanho de texto normal. Tudo bem?

    Em um detalhe que não é o principal do texto, quais são as cinco mentes mais brilhantes no Universo Marvel? Acho que o Senhor Fantástico tá na conta, né? Além dele… Doutor Destino?

    Quanto ao texto: compartilho da mesma visão e ainda digo que todos os conceitos filosóficos podem ser transpostos em imagens, ou ainda, em situações, sejam reais ou imaginárias, em peças e filmes ou quadrinhos.

    As avaliações sobre os super-heróis e o que representam são suas? Porque, se forem… acho que você pode fazer uma série de artigos, um sobre cada.

  3. “Em um detalhe que não é o principal do texto, quais são as cinco mentes mais brilhantes no Universo Marvel? Acho que o Senhor Fantástico tá na conta, né? Além dele… Doutor Destino?”

    Na ordem (estamos falando de humanos originalmente ok?)

    Reed Richards (Sr. Frantástico)
    Tony Stark (Homem de Ferro)
    Henry Pym (Homem Formiga/ Jaqueta Amarela/ Gigante)
    Bruce Banner (Hulk)
    Alguém que eu esqueci, acho que era o Mago.

    O Von Doom sempre foi uma besta comparado a esses caras. Claro, que ai temos os intelectos não-humanos, contando com Galactus, Beyonder e os Eternos em geral… mas isso é MUITO nerd.

    E agora que você disse ( e que eu tenho tempo) acho que farei essa série sim. (Aham, as avaliações são todas minhas sim :D )


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