Publicado por: - TCZ - | sábado, 26 julho 2008

[N02_Salsep03] Ao Inferno!

Então, dentro do inferno uma porta é aberta com violência, gerando labaredas crepitantes em resposta pela invasão inesperada. A diferença da pressão do ar entre os lados de fora e de dentro faz com que a entrada de oxigênio na casa cause uma pequena explosão.Mas Salsep não se importa com isso, aliás não se importa com mais nada – apenas com o destino daqueles que porventura poderá auxiliar oferecendo a si mesmo como sacrifício.

Os acontecimentos das últimas horas o transformaram provando aquilo que alguém já disse, que um homem muda com o menor acontecimento se este possuir o poder suficiente. A notícia de seu estado terminal era certamente um motivo mais que suficiente para ocasionar tamanha mudança no agente policial. Há uma tênue linha que separa a servidão fiel e responsável do heroísmo temerário e inconsequente, por mais que nos dediquemos ao próximo, sempre há aquela pequena parcela de egoísmo que limita o tamanho de nossas ações, que faz com que nos mantenhamos seguros e que não arrisquemos muito de nós mesmos pelo outro. Porém, preferimos todos esquecer esse salutar egoísmo, e preferimos não o chamar assim e, até mesmo, não dar nome algum a esse instinto (que não é bem um instinto por ser muito bem raciocinado, ainda que essa intenção não seja assumida pelo indivíduo) e nos cercar apenas daquela áura benéfica que a ação solidária nos proporciona. Nos regojizamos com o nosso próprio caráter magnâmio e dormimos bem, sabendo que fomos boas pessoas, que ajudamos os outros, e esquecemos as partes ruins, que na verdade, em certa medida, ajudamos mais a nós mesmos que a qualquer outro e que nunca, por mais abnegados que acreditemos estar, arriscamos tudo de nós em prol de outra pessoa.

Salsep naquele momento desfrutava de um estado moral diferenciado. Não estava fazendo absolutamente nada em proveito próprio, não estava guiado pelo senso de auto-promoção silencioso que guia as “pessoas boas e solidárias”, nem mesmo estava de posse do sentimento intrínseco aos seres humanos de autopreservação: estava num sacrifício planejado, de certa forma autodestrutivo e egoísta, porém ainda essencialmente bom. Abandonara qualquer sentido que a palavra vida continha para preservar esse sentido “do lado de fora” – apesar de, para ele, o que chamamos de vida não possuir mais nenhum significado, ele sabe que não foi o significado que foi embora, mas sim ele mesmo. Decidiu pois utilizar aquele resto de alguma coisa que ainda possuia, que lhe permitia se mover, para tentar preservar aquele todo sem significado, porém importante, de outras pessoas que necessitavam. Talvez isso fosse chamado de heroismo por muitos, para ele não era. Era apenas uma transferência: o fiel depositário da vida estava sendo chamado à devolver o que tinha pego emprestado. E ele cumpriria essa tarefa, não tinha mais nada a perder, se é que já tinha possído verdadeiramente algo.

Com esse espírito Libbs entrou pela casa em chamas, munido apenas de seu corpo e de suas capacidades mentais, numa luta frente-a-frente ao inimigo ardente. Possuia pouquíssimo tempo para fazer o que desejava, a vida é como areia de uma ampulheta: deixa-se esvair com reticência, lentamente, porém o caráter inevitável da evasão era urgente, e neste caso Salsep lutaria contra o tempo.
Decidiu subir as escadas enquanto estas ainda estavam por lá.

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Responses

  1. “dentro do inferno uma porta é aberta com violência, gerando labaredas crepitantes em resposta pela invasão inesperada”

    =O

  2. Gostei do capítulo, mas, fosse em um livro, ficaria um pouco frustrado, já que é basicamente “as motivações de Salsep”, com pouca evolução da ação que está ocorrendo.

    Mas gostei.

  3. “um homem muda com o menor acontecimento se este possuir o poder suficiente”

    Gostei =D
    Parabéns pelas palavras…
    Bjos


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