Publicado por: - TCZ - | sexta-feira, 1 agosto 2008

[N02_Salsep04] Higher Ground

O segundo andar não estava melhor que o térreo, nem despertava maiores esperanças no policial, mas não era à cata de esperanças que viera, mas sim da possibilidade em salvar antigos e agora para ele, inúteis significados. Viera tentar fazer aquilo que julgava ser a única coisa que poderia fazer, aquilo que poderia justificar e fazer esquecer parte do que sentia. Através daquele ato provaria que as pessoas podem ser boas, podem ser nobres e justas mesmo quando fatalmente condenadas à um destino ruim, que não lhes fazia justiça absolutamente.

Salsep desejava provar sobretudo a sí mesmo que Holy City ainda possuia esperança, que não era uma cidade amaldiçoada por seus próprios fundadores, e mesmo que fosse, que essa maldição não envolvera o povo, e que ele, como parte integrante desse povo, mostrando seu valor nos seus momentos mais desesperançados, poderia expiar toda a culpa e toda a mácula sangrenta que a cidade sempre imprimiu em seus habitantes. Mesmo com tudo o que aviltava contra o bem que estava presente naquela cidade, Salsep queria mostrar a si mesmo que ainda fazia sentido acreditar, que fazia sentido o que fazia, que não estava guiado só pelo seu recém adiquirido “contra-instinto heroico-autodestrutivo” mas sim por algo maior.

Assim, vestindo a couraça inabalável de seus recém desenvolvidos ideais, Libbs Salsep desafiou o fogo e subiu as escadas, apenas para encontrar uma situação mais desesperadora que antes: o chão cedia em diversas partes emitindo sons que pareciam gemidos daquele grande animal agonizante que a casa se tornara. Era uma construção muito velha, porém até então, antes do acidente, sólida como uma rocha. Datava talvez da época dos fundadores e, quem sabe, portava em carga maior a tão folclórica maldição. Isso não importava agora, o que era uma relíquia histórica e arquitetônica de Holy City agora ardia em chamas e testemunhava em seus últimos momentos de existência o surgimento de, talvez, seu último herói. Salsep caminhava cuidadosamente entre o piso, aonde ainda suportava seu peso, buscando algo para preservar, para proteger, para consolar-lhe de toda aquela situação. Procurava agora, quando já não havia mais vida em seu corpo, algo que justificasse seus recentes atos, que devolvesse a vida à cidade.

O segundo piso era basicamente constituido de aposentos que guardavam vestígios da vida e história das comunidades nativas da região de Holy City, antes desta ser colonizada pelos pioneiros que cansaram-se de proseguir para o oeste e terminaram ali naquela região castigada porém promissora e decidiram fundar sua pequena vila que, com o tempo tornou-se um condado e mais adiante uma bela cidade, vizinha (e segundo alguns irmã) de Arkham, famosa pela Universidade Miskatonic e pelos seus estranhos incidentes. Holy City era menos famosa e menos importante, e da metade do século passado até então apenas definhara e agora, ao que tudo parecia, tornava-se apenas sombra do que um dia poderia ter sido e assumia a forma de um doente terminal, apenas esperando o momento derradeiro de abandonar esse mundo. Não possuia mais vida, mas teimava por ainda respirar, e sustentar algo patético, anímico, qualquer coisa de movimento, que fazia com que as coisas funcionassem. Aquele prédio era apenas, talvez pela idade, uma parte da cidade que morria finalmente, assim como os antigos ocupantes e donos daquelas terras – que desapareceram sem deixar mais vestígios que aqueles, utensílios variados, que agora queimavam e tornavam-se cinzas como todo o resto. Como Salsep também se na próxima porta que arrombou não tivesse achado aquilo que viera buscar: esperança, o significado que viera preservas. Salsep tinha achado afinal vida.

“Aquilo” era uma criança. Uma pequena garotinha coberta de lágrimas e, caso nada acontecesse, de chamas.

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Responses

  1. COmo eu não estou familiarizado com o estilo Noir, acredito que essa introspecção e a análise das motivações e atos do personagem principal sejam característicos do gênero, hun? Ao menos, parece.

    Eu quero ver mesmo é o que acontece depois da casa em chamas. Se é que há um depois da casa em chamas.


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