Publicado por: - TCZ - | segunda-feira, 22 setembro 2008

Garis

[Antes de mais nada, leia o “termo de responsabilidade para idiotas” caso você meu leitor precise dele. No mais segue o texto.]

Das profissões urbanas que eu vejo quando saio nas ruas, malabaristas de sinal, catadores de coisas, vendedores ambulantes, pedintes e malucos profissionais, talvez a profissão que mais mereça atenção é a de Gari. Acho que mesmo pelo modo que eles são, os Garis evitam as luzes, o foco da atenção e passam diariamente sob nossos narizes e nem reparamos direito no que são e como são.

Isso nos diz a Wikipedia

“O surgimento do termo gari, que provém do nome de Pedro Aleixo Gary. Durante o Império, ele assinou o primeiro contrato de limpeza urbana no Brasil. Aleixo costumava reunir, no Rio de Janeiro, funcionários para limpar as ruas após a passagem de cavalos. Os cariocas, que se acostumaram com esse trabalho, sempre mandavam chamar a “turma do gari”. Aos poucos e de tanto repetir, a população associou o sobrenome de Aleixo Gari aos funcionários que cuidam da limpeza das ruas”

Mas é um pouco menos do que realmente merece ser dito, sei lá. Acho que esses caras que ficam por ai varrendo as ruas são um pouco mais que um amontoado de história e de nomes franceses de séculos passados. As roupas laranjas, os bonés, carrinhos e siglas engraçadas (“Condep”?) são apenas elementos que fazem parte duma entidade eternamente urbana, surgida do que sobra da cidade, que faz com que de certa maneira ela continue se movimentando, reiniciando o ciclo de produção e consumação, sintese e analise do nosso querido sistema econômico.

Garis são tão incorporados ao organismo social das cidades que são invisíveis. Talvez como não faça sentido separar a cor vermelha do sangue ou talvez separar o cheiro característico de nossa merda dela mesma, o Gari não se separa das ruas, não paramos para pensar que Cidade, paisagem, ambiente, rua, Gari são coisas distintas. Por muitas vezes as pessoas não olham para os garis, muitas mesmo, mas na maior parte das vezes isso ultrapassa uma simples discriminação social idiota, beira a uma invisibilidade mesmo. Notar verdadeiramente um Gari na cidade é quase o mesmo que sair de casa um dia, olhar os carros nas ruas e se espantar com isso, achar algo alienígena. Acho que esse é o ponto, os Garis não são para a maior parte das pessoas coisas distintas do ambiente em que trabalham, acabam se tornando uma engrenagem mesmo.

Mas pelo menos a profissão do Gari não é de todo má. Explico porque em instantes: a função do Gari, como todos nós sabemos, é manter a cidade limpa, retirando dela a sujeira que acabamos deixando por ai. Todos sabem disso. Sabem mesmo? Ou decoraram e ficaram por isso mesmo? As pessoas tem mania de decorar coisas e depois acreditar piamente que o que sabem de cor é de fato conhecimento… não se preocupam em verificar se aquilo realmente é verdade.

Alguém aqui já viu cidades sem Garis? Ok, cidades GRANDES sem Garis? Eu não. E alguém já viu cidades GRANDES SEM SUJEIRA? Sem Lixo? Então vamos lá: suponhamos que SEMPRE tenhamos Garis em ciades grandes (olha ai, a necessidade de ter Garis em uma cidade grande é uma condição necessária para a cidade ser considerada Grande?), aceitando isso, verificamos que a função que decoramos que o Gari exerce e´limpar toda a cidade de sua sujeira certo? Mas já concordamos que nunca vimos uma cidade grande (portanto uma cidade com garis) limpa efetivamente. Daí ou os Garis nunca fazem seu serviço direito, ou então que a função do Gari não é exatamente essa.

Esse o meu ponto, eu acho que a função do Gari nunca foi limpar a cidade ou sejá lá o que for nesse sentido. A função do Gari sempre foi a mesma: “Cabide de empregos”. Deixe eu contar uma historinha. A ópera de Paris teve no início do século vinte pelo menos segundo Gaston Leroux um posto de trabalho no mínimo muito interessante: eram os “Fechadores de portas”, homens idosos que passaram toda a vida trabalhando na ópera e depois de certa idade não podiam nem se aposentar, pois esse tipo de benefício não exisitia pelo menos para eles, nem ir para outro lugar correndo o risco de morrer de fome. Assim, ficavam na ópera e seu trabalho era fechar quaisquer portas que encontrassem abertas. Assim, com seu trabalho meramente ilustrativo do abono que recebiam pelos diretores do teatro (e com o tempo foram permanescendo na ópera e foram esquecidos pela administração) permaneciam em um posto digno de trabalho, não recebendo na verdade nenhuma esmola. Apenas o que lhes era devido pelo serviço.

Pois bem o que isso tem a ver com nossos Garis? Estou dizendo que seu trabalho é apenas justificativa para um “Donativo estatal”? Nunca. Embora ache que o assistencialismo estatal anda muito saidinho ultimamente, reconheço a importância que o varredor possui na cidade moderna. O ponto não é esse… se você me disser que então insinuo que o Gari desempenha um trabalho “meramente ilustrativo”, ai vocÊ chegou onde eu queria. Como já vimos ali em cima, alguém aqui se lembra de cidades totalmente limpas? Eu não. Então os Garis andam vacilando no seu trabalho? Ou a função deles é justificar aquilo que nós decoramos sobre “limpeza pública” enquanto obrigação do estado? Justificar gastos?

Não serei bobo a ponto de afirmar algo, porém enquanto conjectura digo que realmente é algo que me faz pensar, sobre os Garis e seu trabalho de sísifo de limpar uma cidade que jamais ficará de fato limpa. Seria como admitir gasto com um “ministério de esvaziamento do oceano”, coisa parecida. A quem interessa de fato que acreditemos que as ruas estão sendo limpas? Ou mais, a quem interessa que não vejamos que cidades na verdades são grandes mosntros insolúveis, e que os problemas visiveis nunca desaparecerão porquê não são realmente problemas mas sim partes intrínsecas da entidade que chamamos de cidades? Talvez por isso se existem Garis eles são invisíveis, fazendo um trabalho que na verdade não executa nada determinante, apenas ameniza um problema que não é problema, que é parte integrante do grande monstro urbano. Cidades são e sempre serão sujas, pois o ser humano é sujo. Muitos de nós juntos modificamos o ambiente de forma ruim. Não há como esconder isso, apenas amenizar para que não passe a nos incomodar de forma mais gritante.

De mais a mais me excedi. E de qualquer forma, mesmo que isso tudo que eu joguei seja bobagem uma coisa é certa: as cidades nunca estão totalmente limpas em ultima instãncia porque os Garis podem se dar au luxo de fazer o trabalho “pela metade”, afinal, quem irá fiscalizar o trabalho dos Garis? :P

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Responses

  1. você mesmo disse que é um ciclo.
    se o lugar por onde você passa está sujo é porque as pessoas já sujaram de novo ou porque o gari ainda não passou. eu reparo neles e dá pra ver que fazem o trabalho direitinho.

    ps.: você tá TÃO sem graça hoje, TCZ

  2. Teclado sem acentos!

    Voce esbarrou de leve em um post que eu estou pra fazer ha muito tempo, mas tomou um rumo completamente diferente. Mas tenho que discordar que o gari nao e uma das funcoes “meramente ilustrativas”. Acho que ‘ce podia ter escolhido um exemplo melhor.

  3. P/Moon: eu não estou sem graça, você que está insensível.

    P/Yumejin: eu tô em casa, aqui eu TENHO acentos (no palm TB, mas eles ficam em posições esdrúxulas… fica ruim de usar por enquanto, mas eu tô pegando o jeito)

    Eu acho que seja uma função ilustrativa sim pelos motivos que expus. Não disse que os Garis não “fazem o trabalho direitinho.”, disse que estão numa função que se espera algo impossível de se fazer. E que ISSO, essa “miscolocação” deles que é digna de comentário… que a população decora uma função para os caras que não é a que eles realmente desempenham. Porque isso?

    Tem outros exemplos de colocações ilusórias, mas o Gari para mim é o mehor exemplo (além de ser uma forma foda de assistencialismo)

  4. Tcz, como primeiro ponto, concordo com o yumejin a dizer que existem exemplos melhores de cabides, principalmente na UERJ, mas Garis são mais gerais.
    Como comentário pessoal do texto, quem lê a introdução do Post na pagina inicial, quase chega a acreditar que vc ficou comovido com a nosso negligência perante o trabalho dos garis, o que obviamente não condiz como resto do texto felizmente, pois isso o tornaria muito chato.
    Fora isso: Condep é dai de Petrópolis não é ?nunca vi a sigla no Rio.

  5. […] Verdadeiros Invisíveis Há dois posts atrás, comentei que o -TCZ- esbarrou em um tema já pensado por mim há meses, talvez até um ano, mas […]

  6. CAguEI

  7. Comentrio especialmente brilhante, devo acrescentar. Por favor volte sempre e abrilhante cada vez mais este blog com seus ilustrssimos comentrios.

  8. não entendi mt bem esse modo de comentário aqui, mas td bem vamos lá, sou gari na cidade de ourinhos , cabide de empregos é para parentes, não?eu não tenho parentes políticos em parte alguma do mundo, prestei um concurso e passei, trabalho 8 horas por dia, e faço mts horas extras por isso tenho um salário razoável em termos de Brasil, aqui o nosso trabalho é sério, trabalhamos mt e muito mais que qualquer pessoa de uma empresa particular, pelo menos pra mim o órgão público é onde me dá meu sustento, então, nada mais justo do que fazer meu trabalho com seriedade,pode ser até humilhante para uns e outros, para mim e meus colegas de trabalho e eu posso seguramente falar por eles, é um trabalho digno, e nós gostamos mt de ser GARI!!!! quanto a cidade que continua suja, não somos nós os culpados, nós limpamos, a população é que não tem noção de educação, e tb não são os pobres que sujam, e sim os ricos!!! quanto mais rico, mais porco!!!!

  9. Luzia, boa noite, tudo bom?

    Venho aqui me desculpar contigo e com todos os teus colegas de profissao que possam ter se chateado com o texto. O escrevi quando era adolescente (alias, todo o blog é um blog de adolescente) e na epoca por algum motivo me pareceu uma boa piada o que acabei escrevendo, mas que nunca refletiu (e nem reflete, atualmente) o que penso sobre a tua nobre profissao.

    Tenho pela consciencia, e acredito que todos deveriam tambem ter, de que a profissao de gari e fundamental para a vida harmoniosa em nossas cidades e grandes metropoles, muito embora por vezes nao seja reconhecida com o valor devido. E uma ocupaçao digna, que e exercida diariamente por mulheres e homens anonimos que sao verdadeiros herois sob difarce.

    Se ficou qualquer mal estar com o texto, me desculpe. Como eu disse, o blog sempre teve um espirito mais despojado e nem sempre reproduz com fidelidade nem os pensanentos dos autores, nem a realidade. Assim termino te parabenizando, querida amiga, e fazendo votos que voce se mantenha sempre com essa postura polida, educada, digna e tendo orgulho da importantissima colocaçao que possui em nosso ordenamento social.

    Abraços.


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