Publicado por: - TCZ - | domingo, 28 setembro 2008

Olga

Hoje eu conheci uma menina muito agradável chamada Olga. Loira, olhos azuis, cabelos curtos, levemente alcolizada, ginasta, catorze anos. Várias coisas me chamaram atenção nela sabem, várias coisas. Dentre todas elas, no meio de coisas como “nossa que legal, eu acertei sem querer que ela é ginasta, afinal, Olga é nome de ginasta” e “catorze anos falando enrolado e meio tonta por causa da bebida?” ou então “foi beber e levou a irmã mais nova? Que mundo maluco esse! Ainda bem que já sou adulto. Sou adulto? Isso não é ruim? Não me torna velho?” (é, tinha também uma irmã mais nova sem nome pra mim. Quer se tornar corredora ou engenheira no futuro. Recomendei a segunda, apesar de não ter lá grandes emoções como a primeira) Bem, de qualquer forma no meio disso tudo uma coisa me chamou a atenção mais que o resto. Algo que veio logo no início, e mesmo tendo aparecido depois de uma ou outra das coisas que eu contei agora pouco ficou na minha mente por um tempo e se recusa a sair, me forçando a escrever isso. O nome dela.

Olga não é um nome que combine com uma garota “Loira, olhos azuis, cabelos curtos, levemente alcolizada, ginasta, catorze anos.”. Combina talvez com “Loira, olhos azuis, cabelos longos, porte atlético, ginasta, vinte anos” ou então “Cabelos castanhos, olhos castanhos, cabelos longos amarrados em coque, busto matronal, secretária-geral do partido comunista russo, quarenta anos” ou ainda mais “Cabelos brancos, olhos negros, cabelos longos amarrados debaixo de um pano bonito, postura recurvada e aparência frágil, avó, oitenta anos”.

Vocês pegaram a idéia. É esquisito encontrar gente jovem com nomes de gente velha. Talvez exista por ai uma regra secreta, oculta por detrás da nossa cultura, que determine quais nomes podem, devem ou não ser usados, quais nomes estão na moda, quais são adequados ao tempo presente e quais não são. Talvez os nomes se repitam depois de certo tempo, como ciclos, talvez sejam reflexo da cultura do tempo presente, não diretamente como na sociologia, mas mesmo em esferas mais oníricas tal como queria Benjamin.

Talvez exista, e eu acho que essa hipótese é mais acertada, uma gradativa des-significação dos nomes que as pessoas recebem. Muitos anos atrás, as pessoas recebiam nomes com grandes significados, chaves que determinavam uma marca de boa sorte sobre aqueles que nasciam, predizendo bênçãos para o futuro. Depois passaram a receber nomes de antepassados ou de pessoas muito importantes, nomes comuns mas que carregavam significado para aquele que era batizado, para que quando todos chamassem seu nome lembrassem do que aquele nome significou em outra pessoa e pudessem manter a lembrança viva. E ai começaram a receber nomes que lembravam aos pais pessoas importantes de forma mais específica para eles: cantores, atores ou mesmo personagens de cinema e tevê, para que ao celebrar a alegria da concepção pudessem ampliá-la sinestesicamente e associá-la ao outro nome, gerando assim dois sentimentos ao invés de um somente. Talvez também buscassem mascarar aquele que nascia, imbuindo-o de outro nome, talvez de alguém mais interessante certamente, que emprestaria aquela criança um pouco da glória do nome famoso, ou mesmo aos pais parte da responsabilidade de ter como prole um rebento com nome importante. Finalmente chegamos a nosso tempo, onde os nomes começam a deixar de ter ligação com qualquer coisa externa e passam a atender as vontades dos nomeadores, onde consoantes e vogais são adicionadas ao bel-prazer dos batizantes formando novas combinações, por vezes impronunciáveis, como fórmulas cabalísiticas atendendo tão somente ao acaso.

Mas, o nome por vezes (à contragosto do que desejava Wittgenstein) se confunde e se une ao nomeado. Nos tempos antigos, os nomes de bom-agouro sem dúvida influenciavam positivamente a vida do nomeado porém de certa maneira limavam e podavam os ramos da vida do portador do nome, pessoas que gostariam muito de serem músicos não podiam, pois seu nome significava coisas como “aquele que fará grandes obras pela comunidade” ou “vitorioso sobre a morte”. As vezes ser músico era muito melhor que vencer a morte, mas o nome não permitia. Depois quando começaram a receber os nomes importantes de outras pessoas importantes para todos acabavam por carregar sobre si uma responsabilidade para com aquele nome, viviam à sobra de um grande nome e, como acontece muitas vezes (o mundo não se constrói somente de “Jesuzes” ou “Alexandres”, mas de muitos “Severinos” e “Antônios”) não correspondiam as expectativas, quando não faziam jus à sombra do portador original, amargavam uma vida incoerente: possuiam um nome que absolutamente não os representou. E ai quando começaram a ganhar nomes conhecidos, de artistas ou personagens o problema piorar pois é pior ficar a sombra de alguém que não existe do que alguém que existe. A marca torna-se mais visível e ao pronunciar-se certos nomes, imagens muito controversas vinham a mente das pessoas e os portadores acabavam por mais uma vez não se sentindo possuidores dos nomes que tinham, apenas sentiam-se como se fossem receptáculos de nomes de outrem.

Assim vieram os tempos atuais, com seus nomes cada vez mais arbitrários, mais sonoros ou visualmente intrigantes, atendendo ao gosto dos pais. Dá-se o nome que é mais bonito, o nome mais agradável ao ouvido ou aos olhos, o mais interessante e mais sedutor. Não se espelha em grandes significados nem espera-se que com o nome a criança receba “belas e precisas” bênçãos. Espera-se tão somente que o nome soe bem, que se escreva de forma agradável. Isso à primeira vista pode parecer aleatório e desprovido de importância efeitva, mas de certa forma pode ser de fato mais vantajoso que todas as formas antigas de batismo: quem assim é batizado, de forma não-significativa, possui liberdade. Liberdade de se tornar quem quiser e como quiser, de ter o destino que desejar (ou por muitas vezes que outros desejarem. A liberdade é uma lâmina que corta os dois lados do fio), de fazer aquilo que se realmente quer. Sem rótulos, sem títulos, apenas nomes. Nome e nomeado podem assim, finalmente, separar-se um do outro. Ou mais ainda, ao invés do nomeado ganhar um nome, sendo este último determinante do primeiro, teremos o inverso: o nomeado que dirá se o seu nome é ou não nome de bom-agouro, de gente importante, ou se é mais um simples nome comum. As combinações de letras possíveis são virtualmente infinitas possibilitando assim que cada pessoa seja sempre uma pessoa nova.

Assim, encerro pensando que talvez no futuro, nosso nomes-de-uso-comum e quem sabe até o próprio conceito de nome sejam totalmente rompidos e finalmente possamos nos expressar enquanto indivíduos além dos meros limites de nossa linguagem. Bem, caso isso seja realmente impossível, pelo menos chegaremos bem perto ou então teremos mais consoantes em nossos nomes do que realmente poderemos pronunciar.

“Não somos nossa tristeza. Não somos nossa felicidade ou nossa dor, mas nossa lingua hipnotiza e nos prende em caixinhas rotuladas.”

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Responses

  1. Fazia tempo, hein? Que você não escrevia assim. Parabéns, acho que expôs muito bem sua teoria interessante.

    Olga… estudo com um Édipo. É engraçado, mas ele tem cara de quem poderia interpretar Édipo nas antigas peças helênicas. Mas não é um nome de pessoas da nossa idade. É nome de personagem.

    Ou a garota que conheci que se chamava Lauriana. é um nome tão antigo… que era estranho não se tratar de uma senhora.

    Em tempo, “secretária-geral do partido comunista russo” valeu o post inteiro.

  2. Édipo?

    Ele é manco por acaso? oO

    Se a Olga era ginasta, porque ele não pode ser manco ^ ^’

  3. e outro dia eu disse que quando vou escrever, eu tiro mais a personalidade a partir dos nomes do que os nomes a partir das personalidades, haha…

    Adorei, como sempre. Genial.

  4. Rapaz, depois ke um amigo citou que uma de suas alunas se chamava Hestefanyy(sim, com H), nada mais me assusta. Há tb coisas muito piores ,como os nomes políticos tipo: Seu boneco de Nilóplis, ou Marcinho 12345( não era o numero pra votar, mas o nome mesmo(será ele um andróide e este o numero de série?)
    Axo que é só, abraços

  5. Ho! Realmente interessante. Não vou ficar julgando se o texto foi bom ou ruim, pois a beleza está nos olhos de quem vê. Pode soar batido, mas é verdade.
    Eu achei que está bem legal o texto…e diga-se de passagem o meu nome e o nome do meu irmão foram escolhidos para serem pequenos, fortes e com um significado.
    legal

  6. Engraçado. Eu achava que tinha comentado este texto…
    Anyway, excepcional. Falamos sobre isso, e ainda falaremos muito, MUITO mais…


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