Publicado por: yumejin | quarta-feira, 1 outubro 2008

Os Verdadeiros Invisíveis

Há dois posts atrás, comentei que o -TCZ- esbarrou em um tema já pensado por mim há meses, talvez até um ano, mas que ele seguiu uma vertente completamente oposta. Acho que agora é um bom momento para escrever o que se passa na minha mente.

Os garis são integrantes de uma massa maior e heterogênea de pessoas, quase uma classe social: os verdadeiros invisíveis. Como uma espécie de casta proibida, intocáveis e inconsideráveis para quem não pertence a ela, os membros dessa comunidade vagam pelo mundo como mera paisagem, ou ainda, menos do que isso, já que a paisagem ainda é notada.

São mendigos, indigentes, pedintes no sinal, moleques de rua, catadores de lixo, garis, faxineiros e zeladores, entre muitos outros. São homens e mulheres, velhos e novos, negros e brancos, igualmente sujos de fuligem e pó, cheirando a muitos dias sem banho ou água limpa, com cabelos desgrenhados e oleosos, olhares de cachorro de rua, jeito de quem olha, mas não vê.

Sem o romantismo dos adoradores da miséria, ser pobre não é vergonha, mas tampouco é grande honra. As facilidades materiais que o dinheiro compram são apenas a parcela tangível da diferença entre morar em uma casa, mesmo que seja de tijolos aparentes, e dormir sobre uma caixa velha de televisão 29 polegadas da Semp Toshiba.

As pessoas que passam, aquelas que vivem de verdade, possuem documentos na carteira além de moedas e cartões, certidão de nascimento lavrada no cartório, trabalho depois do engarrafamento, comida depois da porta, essas evitam cruzar olhares com os invisíveis, com um medo quase irracional de ter que enxergar o que sempre esteve ali. Olham para o chão ou para os próprios pés, tênis, sapatos, o que for; lembram-se repentinamente de algo nada interessante na bolsa, na sacola de compras, no celular; chegam mesmo a fechar os olhos e tentar desajeitadamente adivinhar o tempo necessário para que seja seguro reabrí-los.

Compartilham desse mundo mesmo aqueles que vivem em casas e trabalham honestamente, mas que exercem funções tão braçais que vários se perguntam como robôs ou máquinas ainda não lhe tomaram os postos. Por vezes, são funcionários antigos, de uma época em que levantar quando o professor entrava em sala era mandatório e onde a missa era a ocasião de estrear roupa nova. São migrantes de outras cidades ou de outros bairros, que trabalham naquilo como bico ou como fonte de renda total.

Os outros, os visíveis, às vezes, por magnanimidade imaginária e senso desproporcional de importância, lhes dignam um ‘obrigado’, um ‘por favor’, um ‘dois reais pro cafézinho’. A maioria, nem isso. Saem todos com uma sensação de normalidade e a vida segue, hoje, domingo, amanhã, segunda.

Sensação que é falsa. Os invisíveis são feitos de tanta matéria densa quanto nós, os que existimos, os que temos trabalhos e empregos de verdade, os que estudamos em escolas e faculdades renomadas. Mais do que isso! Eles possuem sonhos, aspirações, temores internos, medos secretos, desejos, lascívia, ódio, bondade, todos os sentimentos, a alegria e a tristeza.

Em sua completa invisibilidade, eles acordam para dormir e dormem para acordar, com o único propósito de conseguir passar de uma ponta do dia até a outra, de arranjar um trocado para se satisfazerem das formas que conhecem. Enquanto varrem, enquanto limpam e enquanto pedem, não pensam em filosofia aristotélica, não imaginam grandes mundos fantasiosos, não discutem medicina, direito, engenharia. Apenas são porque disseram pra eles, um dia, que não iriam além disso.

São os invisíveis melhores do que os visíveis? São mais puros, menos tocados pela sujeira do mundo que nos cerca? Não, definitivamente, não. São apenas nascidos sob outras circunstâncias. Não devem ser tratados com especial atenção ou cuidado. Devem ser tratado com o que são: iguais.

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Responses

  1. maravilhoso o texto.

    e completa verdade.

  2. Achei muito meloso.

    Anyway, baixe/leia “Os Invisíveis” de Grant Morrisson, quadrinho que trata MAIS OU MENOS disso.

    A invisibilidade social é o primeiro passo da rebelião. Quando você não vê mais o excluído, uma TAZ pode se formar ou então, com certa organização, um estado de rebelião/revolução permanente, na verdade tenho meus motivos para ACREDITAR que isso já esteja acontecendo.

    De qualquer forma, outro dia te explico isso ou então escrevo sobre.

    Mas ainda acho meloso.


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