Publicado por: yumejin | quinta-feira, 30 outubro 2008

Do aprendizado constante

Quando chegar o dia em que eu deixarei de me surpreender com a complexidade deste mundo e das pessoas, acho que vou morrer pelo simples tédio, ou talvez pela falta de interesse mesmo. Acho que não passa um dia sem que alguma coisa aconteça espontaneamente, seja um evento ou uma ação, ou ainda uma frase, um gesto, um pensamento, próprios inclusive, que não me fascinem.

Tenho facilidade tanto para a concentração quanto para a distração. O resultado é que nas poucas coisas em que consigo me colocar para fazer a sério, tudo flui da forma que deveria ser. Em compensação, minha mente está quase afundando em idéias soltas que não são levadas a cabo por total falta de planejamento.

Embora eu costume escrever sobre teorias e visões que são pessoais, raramente tenho interesse por falar de coisas mais íntimas do que essa “filosofia de blog”. Mas hoje é um bom dia para isso. Bem, na verdade, há quatro dias atrás foi, mas é por causa da minha política de um post a cada três dias que estou tentando manter a todo custo. E fiquei co vontade de conversar sobre o aprendizado constante.

Conversar é definitivamente o termo certo. Não sou nada fã de horóscopos de revista e classificação rígida baseada na data em que você nasceu, mas uma característica que bate entre meu signo, Virgem, e minha personalidade é o criticismo, como bem sabe qualquer um com mais de um mês dia tempo curto de convivência comigo.

Por causa desse criticismo do gosto por palavras e pela gramática, acabei desenvolvendo, voluntariamente ou inconscientemente, não saberia dizer, um estilo formal de escrita. Cumulativamente, é raro que eu poste algo que não seja a explicação de uma visão de mundo particular. Uma coisa leva à outra e é só conferir algum dos meus outros textos para perceber o resultado da soma. Aliás, esse mesmo pode ser tomado como medida, embora não completamente.

Isso pode ser facilmente confundido com pedantismo, como se eu quisesse provar que sou superior aos outros através dos meus conhecimentos, quaisquer que eles sejam. Seria muita tolice negar que isso já foi verdade há alguns anos, quando eu escolhia sempre o sinônimo mais difícil que eu conhecia para escrever minhas redações. Isso, claro, quando não tentava atulhá-la de referências a diversos textos, filmes, livros, poemas e o que fosse, para o bem e para o mal.

Quando comecei a escrever um blog, em 30 de outubro de 2006, minha intenção era simplesmente deixar que minhas idéias flutuassem pela internet, de modo que um ou outro tropeçasse nelas e as lesse, aproveitando o que lhes coubesse. Como disse antes, nunca tive muita necessidade de várias pessoas ao meu redor e prefiro a companhia de um só, eu mesmo, do que a de um número grande que só faça atrapalhar minha linha de raciocínio.

Algum filósofo renomado, cujo nome não guardei, mas que conheço [sou especialmente ruim para determinar quem é quem na filosofia depois de São Tomás de Aquino], postulou que o pensamento segue desta forma: primeiro, surge uma idéia; logo em seqüência, uma antítese é formada, algo que contradiga o que se pensou originalmente; por fim, da reunião das duas surge a síntese, que é uma versão melhorada daquilo que existia no início.

Acredito que a maneira de enxergar as relações humanas siga um processo análogo, embora não igual. Crescemos ao sermos expostos a situações inusitadas, ao termos nossas teses refutadas de maneira sensata [não precisa ser lógica], ao sofrermos um choque. Questionamos e avançamos com uma versão nova, reformulada, atualizada do que éramos antes.

Não é igual à teoria proposta pelo filósofo porque nem sempre agimos dessa forma. Por vezes [mais freqüentes à medida que vamos envelhecendo], nos preocupamos mais em nos provarmos certos do que em aprender algo novo. Não queremos “perder”, não queremos admitir o erro, então criamos desculpas em cima de desculpas ao mesmo tempo em que procuramos falhas estruturais nos argumentos alheios, não na essência deles, mas na forma que são apresentados. Em quatro ou cinco iterações tudo se transforma em uma disputa por um detalhe qualquer.

Quando crianças pequenas, antes dos sete anos, só fazemos absorver o que nós é passado. Sim, verdade, fazemos birra, reclamamos, esperneamos, mas aceitamos o que nos disserem, em especial nossos pais e avós, como verdade absoluta. Não há espaço para dúvida ou mesmo um segundo de hesitação. Como numa mágica, cada palavra dita é tomada como incontestável, incorrigível, eterna. Talvez seja por isso que as crianças se ressintam tanto quando um adulto falta-lhes com uma promessa.

Passamos pelas séries do primário e do ginásio e vamos perdendo essa inocência. Combatemos pela atenção dos colegas e para nos destacar em alguma coisa. Vale até ser o mais porco da sala. São os primeiros sinais da ganância pela posição, pela influência, pelo poder, algo que talvez seja inerente ao gênero humano.

Quando atingimos os vinte anos, já temos uma imagem definida de nós mesmos. Somos os melhores em matemática, em física, em filosofia, em música, em pintura, no que for, e não podemos permitir que qualquer um nos ameace nesse campo escolhido. A faculdade, neste aspecto, só faz piorar essa postura daninha, criando um suporte imaginário através do academicismo, a crença de que somente o aprendido dentro das academias [escola, faculdade, cursos] é válido.

Só que, em realidade, não é assim que deveria funcionar. Deveríamos seguir aprendendo a cada dia, confrontando nossas idéias com as dos outros, mas absorvendo o que houver de melhor. Para minha surpresa, o ato de ter começado um blog me proporcionou algo assim.

Depois de cerca de um ano, o -TCZ-, que escrevia em seu Troubleshooter S/A, me propôs criarmos algo em conjunto. Aceitei por dois motivos: ele é melhor propagandista que eu e tem idéias interessantes. Assim seguimos, com ocasionais surtos de postagens e longos períodos estéreis, até que cada um convidou alguém pra participar, Mr. Balboa no caso dele e Moon no meu.

Mas eu ainda sentia como se o blog fosse dividido entre eu e -TCZ- e os outros dois fossem convidados. A transformação só ocorreu com o convite de mais um de cada parte: Renato, por si próprio, mas adicionado por mim, e Melquíades, pelo meu colega quodlibetário. Pelo simples fato de termos sangue novo na casa, todos acordaram do torpor e, com estilos diferentes, cada um de nós seis fez com que este mês fosse o mais produtivo e o mais visitado da curta história do Movimento Quodlibetário.

Isso não é tão importante pra mim, para ser sincero. O que me motivou e me deixou empolgado foi um conjunto de fatores que guardam relação com o aprendizado constante de que falei.

Em um nível mais simples e tangível, novas pessoas escrevendo e as antigas se animando a participar e comentar faz com que a comparação entre as escolhas se torne mandatória. Como a forma de expôr as idéias de cada um é diferente, quase uma marca visível entre as linhas. A postura em relação ao leitor e ao próprio material também varia bastante entre um e outro.

No plano mais relevante, seis pessoas são seis visões de mundo que colidem, lembrando o bom experimento. Como a idéia do que é importante, do que é interessante, do que chama a atenção difere. Além disso, o mesmo assunto pode ser revisitado de formas impossíveis para uma pessoa só, a não ser, claro, que estejamos falando de Fernando Pessoa.

Olhando as últimas semanas e os escritos, meus e deles, vejo a idéia original e a antítese do filósofo. A tentação de rejeitar o estranho existe, claro, mas me parece tão mais divertido aceitá-lo e tentar aprender com ele, mesmo que seja descobrir como não discutir algo, que eu não posso deixar de pensar em quanto se perde tentando ganhar todas as discussões, ao invés de evoluir. Quodlibet!

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Responses

  1. Uma retificação ao seu post: a minha entrada não foi tão sutil assim. Um dia eu vou contar como foi e pediria encarecidamente ao TCZ que não o faça (se ainda lembrar como foi ou se ainda tiver o histórico de MSN). E ado Renato…bom esse aí foram ALGUNS meses jogando a semente na cabeça dele.
    “Tá com livrinho aí” – piada interna
    Mas em resumo achei interessante o seu post e o seu ponto de vista do blog. Foi um Movimento Quodlibetário conversa mais sofisticado.

  2. Balboa, foi em Itaipava quando saímos com o Ir. Ivete Sangalo se você bem se lembra daquele dia hauahauh

  3. Ah e, Yumejin.

    Hegel.

  4. Renato, o auto-convidado.
    Renato, the eternal afterthought.
    Renato-i, o imaginário. (Piada interna FTW!)

    O moral da história é que eu e Melquíades somos os heróis. u.ú

    <.<

  5. Lembro sim TCZ…hauhauhauhauha….a incrível mulher que engoliu a outra garota hehehehehehe

    Renato, o Emo!

  6. bem

    vim parar aqui pelos cliques da net
    mas acabei lendo varias materias
    mas acho q esta resume oq busco nas leituras viajantes da net ^^

    parabens a todos ai
    e aos outros q “chutaram o pau da barraca”
    do mister ego
    AEHIUaehiuEAHiueahEIUAHEAIUH

    mals, nem conheco e ja zuando =P

    abracos e parabens


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