Publicado por: - TCZ - | sábado, 27 dezembro 2008

Post Espontâneo!

Não há coisa essa a que chamamos Espontaneidade. Nada é espontâneo tal como entendemos a palavra, tudo o que existe é determinado por algo diferente de si, nada surge “do nada”, sem motivo aparente. Portanto, aquilo que dizemos “espontâneo” não existe, é uma ilusão de um mal uso que fazemos da palvra, atribuindo-a um significado simplesmente impossível de existir.

Pois senão vejamos, temos por espontâneo, por algo que “acontece espontâneamente”, um modo de como as coisas acontecem. Assim, podemos concordar relembrando usos correntes da palavra, que espontaneidade liga-se fundamentalmente à ações, não me recordo aliás de nenhum uso da palvra espontâneo ligada a coisas estáticas. Assim, essa ligação fundamental do conceito de espontaneidade à “coisas que acontecem”, que não eram e acabam por se tornar, já nos garante dizer, sem cometer levianidades, que não existe tal coisa que chamamos espontaneidade neste mundo.

Pois toda coisa que acontece, acontece por algum motivo. Mesmo que, concordando com alguns, não possamos tanto estabelecer quanto mesmo simplesmente perceber o nexo causal que liga as causas aos efeitos, pois as primeiras não estão contidas nos últimos, podemos afirmar de tudo o que há que ALGO efetivamente foi sua causa, para a qual sua existência é devida. Pois se pode parece não racional afirmar que não podemos determinar precisamente nexos causais que a primeira vista nos parecem evidentes (mas que realmente não podemos determiná-los), mais ainda o é (e não apenas parece) afirmar algo leviano como que alguma coisa neste mundo possa simplesmente surgir, “out of the blue”, sem causa, aparente ou não. Assim, se temos que todas as coisas surgem por algum motivo, temos que não existe espontaneidade no surgimento das mesmas, pois todas necessitam de algo que lhes é anterior e, sendo assim, não há coisa como o surgimento instantâneo, espontâneo.

Assim, uma das formas em que “espontaneidade” pode aparecer foi eliminada, na origem mesma de todas as coisas do mundo e do próprio mundo tomado como macro entidade. Nos sobra portanto, a segunda forma em que “espontâneo” pode aparecer, que é nos acontecimentos que às coisas estão sujeitas.

Quando analizamos de forma aprofundada as coisas “que acontecem” às coisas, notamos que na verdade nunca são elementos que simplesmente “nascem”, se originam diretamente às coisas em que notamos seus efeitos, mas sim esses acontecimentos na realidade são relações entre objetos, entre coisas e que, por defeito de percepção ou ilusão momentânea julgamos por espontâneos e deixamos de enxergar uma das parcelas da relação em que resulta o acontecimento. Assim, quando julgamos que algo acontece vindo do objeto na verdade vemos algo que foi causado por um outro objeto naquele observado, por mais que o objeto de origem seja para nós desconhecido. E, obviamente, temos que o objeto que origina o movimento de acontecimentos também teve seu movimento iniciado por outro e assim por diante (mas diante no sentido inverso) numa cadeia relativamente infinita aos nossos olhos.

Dois casos porém forgem a essa breve e superficial explanação: Deus e os homens. Pois é dito de ambos que podem gerar movimento por si só, daí não é necessário aparentemente o movimento originário provindo de causa externa. Não é bem assim.

Quanto aos homens a observação se mantém satisfatória quando observamos que os ditos atos espontâneos do homem, independentes de fator externo e surgidos de seu interior e de sua própria vontade na realidade são condicionados por desejos que o indivíduo nutre por elementos diversos que o fazem se mover. Portanto o movimento pode sim surgir do interior do indivíduo, porém tem sua causa condicionada à um fator estranho ao indivíduo eliminando assim a espontaneidade de todo o processo uma vez que mesmo inconscientemente o homem é condicionado pelos seus sentidos.

Quanto à Deus, sem enfrentar justificações metafísicas quanto a sua existência ou não (pois dependendo das argumentações que se use para validar ou não o objeto “Deus” à discussão, vamos tomá-lo como válido apenas à fim de exercício e para por o raciocínio à prova) podemos dizer, seguindo o argumento do filósofo, que Dele o movimento surge sem que seja antes promovido por outrém, estando inclusive Deus posto na origem de todo movimento enquanto “Primeiro Motor”. Porém Deus é criatura única em todo o universo de coisas conhecidas, pois isso é condicionado mesmo pelos seus atributos, como onipotência por exemplo, e mesmo em sistemas politeístas, uma entidade com os pressupostos e predicados que Deus possuí ou não existe ou é limitado ao número de apenas UM. Assim sendo, só pode haver um Deus se queremos garantir o conjunto de predicados e propriedades da entidade enquanto definida da forma corrente. Ao mesmo tempo que só pode haver um, necessariamente nada pode haver acima desta entidade uma vez que, além das referidas propriedades que impedem a quebra desta necessidade, a própria definição que foi escolhida para este trabalho (que figura neste conjunto de propriedades), de “Primeiro Motor” já elimina essa posição ascendente à posição divina, pois caso houvesse algo superior, este algo causaria o movimento à Deus e portanto O desqualificaria enquanto tal (de certa forma, a existência de algo superior apenas evidenciaria o equivoco de denominação das entidades, estando Aquele que se coloca no limite ascendente da existência possuidor do nome “Deus”)
Assim, não faz sentido nos questionar acerca da modificação na regra que se apresenta, quando a única excessão é exatamente isto, única, pertencente a um domínio metafísico diferente do nosso justamente por ter seus predicados extremamente superiores aos nossos e que fogem totalmente aos nossos parâmetros mesmos de quantificação e mensuração. A simples noção de “algo que acontece à” não se aplica ao sujeito Deus, pois ele acontece a todo o resto. Seria o mesmo que comparar de forma sistemática os intelectos do homem e dos insetos, a fim de estabelecer uma regra que valesse para todos. Em último caso usaríamos a física dos corpos, física essa que falha quando se trata da Entidade Divina pela mesma estar além da simples física (pois, por definição, a criação de tudo se deve a Deus e de tudo, de todas as coisas, emana a Física. Portanto, enquanto o criado sempre precede a criação, Deus está três vezes acima da Física)

Assim sendo, excluídos todos os casos em que o conceito de espontaneidade poderia ser aplicado, concluo que o mesmo não existe ou, antes disso, é totalmente ilusório no sentido que usualmente o utilizamos. E assim como neste caso, inumeros outros existem levando-me a compreender enfim algo de que já suspeitava e que agora, tenho mais razões para fortificar minha suspeita e levá-la mais próxima ainda da certeza: que o significado que atribuimos a diversas palavras é não só equivocado como muitas vezes desprovido de sentido. Assim, quando nos propomos à uma análise mais detalhada das palavras, notaremos que as mesmas realmente significam metade do que pensávamos, e caso sigamos aquela teoria que nos diz que as palavras são a matriz que codifica a realidade para a mente humana, perceberemo afinal que a realidade mesma é bem diferente d’àquela que nos condiciona a nossa linguagem.

Estamos todos, inevitávelmente, fatalmente enfeitiçados.

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Responses

  1. “You’re talking to one of the three men in the Western Hemisphere capable of following that train of thought.”

    Como observação pontual, o texto está com uma escrita pouco fluida, mas acredito que seja proposital.

    Como observação importante, você usou muitas crases no lugar errado.

    Em relação ao assunto parcial do texto: um amigo meu estava com um questionamento semelhante, sobre a não existência do livre-arbítrio como o entendemos, dado cada ação depender de um motivo anterior, seja física ou metafísica, produto das variáveis do momento.

    Quanto ao assunto global do texto: nossa linguagem é um ótimo retrato das limitações das nossas capacidades de apreensão da realidade como um todo.

  2. De maneira geral, para mim, a diferença está no intervalo entre o antes e o depois. Se me vier à mente uma ação e eu imediatamente fazê-la, considero que foi espontâneo. Se eu parar para pensar duas vezes e analisar as consequências, não foi espontâneo.

  3. Na verdade, o problema com a espontaneidade não está no intervalo de tempo, mas no que condiciona a ação. Não existe segundo a minha interpretação ação espontânea pois sempre decorre de um impulso condicionado por um fator qualquer enquanto ações espountânead decorreriam de fator algum.

    Por exemplo, essa ação que te vem a mente surge condicionada por um impulso qualquer que seja e portanto não é considerada espontânea segundo a minha argumentação pois tem sua origem nesse impulso a que é condicionada.

  4. Entendo e concordo. É que quando vejo as pessoas usarem, costuma ser no sentido de ‘num impulso’, ‘sem pensar’, ‘de repente’, etc.

  5. E mesmo nesses usos cotidianos eu sempre diviso o mesmo erro que eu apontei antes ^ ^


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