Publicado por: yumejin | domingo, 8 fevereiro 2009

“Vaca de Nariz Sutil”

Um trecho de Vaca de Nariz Sutil, de 1961, romance do escritor Walter Campos de Carvalho, mais conhecido por outra obra, “O Púcaro Búlgaro”, de 1964, lido aqui:

PAGO A PENSÃO COM A PENSÃO QUE O ESTADO ME PAGA PELO MEU ESTADO.

Não chega a ser bem um poema, mas a vida não é nenhum poema. Se eu dissesse isto ao presidente da República ele me acharia supinamente ridículo, e os seus áulicos com ele; e no entanto é a pura verdade. Mandei a frase a um jornal, subdividida em estrofes, e nem sequer me deram qualquer resposta: assim se escreve a história de um herói da última guerra, ou de qualquer guerra, ou de qualquer herói.

TUDO TÃO CARO! — geme a dona da pensão, do fundo das suas banhas. TUDO TÃO GRATUITO, penso comigo — mas pago-lhe assim mesmo. AfInal vivo a espiar pelos buracos das fechaduras, e isso vale bem o aumento do aluguel. Se eu tivesse perdido uma perna ou o pênis, a pátria me pagaria muito mais — foi o que me tentaram explicar diante de um mapa cheio de ossos e cartilagens: pensarei nisso da próxima vez. Com o pênis e este par de pernas faço minha via-sacra ao longo do corredor escuro: o assoalho já nem range sob os meus pés, aqui um vaso de plantas, ali a escarradeira, nem um tigre teria essa precisão de movimentos; — se me surpreendem, para, algo vale ser sonâmbulo ou esquizofrênico, as garras bem visíveis. E um terceiro hemisfério, a quarta dimensão, o que se oculta atrás de cada porta à meia-noite, e não seria um veterano com a minha experiência que se furtaria a mais essa incursão de reconhecimento, o inimigo masturbando-se e copulando a um palmo do meu nariz. Parece um hospital como o em que estive, com os seus sussurros e os seus gemidos, esses afagos esses ofegos, a cama ringindo, a surda orquestração dos linhos e das carnes, o gluglu das mucosas em delíquio: até me perco em lirismos! Tudo são buracos, dizia um velho professor de vernáculo, hoje num deles, — e eu sigo-lhe a lição à risca, muito melhor do que ir ao cinema ou ao teatro, aqui não há camuflagens, as coisas simplesmente acontecem. Quem tem olhos veja, quem tem ouvidos ouça, não me interessa a lei dos homens mas a lei humana, quem for justo atire-me a primeira pedra: hoje estou terrivelmente bíblico!

Em repouso sou um celibatário, o eterno virgem; agora, não somente eu violentaria toda essa gente como à minha própria família se preciso. Aceito-me tal como sou, seria o último dos imbecis se não me aceitasse: foi-se o tempo em que, a tábua de logaritmos debaixo do braço, tentava conciliar todas as minhas contradições, norte sul leste oeste, como se faz diante de um planisfério. Meu habitat nada tem a ver com este universo em que respiro, seria o mesmo que confundir a luz e a sua lâmpada, o morto e o que foi e continua sendo a sua consciência: por trás destes óculos existem o troglodita e o seu tataraneto, e o tataraneto do seu tataraneto, e ainda o meu bisneto e o seu bisneto, até o homem das cavernas do século XXX.

Na Frente entregávamo-nos a todos os excessos, os previstos e os imprevistos, o uranismo comia à solta — nem o general logrou escapar, nem fez por onde. Aquele silêncio acordava os apetites mais estranhos, era-se antropófago, onanista, hermafrodita, pederasta passivo ativo ou neutro, por nossas veias corria o esperma em vez do sangue: ceifavam-se muito mais vidas sob nossos testículos do que nas fileiras inimigas, havia um cabo Salvino que, esse, não tirava a mão do sexo. De uma feita surgiu um poema a um tenente muito loiro, era às vésperas de um combate que se tornaria histórico, o que contava era o momento presente, ninguém tinha família nem pênis definido; o general se emocionou e consentiu numa bacanal em grande estilo: era o que se poderia chamar uma ciranda copulativa, todos de mãos dadas — de mãos propriamente não. O tenente foi um dos que morreram, como verdadeiro herói naturalmente; lutou como um bravo até o último instante, o esperma dentro das tripas.

Na volta não nos quiseram aceitar como pederastas passivos nem ativos: acabou-se a brincadeira, a coisa agora é pra valer. Quem tinha mulher muito bem, quem não tinha que se arrumasse: o Código Penal não distinguia entre vanguarda e retaguarda, nessa questão de sexo sempre fora intransigente — pão pão, queijo queijo. Restava evidentemente o prazer solitário, contra esse não havia nenhuma sanção positiva, era como que tocar um instrumento de ouvido sua alma sua palma. Minha palma, minha palma: Helena em decúbito dorsal ou em decúbito ventral, não era a mesma coisa; Aristides com as suas nádegas, era perigoso, nunca se sabe ao certo o que um mudo pensa, nem qual o seu sexo; eu vagava entre as prostitutas e me sentia um estranho — e aquele vazio por dentro pesando como um canhão.

Foi quando decidi copular por via indireta, através das fechaduras: nem a imaginação nem a falta de imaginação, os outros fazendo força e eu simplesmente no meu posto de sentinela, o eterno triângulo numa versão de pós-guerra. Às vezes, o marido ausente, eu fazia as vezes dele, tal como o cachorro da inglesa fiel, ela e não o cão, que se esgueirava pelo corredor à hora propícia e lá se ia a cumprir sua metempsicose, para grande espanto meu que nunca fui de acreditar nessas coisas. Copulei com o arquivista e no arquivista, a mulher não cooperava e aquilo criava uma situação insustentável, dois contra um, dois contra nenhum: melhor dois em um. Já o casal de bailarinos se entendia às maravilhas, os três aliás, se não estávamos em lua-de-mel era como se cada um estivesse, tive que providenciar um furo extra no alto da porta para não prejudicar o pas-de-trois: quando se mudaram eu estava que era pele sobre osso: hipocondria peristáltica, diagnosticou o médico. A filha-noiva da dona da pensão masturbava-se com todos os dedos, de dia tocava umas valsas dolentes ao piano, uma tarde me ofereci para tocarmos a quatro mãos, molhei-me as calças: o noivo presente. E havia o caso do rapazinho de seus 13 anos, a escova de dentes enfiada até o cabo, a banheira cheia de água quente, as pernas para cima: até hoje choro tê-lo deixado escapar: um efebo ainda é das poucas coisas capazes de despertar até um frade de pedra, se não a única.

À mesa são todos uns príncipes, a começar por mim, o guardanapo sobre os joelhos, os gestos muito bem ensaiados, bom dia boa tarde, como vai do lumbago, a senhorita por favor quer passar-me o saleiro, o filme que está no Ritz tem uma passagem que francamente. Já copulei com todas, e não foi uma nem duas vezes, e com alguns dos senhores também, desculpem-me a ousadia: a senhora e o seu marido já faz uma semana que não me dão uma chance, talvez nos pudéssemos entender os três — conhecem-se casos. Nem numa casa mal-assombrada se ouvem gritos da espécie dos que os senhores procuram sufocar dentro da noite, e a senhorita também com esses dedos tão ágeis, não adianta baixar as pálpebras desse jeito, para todos os efeitos somos pianistas. Às vezes surge o padre depois da missa, quando é que sai esse casório menina, é o que também me pergunto, esse safado do padre talvez saiba de coisas que nem eu sei, distribui a sua bênção e sai lampeiro.

Fico pensando comigo o porquê de certas coisas e não atino com verdade nenhuma que preste. Sei que há verdades de todos os tipos, para todos os gostos, é estender a mão e colher, como num bazar onde toda mercadoria fosse gratuita ou onde b dono fizesse vista grossa para o nosso pequeno furto. Teimo em examinar, porém, a mercadoria pelo direito e pelo avesso, o fato mesmo de ser gratuita me deixa suspeitoso e por fim cético, gratuito basta-me eu; e a boa vontade do dono acaba por cimentar minha perplexidade, ninguém dá a outrem uma verdade como quem dá uma maçã por exemplo, ou o próprio rabo — isto eu sei por experiência.

Às vezes penso que Aristides nem é mudo nada, e apenas leva o seu ceticismo até as últimas conseqüências, sabendo como eu sei que nenhum dos dois sabe coisa alguma. Um mudo não assobia, muito menos um surdo, e o seu assobio tem isso de estranho que é sempre a mesma música, como se o mundo não merecesse coisa melhor e nem lhe pagassem para inventar novos sons. Ele é, sendo assim, o que eu mesmo me proponho quando a hipocondria peristáltica, para usar a verdade do médico, me torna tão vazio que eu entro no primeiro bar e me empanturro de sanduíche ou do que encontre pela frente, com medo de desintegrar-me no ar. Sei que, em vez de sanduíche, o certo seria comer estricnina ou algo ainda mais violento, como se faz com os cancerosos, ou se não fazem não é por culpa minha; mas a verdade (mais outra!) é que, vazio ou não, ainda não me sinto pronto para morrer de uma vez, e a curiosidade de olhar pelo buraco das fechaduras prova isso muito melhor do que eu. Não me consta que o morto olhe pela fechadura do caixão, e nem existe mesmo uma razão para que o coloquem atrás de uma fechadura: isto me dá uma sensação estranha de estar vivo, muito mais do que o simples fato de respirar ou de peidar, coisa que até um cavalo faz. Da guerra estou livre, embora digam exatamente o contrário, e tenho assim muito mais probabilidade de sobrevivência do que, digamos, um professor de ginástica ou seus alunos, o tipo de massa com que se fabricam os grandes heróis, embora defuntos.

Enquanto o Estado me pagar para que eu olhe por todos os buracos de fechadura do mundo, estou disposto a aceitar a incumbência — e nem sei de coisa melhor neste ou em qualquer outro planeta. O que faz Aristides quando não está assobiando, eu não sei, mas duvido que seja algo tão proveitoso ou pelo menos tão cômodo — a menos naturalmente que ele seja um artista de uma importância excepcional, que em falta da verdade busque ou já tenha encontrado uma fórmula que permita ao homem bastar-se a si mesmo sem a ajuda de ninguém e de nenhum Deus. Como um surdo-mudo por exemplo, mas de verdade, e longe de quaisquer verdades.

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