Publicado por: yumejin | sexta-feira, 20 fevereiro 2009

Vidas Breves, Coisas Frágeis

“Brief Lives” é o nome da sétima coletânea de histórias de Sandman, de Neil Gaiman. Muito embora as probabilidades me digam que você sabe do que estou falando, Sandman é um romance gráfico [graphic novel] aclamado e reconhecido como uma das melhores histórias escritas nas últimas duas décadas. Tem a distinção de ser a única história em quadrinhos [edição 19, “Sonho de uma Noite de Verão”] a receber o World Fantasy Award em 1991 e uma das poucas a figurar na lista de bestsellers do New York Times, junto com Watchmen [Alan Moore – V de Vingança, Promethea, A Liga Extraordinária, Constantine] e The Dark Knight Returns [Batman].

“Fragile Things” também é de Neil Gaiman e é uma antologia de contos. O título original seria “Essas Pessoas Deveriam Saber quem Nós Somos e Dizer que Estivemos Aqui”, tirado de uma fala de Little Nemo.

Intimamente, ambos os títulos e todas as histórias escritas por Gaiman e, talvez, por qualquer um se relacionam à mesma coisa: a vida e as mudanças.

O título “Brief Lives” vem, na verdade, de um livro escrito por John Aubrey no século XVII com biografias não exatamene elogiosas sobre vários figurões da época. Em um determinado instante da coletânea de Sandman, Morte diz para um personagem “você viveu tanto quanto qualquer outra pessoa – uma vida inteira”. Em outro, Delírio pergunta a Sonho qual é o nome daquela coisa que faz com que as pessoas percebam que a vida está passando e que nada é como antes, ao que ele responde “mudança”.

Todos nós temos a sensação que o tempo é pouco para tudo o que queremos fazer, ainda que seja ficar deitado sem fazer nada. Todos os nossos conhecimentos, nossos esforços, nossos conflitos internos e externos, tudo converge na mesma direção – morte. Saramago, em “As Intermitências da Morte”, comenta sobre como a vida humana lembra uma certa composição clássica de 58 segundos que termina abruptamente.

Todas as coisas relacionadas à humanidade são frágeis – não digo apenas a vida, mas os sentimentos, os laços de afeto, os momentos, as lembranças, os sonhos. Isso, no entanto, é algo que passou a me dar plena certeza da existência de Deus.

É complicado explicar, mas se você parar por um momento, vai perceber como a Criação é um negócio bem feito. Mais ainda, como fazer coisas simples dão um prazer igualmente simples. Chega a ser ridículo, mas respirar é uma coisa gostosa de se fazer. Comer, beber água, dormir. Ficar no sol, ficar na chuva. Fazer carícias em gatitos.

Tão difícil quanto explicar é fazer não parecer piegas. Como eu falei, são prazeres simples. Existem outros mais elevados e outros mais complexos. Dizem que a vida é feita desses pequenos momentos. Eu acho que não, acho que é feita de todos os momentos mesmo. Você só precisa ter consciência disso. Mas, claro, é muito mais fácil falar do que dizer. É o tipo de coisa que a gente lê numa mensagem encaminhada de powerpoint e acha legal, mas dali sete minutos esquece de colocar em prática.

Enfim, são títulos que eu gosto bastante. “Brief Lives” talvez seja com “Season of Mists” e “Worlds’ End” as minhas coletâneas prediletas de Sandman. De “Fragile Things” eu li pouco e nada exatamente empolgante, mas achei o título muito acertado. Veio ao Neil Gaiman em um sonho, aliás. Vidas breves de coisas frágeis. Parece uma forma bonita de se colocar o mundo mesmo.

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Responses

  1. Eu ainda não li o “Coisas Frágeis”, falta esse e o Stardust pra ter lido tudo do Gaiman enquanto Livro. Sandman eu preferiria ler em meio físico mas não dá =/…. e digitalmente eu tennho que procurar, baixar… não vale a pena se pensar que na tela do pc é muito menos divertido que em papel. Mas pelo menos o “Prelúdios e Noturnos” eu acho que consigo ler completo em revista \o

    Sobre o texto:

    “Eu acho que não, acho que é feita de todos os momentos mesmo. Você só precisa ter consciência disso”

    Perfeito! Eu não diria melhor. Meço meu tempo como o “aion” grego – uma infinitude encerrada em sua própria duração – sem antes nem depois, apenas um eterno “durante”. Meço meu tempo não em anos, mas em dias, na forma mais perfeita que o lugar-comum “Carpe Diem” pode assumir. Assim tenho todo o tempo do mundo!

    Não é atoa que muitas vezes nos dizem que nossa impressão de tempo é ilusória. Eu concordo.

    E “Fazer carícias em gatitos” ficou GAY, mas eu curto tb =P

  2. rsrs


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