Publicado por: - TCZ - | terça-feira, 17 março 2009

“e lá morre o viado…”

“Ah lá, e lá morre o viado.

Com certeza deve tá dando muito, porque o que não deve ter dado em vida… imagina como vai ser o enterro? Aquela bicharada toda vixe! Rá, certamente vai fazer compania a Vera Verão! Vamos sentir falta sim das merdas que ele falava…”

Como as pessoas podem ser medíocres, eu sempre me espanto.

Clodovil Hernandez era mais que o simples “CLô” do Pânico na TV (que aliás, como o mesmo dizia em vida “quem os assiste?”), além do personagem caricato que habitava o imaginário popular brasieiro, de modos afetados, língua ferina e cheio de si mesmo, existia um homem que, talvez, tenha sido senão o maior com certeza um dos maiores vultos do que podemos chamar intelectualidade e inteligência do nosso século.

Clodovil, que foi um grande estilista, um dos responsáveis (junto com Dener) por incluir o Brasil, tão bárbaro, neste mundo de firulas e graça, também que defendeu os direitos dos homossexuais nunca escondendo sua condição de ninguém, mesmo numa época em que isso poderia levá-lo à cadeia, exílio, ou ao “sumiço forçado”. Corajoso como poucos “homens de verdade” e inteligente, perspicaz como poucos “Intelectuais de respeito” sempre foi sua característica dizer tudo aquilo que todos sabiam, tudo o que acontecia e ninguém tinha a decência, a coragem de admitir, de dizer em público na frente de uma multidão de telespectadores. Tudo podia ser dito diante da “lente da verdade”: dizia de “eu sinto prazer sexual com homens, mas me apaixonar apenas pela alma feminina” a “eu sou a melhor coisa que há na televisão”. Muitas vezes a sua arrogância passava apenas como isso, arrogância. Se esqueciam os que assim pensavam que Clodovil na verdade quando se elegia o “melhor que há na TV” na verdade nos alertava para a podridão dos meios de massa e ele, justamente por sempre estar envolvido neste meio (seja pela citada moda, ou mesmo pelo teatro no qual brevemente se aventurou) E acabava assim por ser realmente o que existia de melhor disponível a sua época para os espectadores justamente por esse senso crítico, essa sinceridade descabida que permitia que ele nos dissesse, sem nenhum tipo de pudor ou falsa modéstia que tanto falsificam as relações entre as pessoas, que se considerava sim mais bonito, inteligente, eficiente que os demais. E acaba que no fim era mesmo. Dentre aqueles que apareciam na telinha, Clodovil era sem dúvida o que expressava o mehor conteúdo: nunca deixava que um programa seu se encerrasse sem uma palavra de sabedoria, uma reflexão espiritual (pois sua sensibilidade apurada o dotava de uma espiritualidade acima da média), um agradecimento a quem merecia e uma critica mordaz a quem fazia por merecer. Era odiado por muitos mas certamente também querido por muitos: com o seu personagem instigador sempre realizava os desejos secretos das pessoas que o assistiam, que desejavam que alguém dissesse alg sobre os absurdos que ninguém fala, os secretos por mais que estejam a vista de todos.

E mesmo após inumeros problemas pessoais, de saúde inclusive, nunca perdeu o seu modo de ser, nunca pendurou as chuiteiras. Sempre continuou pensando de maneira extremamente racional e independente, porém desta vez, após tantos infortúnios decidiu trabalhar para o outro de forma mais maçiça, além da filantropia que conduzia em off, longe das câmeras. Clodovil decidiu entrar para a vida pública, para devolver ao público em forma de bemfeitoria todo o prestígio que havia alcançado. Chegou fazendo barulho em Brasilia, reformando o próprio gabinete para que acompanhasse seu bom gosto particular, porém sem tocar em um dinheiro do contribuinte, bancou a reforma do próprio bolso pois, em suas palavras “a morada de Deus é onde habita a luz, e lu é beleza”. Dinheiro para ele, como afirmou em inúmeras entrevistas, sempre foi um bem estritamente material.

Em, seu curto mandato foi motivo de discussão nacional novamente por suas extravagâncias (e obviamente comentários ácidos) mas como sempre, seu trabalho permanesceu oculto: em dois anos de mandato, tinha enviado nada menos que mais de vinte projetos de lei à câmara, mais do que muitos parlamentares com décadas de casa. Clodovil, não se importava com dinheiro, não desejava prestígio e fama – ele já os tinha. O que o movia era um desejo sincero de auxiliar o próximo e esfregar na cara de um sistema político sujo e decadente que mesmo ele, um viado escroto público, era mais Homem Público que qualquer um que o acusava, chegando mesmo a mudar de partido simplesmente por não concordar com as faltas cometidas pelo mesmo, ao invés de simplesmente se acomodar e ser uma arma de poder para a sigla “Se Partido nasce assim, partido, não deve ser uma coisa boa”

Porém, como sempre dizia a todos em seus programas, sua hora chegou como chega para todos, como chegou para a sua amada mãe adotiva, que foi mais mãe natural que muitas mães de “Filhos saudáveis”, que amou o filho adotivo apesar de todos os problemas, de todas as doenças físicas (CLodovil passou por uma infância difícil, tendo estado gravemente doente por boa parte dela) apesar de todo o estigma social de ter um filho homossexual durante a ditadura militar, sempre o apoiando. Essa mulher, que escolheu essa sina e a carregou com graça foi sem dúvida a melhor e maior inspiração que Clodovil teve, que qualquer homem de bem poderia e deveria ter. Talvez por isso Clodovil foi o que foi, por estar não à sombra de um grande homem, mas de uma frágil e amorosa mulher, que salvou e transformou sua vida.

Que possa agora ele se reencontrar com ela, que possam agora prosseguir juntos em sua jornada do outro lado, e que ele possa, olhando para trás, contemplar um trabalho bem feito, mesmo apesar de ter deixado um número gigantesco de mediocridade. Porém, Clodovil sempre lidou muito bem com isso e mesmo assim, mesmo reconhecendo e recusando diaria e publicamente essa mediocridade podre que nos cerca, sempre tentou, a seu modo claro, trazer um pouco mais de luz e bem a todos estes. Ele teve compaixão pelo próximo mesmo intimamente não se reconhecendo tão próximo assim, seja em sua sexualidade, seja em seu senso estético, seja em seu intelecto, seja em sua beleza.

No fim é essa a lição que Clodovil Hernandez nos deixa agora, no momento de sua morte:

“Para quem fez o possível, Deus com certeza fará o mesmo”

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Responses

  1. F# E F# A E
    e lá morre o viado…
    F# E F# A E
    morreu o viado…
    F# E F# A E
    morreu o viado…

    vide breed do nirvana.

  2. Texto legal, e não é só a mediocridade das pessoas, o que mais me espantou foi a noticia sendo dada pelo meia Hora: ”Virou Purpurina”
    Caramba , acho que um veiculo de comunicação deveria ter mais tato ao dar uma noticia, já acho absurdo a linguagem que usam nas manchetes de morte ( todo dia tem algum traficante morto na capa do jornal), mas a falta de tato deles repleta de humor sádico me impressionou.
    Pessoas medíocres existem aos montes, jornais ruins também, mas a combinação de jornal ruim como mediocridade chegou a um nível escroto.
    Infelizmente a imprensa carioca fica mais longe do aceitável a cada dia, é um espaço que está tão poluído e medíocre como a tv e o senado.Poluição contra qual Clodovil sempre lutou, seja de modo simples ou com arrogância
    Só isso, fui

  3. Eis aí um homem que foi estranho. Porém, uma coisa deve-se dizer: ele era quem era. Não tinha duas caras, não falava uma coisa e agia de outra forma. Era aquilo que todos víamos – uma pessoa extravagante, segura de si, com senso de superioridade elevado e sem meias palavras.

    Bom artigo, -TCZ-.


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