Publicado por: yumejin | quarta-feira, 1 abril 2009

Virtude de quem?

Pesquisando a Wikipedia e o Wikinews atrás de tópicos para montar uma postagem, fiquei cerca de meia hora abrindo páginas aqui e acolá, passando por dependências ultramarinas francesas e países que existiram e deixaram de existir diversas vezes durante a história mundial para terminar sem assunto algum.

É algo que não me ocorre com frequência, ficar sem ter o que falar, e eis que descubro que é um saco. Sem qualquer idéia, abri o painel de controle do WordPress e fiquei olhando as estatísticas do blog, que aliás estão quase tão saudáveis quanto a época em que nossos seis membros participavam ativamente dele.

Apertei a opção de nova postagem e, por mágica, um assunto apareceu: que virtude é esta a de realizar as coisas sem ter vontade, mais por obrigação do que por qualquer outro motivo? Quem diabos disse que isso é algo bom e por quê haveria de ser?

Pense um pouco comigo: você está entretido com alguma atividade, útil ou não, e, de repente, apresentam pra você o dever de fazer alguma outra coisa, coisa esta que talvez você fizesse de qualquer forma em outro momento, mas não naquele. Escapar não é possível porque, em geral, quando lhe apresentam algo dessa forma, não é com um pedido de “por favor” delicado, garanto, nem com um olhar de quem faz súplica, mas de quem pensa “Filho de uma égua manca!”.

Com certeza, você vai ficar puto da vida irritado [que eu uso palavras educadas] e xingar mentalmente a pessoa que lhe mandou fazer essa coisa ou a situação, caso essa pessoa seja a sua mãe, a sua namorada ou uma freira. Pior ainda, vai fazer muito mal-feito o que lhe mandaram fazer pra se livrar logo da tarefa, resmungando de si pra si quão idiota é perder seu tempo com aquilo.

Então, não é virtude trocar seu tempo por uma obrigação, certo? Sim e não. A situação que eu enunciei é apenas uma possível e, ainda mais, somente uma perspectiva dela, finita e singular, dado que por um ponto passam infinitas retas e, assim, infinitos pontos de vista existem para um evento.

Obedecer ordens é uma virtude quando a pessoa que lhe dá a ordem é capaz. Se sua mãe lhe diz para ajudar a cortar a grama do jardim, pagar as contas ou arrumar o quarto, deve haver um bom motivo para isso. Embora ninguém goste de ser perturbado quando está em uma parte complicada de um jogo ou no meio de uma leitura boa ou ainda só deitado sem fazer nada, vale a pena gastar um pouco de tempo considerando se a ordem faz sentido ou não.

Mais do que fazer sentido, é vital saber se ela é de utilidade real para alguém. Por exemplo, digamos que você tenha passado o dia inteiro trabalhando no computador para resolver um erro em um programa importante para algum aplicativo que será utilizado por um grupo de amigos. No instante em que você resolve se distrair um pouco, após a árdua tarefa, o filho da zé mané do seu amigo lembra que você prometeu ajudá-lo pelas próximas 5 horas a carregar os móveis dele de um lado da cidade para o outro.

Você tem direito a um justo descanso? Tem, claro. Mas seu amigo precisa dessa ajuda e não vai ferí-lo de morte cedê-la. Vai ser cansativo e você queria muito descansar? Verdade, mas cumprir uma obrigação, neste caso, vai resultar em algo bom. A virtude em cumprir algo obrigado, sem ter vontade, é em sacrificar seu tempo livre para fazer algo que será de proveito pra alguém, ainda que não seja sua função originalmente.

E se a ordem não fizer sentido? E se os motivos forem escusos e ninguém tirar nada de bom disso? Aí vai da tua vontade – é melhor brigar ou anuir? Será mais custoso discutir ou aceitar? Eu costumo enfrentar somente nos casos em que cumprir a ordem terá resultados muito piores do que não cumprí-la. Geralmente, a briga toma tempo e esforço desnecessários por pouca coisa. “Muito barulho por nada”, sabe?

Essas considerações só valem pro caso do único afetado ser você. Se as ordens incluírem outras pessoas – como, por exemplo, a ordem de um superior militar para assassinar dois reféns ou para entrar matando em um prédio com rebeldes – toda a decisão passa a girar em torna da moral. Ao cumprir uma demanda superior, você pode ser responsabilizado pelos seus atos?

Eu acredito que sim. É melhor sofrer as sanções do que realizar algo que vá contra a sua natureza. E mesmo que não vá, é mandatório que você tenha consciência do que está fazendo e aceite as consequências. Aliás, falando no exemplo que utilizei acima, dizem que “obedecer por obedecer só os militares fazem”.

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Responses

  1. O problema é que ordens só são ordens mesmo quando são acatadas, e isso acarreta no senso do Dever. O Dever é que condiciona o mérito de cumprir ou não as ordens recebidas, pois o Senso de Dever pode inclusive fazer com que se cumpra ordens contra a sua natureza (ou sejá lá o que seja). Quando nos submetemos ao Senso de Dever, abdicamos da individualidade e oferecemos nosso poder pessoal ao detentor de nossa obrigação, assim um soldado mesmo não concordando DEVE cumprir ordens mesmo indo contra “a sua natureza”, pois anteriormente, quando ACEITOU ser um soldado, aceitou justamente isso, de acatar ordens legítimas. Só haveria uma justificativa em subversão caso as ordens sejam incompatíveis com a missão da organização a quem o soldado (ou subordinado em geral) estiver filiado, ai sim ele pode contestar visto que quem expede as ordens TAMBÉM concordou de antemão em manter os ideais da instituição que lhe dá poder.

    Porém caso o subordinado fique sujeito a um comandante absoluto, que não siga nenhum conjunto de regras maior que si mesmo E que TAMBÉM seja adotado pelo subordinado ele está em sérios apuros, sendo a legitimidade das ordens sujeita apenas a volição do seu mestre.

    Trocando em miudos, ele se fodeu bonito.

  2. Sabe quando você tem tanto para falar sobre um assunto que acha melhor não falar nada?
    Meu caso agora. Mas aos poucos os textos vão saindo e a gente vai discutindo.

    Anyway, bom texto. Levantou um problema muito denso, e não sem um toque pessoal.


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