Publicado por: Melquíades | segunda-feira, 6 abril 2009

Horizonte

Sempre comentei sobre o espetáculo que é assistir com algum vagar a um pôr-do-sol num dia de céu limpo em Mato Grosso. Hoje, 22.03.2008, num ônibus em plena estrada, tenho a felicidade de estar repetindo essa experiência. Aliás, não; “repetir” não é um verbo que se adéqüe ao que quero expressar.

Manchas retalhadas em azul pastel, um tom violáceo, ocre e um laranja turvo se amontoam e justapõem com seus contornos fugidios, num dégradé indefinível, sem geometria, encimando uma faixa delgada em escarlate – cuja vivacidade o sol, com seu brilho agonizante, simultaneamente fornece, relutante, e tenta ofuscar, invejoso – mais encarnada quanto mais próxima de tocar o horizonte formado pela linha negra da silhueta dos paredões de Chapada dos Guimarães.
Este é um cenário que aprecio hoje, e que somente hoje se pode apreciar; nada está mais distante de ser uma repetição do que esse modo exuberante e profuso em conflito como o pôr-do-sol mato-grossense se revela desta vez.
Quero registrar que vou fazer uma pausa para apreciar esta pintura em movimento. Já retomo.

***

Tudo começa quando a gente se dá conta de que as coisas, todas elas, falam. Se você não percebeu isso até hoje, essa é uma boa hora; pois, quer você queira, quer não, elas estiveram, estão e sempre estarão falando. Aliás, é algo ainda mais forte do que isso: nada é, para mim ou para você, o que É. Cada coisa é o que DIZ; nem mais, nem menos.
É só você dar uma olhada em volta. O que você percebe? Cores, cheiros, sons, sentimentos, idéias… isso e aquilo. De antemão, você já captou a mensagem; seu trabalho é só, se quiser, dar nome aos bois, porque as coisas já te disseram seus significados. É MEGA estranho: quando você percebe, já é. Não há um lapso de consciência anterior à inteligibilidade integral do mundo em que se está inserido, pois é essa inteligibilidade que estabelece TUDO; a própria consciência, inclusive.
Ok até aí. Começa a ficar severa a situação quando a gente se pega sentindo uma coceirinha incontrolável para descobrir a cara do objeto desse discurso que é o mundo que vivemos. A cara das coisas ELAS MESMAS, por detrás do discurso, entende? O objeto, aquilo de que o discurso fala, sua referência REAL, ABSOLUTA. Damo-nos conta de que o discurso é REPRESENTAÇÃO, e que pode afigurar qualquer coisa; e, por alguma razão, sabemos que as coisas são do jeito que são e de nenhum outro, e queremos desvendá-las. O discurso encobre o Ser…
Nos breves minutos da pausa, operou-se uma enorme transformação por aqui. Nuvens espessas cinza-chumbo cobriram a nudez provocante daquele pôr-do-sol, transformando o cenário numa chuva grossa e solene, que parece tentar lavar com seu pudor frio qualquer efeito, qualquer memória do festival de cores que já foi. O horizonte dos paredões de Chapada se tornou difuso por detrás da atmosfera carregada, e isso me incomoda, por alguma razão.
Enquanto a água escorre grosseiramente pelo vidro da minha janela, as duas mochileiras sentadas atrás de mim desde que parti da rodoviária do Rio, que julgo, pelo sotaque do inglês, serem australianas, conversam entusiasmada e despudoradamente sobre sexo, provavelmente imaginando que ninguém as entende nessas orilhas do mundo. Pergunto-me se devo dar a elas algum sinal de que isso não é verdade…
Bem, deixa pra lá; o fato é que já há algum tempo, percebi que sou muito melhor em falar sobre a verdade do que em falar a verdade. Eu me lembro muito vivamente de que, quando eu era criança, eu acreditava que a gente vivia DENTRO da Terra. A abóbada celeste é azul durante a maior parte do tempo, e dá a enorme impressão, para quem olha daqui, de ser a face interna de uma esfera que nos envolve. Mas dessa esfera a gente só vê metade; e o chão não é redondo, é plano; isto é, não poderíamos estar amontoados do lado de dentro do pólo sul. Para mim, estávamos é em cima de um disco que divide a esfera em duas semi-esferas. Isso era bem claro e fazia todo sentido. Por isso o globo era azul com manchas: o céu e as nuvens. E era claro que quando eu virasse astronauta eu ia furar o céu pra ver o que tinha do outro lado…
Até que um dia meu pai me explicou que estamos na superfície, e tudo mudou. Foi foda. Fiquei completamente boquiaberto quando entendi que era por isso que os barquinhos desapareciam no horizonte: porque o chão, afinal de contas, ERA redondo mesmo; só que estávamos do lado de fora! Quem imaginaria? E demorou um pouco até eu entender como era possível que a gente não caísse, já que tudo o que cai, cai para baixo… Mas as coisas acabaram por se ajustar, e o eu-chegando-à-puberdade me peguei rindo da própria idéia de criancinha. Era tosca, descartável, cheia de inconsistências; definitivamente não estava de acordo com o jeito que as coisas eram. Era como uma piada.
Uma observação: tem uma mãe, com certeza marinheira de primeira viagem, viajando sozinha com o bebê dela três poltronas à minha frente, e a criança começou a chorar há uns 15 minutos. Eles subiram no ônibus em Presidente Prudente, SP, se bem me lembro, e a criança vinha bem quietinha desde então. Eu achei chocante a diferença de idade entre mim e ela ser tão pouca (ou nenhuma, vá saber), e isso se deflagra crescentemente à medida que o bebê intensifica a sua sinfonia e a mãe fica mais e mais visivelmente insegura e vulnerável. Não fosse por um par de velhas chatas, intrometidas e inconvenientes que estão nas poltronas ao lado dela cuspindo instruções idiotas asperamente sobre como ela deve proceder, nos mínimos detalhes, como se fossem oráculos e ela, uma imbecil – “Vira a cabeça dele pra lá, menina, não ta vendo que ele tá reclamando dessa luz? Porque não põe logo o algodão na testa pra parar esse soluço? Os gases não vão passar se você não virar ele de bruços!” – , eu acho que eu iria até oferecer ajuda. Mas ela está ocupada demais se deixando humilhar.
Enfim, eu ia falando: foi uma mudança de perspectiva radical para minha cabeça, esse negócio de descobrir que vivemos na superfície. E entenda esse “superfície” também no sentido figurado: essa experiência serviu também para me mostrar que estamos para o conhecimento assim como este ônibus está para o horizonte nebuloso à frente – sempre caminhando em sua direção. Eu disse SEMPRE.
Quando passamos a entender o mundo-discurso que vivemos como representação, realizamos nele forçosamente uma cisão; tudo nele passa a se adequar a uma e somente uma das seguintes categorias: verdadeiro ou falso. Isso porque ser representação quer dizer que o discurso é sobre algo; ele versa sobre outra coisa que não ele mesmo, e é essa coisa que lhe confere sentido, na medida em que ele a representa. E todo discurso, graças àquela indomável coceirinha para ver a cara das coisas que mencionei, é entendido como pretensa representação do Ser; daí vem que todo discurso que diz o Ser é verdadeiro, e o que diz o não-ser, falso. É simples assim: se digo que este texto está escrito em iídiche, isso é falso. O mesmo aconteceria se você estivesse sob o efeito de LSD e visse seu rosto em forma de estrela no espelho; pois esse discurso representou algo que não é. Mas veja: você só chega a reconhecer que ele representou algo que não é pelo fato de ele representar ALGO, e algo que VOCÊ SABE que não é. São discursos de natureza diferente de “Elefantes clinicamente autorização.” ou de “Odsbríndalum.”, que, sob o ponto de vista que me interessa agora, não representam nada e simplesmente não fazem sentido. O discurso falso FAZ sentido; e seu sentido é conferido justamente por ele representar ALGO. Quem é minimamente dado a sutilezas me entende quando digo que ser algo é ser, só que sem o compromisso de SER. O sentido do discurso falso é garantido por ele representar uma espécie de Ser, sim senhor.
E vejam, apressados: essa espécie de ser de que falo NÃO É ser em potencial. Pois tanto eu quanto você entendemos que a frase “O círculo é quadrado.” é falsa mesmo que o algo que ela represente não tenha nenhuma possibilidade de se instaurar com o que chamei de compromisso de Ser. O discurso se torna falso simplesmente por afirmar como parte do Ser um troço que não é de fato – não interessa se pode ser ou não, mas interessa que seja uma pretensa configuração do Ser. Numa frase: o falso escapa ao Ser, escapa ao poder-Ser, mas não escapa à inteligibilidade.
Isso o torna uma anomalia; um verdadeiro monstro para nós, paladinos da verdade em busca do graal do conhecimento. Sim, pois como provar a veracidade de um discurso? E se houver “não um verdadeiro D’us, que é a soberana fonte de verdade, mas certo gênio maligno, não menos astuto e enganador que poderoso, que empregou toda sua indústria em enganar-me”? Tudo faz sentido, mas… qual o sentido certo? *_* Oh, quão terrível e bela é a condição humana, que nos permite vislumbrar tudo à luz, mas jamais olhar diretamente para esta sem que cegue nossos olhos! *_* Muito bonito, profundo… né?!
Daí a gente se fantasia de juízes do discurso. Vestimos nossas togas, tomamos nossos martelos e sentenciamos todo discurso que acessamos à condição de verdadeiro ou falso. Alguns são mais metódicos, e só julgam por critérios muito bem definidos, como a certeza matemática ou a experimental; outros, mais temerários, confiam na intuição como guia. Há ainda os que, acuados pela própria condição de juízes em que se vêem, calam-se – entre todos os fantasiados, costumam ser os meus preferidos – e vivem na agonia da dúvida, ou numa paz estática e silenciosa. E muitas outras espécies menos notáveis. E todos estão unidos por uma característica em comum: JULGAM o discurso segundo as leis do SER. O conhecimento é o horizonte de seu pensamento.
A criança parou de chorar há alguns minutos. Ainda assim, as velhas ficam espreitando os movimentos da jovem mãe exausta do escuro de suas poltronas. A chuva já não passa de um leve borrifo, que só se deixa perceber por refletir o facho de luz dos faróis do ônibus. A noite vem a galope lá fora, e a minha luz de leitura é a única acesa em todo o ônibus. Algum infeliz deixou a porta do banheiro aberta, e um cheiro forte de desinfetante misturado com urina invadiu o ar… Sorte das australianas já estarem dormindo a sono solto. E sorte a minha ninguém ter resolvido cagar no ônibus, mesmo após quase 30 horas de viagem já decorridas.
Mas sabe, é um evento inusitado o sujeito começar a sentir um cheiro de podre rescindir desse melodrama do conhecimento. Para a maioria, isso nunca chega a acontecer, eu acho; é um cenário muito encantador, quase hipnótico. Mas o fato é que aconteceu para mim. Se você voltar lá no início do texto, vai reparar que eu disse uma coisa muito forte logo no primeiro parágrafo: que as coisas não são o que são, mas o que dizem. Eu assino embaixo disso. Quero que você perceba que toda essa história da coceirinha para ver a cara do Ser, do julgamento do discurso, da condenação à ignorância com sentido; todo esse dominó começa a cair quando perdemos isso de vista.
Quando estive no MoMA, há alguns meses atrás, tive a oportunidade de ver muitas pinturas de Claude Monet (se você não conhece ou só de ouvir falar, Google it. Vai ajudar.). Não sou fanboy, não, mas tenho que reconhecer que é um trabalho de mestre. Me chamou atenção em particular uma obra que ocupava três telas enormes e retangulares, uma ao lado da outra, sendo que a do meio era paralela à parede, e as das pontas se fechavam num ângulo leve em direção à do meio; de tal modo que, a uma certa distância, você se sentia meio que dentro da coisa. Nas telas, tons de azul, cinza, um branco róseo, lilás e pastéis, interrompidos aqui e ali por delicadas manchas verde-escuras, se misturavam numa harmonia muito bela, mas indefinível. O branco e o cinza eram mais presentes no centro, e os outros tons os entremeavam de leve e se combinavam em sobreposições e dégradés no entorno e até as bordas. Me afastei um pouco da obra, para ter uma outra perspectiva. Aquela sensação de estar dentro dela se foi; mas eu consegui entender o que aquilo era! O branco e o cinza sobre azuis, lilás e pastéis em dégradé eram nuvens sobre um céu… foi bonito quando me dei conta. Era um céu muito difuso… as cores pareciam estar meio que dançando. Não parei para pensar sobre as manchas verdes. Daí eu li o título da obra numa plaquinha que ficava ao lado: “Reflections of Clouds on the Water-Lily Pond”. Só de lembrar sinto o arrepio todo de novo… As manchas verdes eram plantas aquáticas. Não era um céu; era a superfície de um lago!
Dito assim, parece bobo, mas foi uma experiência EXTÁTICA. Uma jornada por sentidos e sensações num só quadro: primeiro, fui envolvido e arrebatado pelas puras cores, suas formas e sua interação independente da representação. Foi o momento em que comunguei com a obra. Depois, me afastei, e vi que ela também era linda representando; mas que, mesmo podendo representar, seu sentido não dependia disso. E, num terceiro momento, me surpreendi com a possibilidade de uma representação ainda mais rica que aquela obra-prima tinha a capacidade de exercer! Foi ARREBATADOR! A expansão perene dos limites do discurso socou a minha cara com toda força; vibrou numa explosão de cores, formas e sentidos diante dos meus olhos e dentro do meu pensamento.
Isso foi só uma ilustração. Sabe, eu não parei pra me perguntar se o “Reflections of Clouds on the Water-Lily Pond” era verdadeiro ou falso; mesmo enquanto representação! Ele era LINDO, PRIMOROSO, period – pois era isso que ele DIZIA. Não faria o menor sentido julgá-lo segundo o Ser! Não, não estou propondo que tudo deve ser encarado como um quadro de Monet – já disse que sou péssimo em dizer a verdade; estou falando sobre ela. Chamo a atenção para um só fato: nenhum discurso precisa de objeto. Repito: ser é dizer. É sentido, e só. Para discutir em termos dos juízes do discurso, os objetos são necessariamente inacessíveis. Em verdade, não passam de suposições vagas e temerárias, sem qualquer resquício de sustentação, e servem para justificar a primazia desse modo judicativo tortuoso de se colocar diante do discurso. Só o que temos, no frigir dos ovos, é o discurso nu e cru; uma dança louca de signos, pura sintaxe desprovida de valoração semântica intrínseca. Foi isso que Kant não teve COLHÃO para admitir. É isso que quero berrar para aquelas velhas escrotas ali na frente. É nisso que pensei quando preferi deixar as australianas continuarem falando putaria sem cuidados. Pensei no chegar perto do quadro e deixar-se afetar pelo que não representa, mas pelo que puramente diz. Em apreciar, ao invés de julgar.
Não vou fazer como o primeiro Wittgenstein, e dizer que esse texto é inteirinho um contra-senso, e que deve ser jogado fora uma vez que tenha cumprido seu papel. Não. Ele faz perfeito sentido, e deve ser apreciado como melhor lhe aprouver. Veja: os astronautas se livram do horizonte. Num foguete, deixam um paradigma para trás; rumam para cima, para fora, para lá. Eu fui uma criança muito esquisitinha, mas muito feliz.
Um breu total engoliu o ônibus; não é possível enxergar sequer a um metro de distância do lado de fora. Só se vê a parte do asfalto e as silhuetas que os faróis iluminam, e o resto é um negrume que chega a parecer sólido. Neste exato instante, não é possível dizer em direção a quê este ônibus ruma. É uma sensação muito boa, mergulhar nessa escuridão. Agora que a viagem está chegando ao fim, mesmo tão longa, eu sinto vontade de que ela não termine tão cedo.

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Responses

  1. Merda. Deveria ter lido este texto antes – colocar como sequência dele o Rap do Ovo foi uma pena. Mas a probabilidade disso acontecer era de 100%, então a diferença inexiste.

    Em relação ao estilo de texto: ele é um monolito, o que cansa um pouco quem não está acostumado ao ritmo [mas se você já leu livros de filósofos ou de mais de 300 anos, não representa empecilho]. Além disso, a sensação é que você está falando consigo mesmo o discurso que diria a outra pessoa se ela estivesse com você, em um plano inferior, e você sentisse a necessidade de revelar seus pensamentos.

    Quanto ao texto em si: não há motivos para chegar num ponto final deste pensamento – assim como caminhamos em direção ao horizonte, discutiremos, nós e nossos filhos e os macacos antes de nós, para sempre todos os conceitos importantes. O que é realidade? O que é o belo?

    Gostei bastante, Melq.


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