Publicado por: - TCZ - | sábado, 25 abril 2009

Um toque digital em nossas vidas

O comercial começava assim, falando das coisas como eram antigamente e como são hoje, mais rápidas e mais práticas, falava de como a tecnologia transformou nossas vidas em algo melhor, mais eficiente. Ou seja, era um clichê do caralho.


Ademais disso, de ser um cliche babaca isso de “como a tecnologia mudou pra melhor nossas vidas” porque isso todo mundo sabe, ou pior, vira uma falsa constatação pois pouca gente viveu DE FATO/se lembra de como era a vida ANTES desse tipo de coisa. Na verdade, as mudanças tecnológicas acontecem aos poucos, tão aos poucos que não se pode divisar esse tipo de mudança dessa forma tão definida como pregam por ai. Não é como se minha mãe na segunda não tinha nem televisão e na terça já tinha toda uma sociedade da informação prontnha ao seu dispor, nem é como se hoje nós usássemos manipulação genética pra ensinar o Totó a não fazer xixi na sala ou leitores biométricos para entrar em casa. As coisas não funcionam assim e todo mundo sabe disso, só escolhe ignorar pra dar mais destaque na hora da propaganda.

Então, a propaganda se fiava nisso mesmo, nessa falta utopia tecnológica em que vivemos, mas não é sobre isso que vim reclamar aqui (embora seja um tema bem bacana e quem sabe outro dia eu escrevo sobre isso também) mas sobre algo muito mais sutil e que perpassa por uma temática muito recorrente no meu pensamento e nas coisas que escrevo (e que sugriu depois de ter tido certas aulas na faculdade que me “estragaram” acredito que permanentemente): num determinado momento a propaganda alardeava que nos tempos antigos, sim aqueles mesmos tempos da idade da pedra que falsamente nos fazem creer que existiam como eu comentei ali em cima, as pessoas utilizavam molhos enormes de chaves para entrar em casa e que agora basta apenas um toque digital para substituir tudo isso. Bem, primeiro lugar que os molhos de chaves nem eram tão grandes (claro que isso depende do tramanho do caminho interior-exterior da sua casa e da extensão da violência do seu bairro+paranóia do proprietário. Eu mesmo moro num apartamento seguríssimo num bairro mais seguro ainda num lugar do bairro muito mais seguro e, pasmem, tenho mais de seis chaves no meu molho pra entrar/sair de casa) nem tampouco deixamos de as usar e duvido muito que leitores biométricos apareçam de repente e nos façam deixar de usar chaves. Isso é idiotice. Mas o que me deixou nervoso foi o TOQUE DIGITAL. Vem cá um instantinho… você amigo (a) leior (a), já tocou em algo que não fosse de forma digital?

Acho que assim como a torcida do Flamengo, a pessoa que escreveu o texto do comercial provavelmente se esqueceu de que Digital se refere aos dedos. Sim queridos, quando falamos que algo é digital, não quer dizer em primeiro lugar que é eletrônico, ou tecnológico, quer dizer que é manipulado/manipulável principal ou exclusivamente pelos dedos, pela ponta dos dedos, DIGITAL. Quando surgiram os primeiros telefones de teclado eles assim eram chamados, DIGITAIS, pois você precisava DIGITAR os números e não DISCAR (afinal aquela rodela com os números era o que? UM DISCO!) como era antes. Quando dizemos que hoje algo é DIGITAL é referente as informações que transmitimos por este meio específico, que são quantificadas numericamente, que podemos contar por DIGITOS (como este texto por exemplo, que deve ter dois ou três kilobtyes), o seu contrário, o sinal ANALÓGICO, é o que acontece em fluxo contínuo que difere os dados por ANALOGIA a voltagem que estão associados!

Ou seja, se é digital é porque podemos CONTAR os dados, podemos quantificá-los discretamente, podemos contar, por exemplo, com os DEDOS. Entenderam agora? Digital, digito, dedos… sim amigo droogie, digital, mesmo que com o tempo tenha se desvinculado de sua origem ainda tem relação íntima com ela. Da mesma forma que o termo analógico. Porém o fato é: mesmo depois de toda essa explicação, toda essa volta pra reclamar do comercial idiota, chegamos ao ponto comum que queria demonstrar – todo toque é digital, independente de estar ligado a uma codificação de dados digital ou não.

Nos dias atuais é costume popular utilizarmos de vocabulário muito impregnado pelos termos científicos sem ao menos saber exatamente sobre o que falamos. É corriqueiro dizer que, por exemplo, quando o Jairzinho começou a cantar, que seguiu os passos de seu pai, Jair Rodrigues, pois a arte estava “em seu sangue”, “em seu DNA”. Vem cá, quantos dos que falam isso (e não digo do povo que não pode estudar não, o jornalista redator de coluna no jornal graduado TAMBÈM) sabem enumerar as quatro bases nitrogenadas que formam o DNA PELO MENOS? Quando alguém fala, quem sabe, que algo foi tão rápido que aconteceu na “velocidade da luz” sabe a quanto, mesmo que aproximadamente, vai a dita velocidade? Duvido muito.

Vejam bem, não estou dizendo absolutamente que as pessoas deveriam parar de usar esse tipo de termo, nem tampouco que deveriam ser proibidas de o fazer nem que esse uso é reprovável, esse é o caminho natural da linguagem, onde termos  de uso por campos específicos acabam caindo no gosto do publico em geral e são incorporados ao vernáculo comum, mesmo que com seu substrato modificado. Porém cabe a nós atentar para o fato que mesmo com essa inclusão permanente, certas construções ainda permanecem inadequadas como por exemplo o tal “toque digital”, pois ambos os significados que “digital” (e vejam que particularmente eu considero apenas UM destes) pode assumir entram claramente em conflito direto e realizam relação de clara incompatibilidade tornando a frase antes engraçada que útil. Claro, que o espectador comum não vai nem pensar meia vez sobre isso, mas o meu texto não é destinado a estes   ; )

Portanto encerro dizendo basicamente o seguinte: não parem de usar termos do dia a dia simplesmente por estes estarem descaracterizados, isso é bobeira e seria o mesmo que ao invés de dizer que você vai “subir as escadas”, dizer que vai “ir para fora nas escadas” só porque isso estaria geodesicamente correto (para referência procurem por Buckminster Fuller na wikipedia), ninguém está pedindo isto, mas é um exercício tanto útil para nosso intelecto quando útil para evitar falar asneiras pensar melhor duas vezes antes de falar ou escrever certas coisas sem dominar corretamente o que se está escrevendo, deixando assim o mundo mais livre de porcarias e evitando que pessoas como eu sintam-se compelidas e escrever texto como esse.

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Responses

  1. Uma vez eu li uma pixação numa das escadarias do IFCS que nunca mais esqueci:

    “Só Jesus tira o Wittgenstein das pessoas…”

    Aí alguém veio e escreveu logo em baixo:

    “E vice-versa.”

    Acho que já tinha te contado essa, não?!

    Enfim, é um fato: pensar a linguagem em bons e velhos termos “agostinianos” de vez em quando pode nos poupar de “evoluções” com motivações pouco construtivas do emprego de certos termos . É, por mais que o Witt nos persuada a esquecer das motivações dos empregos dos termos (pelo menos parcialmente), eu tô contigo: também acho que elas fazem uma diferença bem relevante nas nossas vidas.

  2. ”acabam caindo no gosto do publico em geral e são incorporados ao vernáculo comum”
    VERNÁCULO foi foda
    Sim, muitas vezes não paramos para pensar no que estamos falando, ou realmente não conhecemos a origem do termo que utilizamos, ou seu verdadeiro significado.
    Concordo plenamente que não dá para pensar e repensar tudo que dizemos, mas fazer algumas vezes é uma experiência interressante.
    Fuizzz
    Ps: como já comentado, pense na origem de vernáculo.


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