Publicado por: - TCZ - | segunda-feira, 27 abril 2009

Culturas Congeladas

Um erro comum da maioria da população (e admito, meu também) é de pensar à respeito das populações nativas brasileiras da forma folclórica tal qual estamos acostumados a pensá-la e quando nos defrontamos com um de seus membros portando, vestindo ou fazendo uso de qualquer elemento mais contemporâneo nos espantamos e dizemos “Mas isto não é mais um índio!” Será mesmo?

Depois de ler um texto numa aula sobre o assunto texto e me deparar com o que acabei encontrando, achei de certa forma uma grande bobagem esse espanto, pois nada mais natural que a cultura indígena, que é uma cultura – como qualquer outra- em constante movimento, se modifique com o passar dos séculos e assim acabe adquirindo certos usos e costumes da modernidade no que facilita o seu próprio meio de vida, como assim o fazem todas as culturas humanas, selecionando do próximo aquilo que lhes tem serventia, elegendo-o como “elemento universal da cultura humana”, e jogando fora aquilo que considera demasiado e inútil, que agora receberá o nome de “idiossincrasia”. É interessante mesmo notar essa diferença sutil de vernáculo no tocante a ambos os conceitos e como sempre o que não nos interessa absorver vira idiossincrasia, vira aquela velha “esquisitice” que o outro possui e eu não. Quando olhamos para nós mesmos e identificamos costumes notadamente europeus é complicado pensar em aquisição, visto que nosso povo “cresceu junto” com estes conceitos. Seria mais ou menos como pedir a um adulto que se lembrasse do exato e preciso instante em que aprendeu de ler, seria irrazoável o pedido.  Porém quanto a certos costumes mais corriqueiros e recentes, podemos sim divisar sua aquisição e como nos dias atuais a mesma desaparece. O uso de Celulares por exemplo é relativamente recentíssimo, mas eu mesmo confesso que hoje não me imagino mais sem o meu, sendo que passei a utilizar um somente há pouco mais de cinco anos. As populações indígenas convivem com a tecnologia, usos e costumes do dito “homem branco” (que de branco não tem muita coisa e também nunca foi apenas branco) então nada mais natural que acabem escolhendo uma ou outra coisa que lhes seja conveniente para seu uso.

Outro ponto, outro extremo interessante desse mesmo preconceito bobo é ver que muitas vezes erigimos o edifício da Cultura Congelada para com as nossas populações nativas muitas vezes por uma imagem corriqueira no imaginário popular, muito depreciativa por sinal: a do “índio ignorante”. Peguemos como exemplo os Japoneses. Quem são? Os detentores da tecnologia contemporânea, que sobrepujam até mesmo os norte-americanos em seu know-how e em seu poderio econômico. E o que mais pode resumir o modo de vida ocidental, o mesmo que negamos aos nossos índios, do que aquilo que os japoneses fazem de melhor? E os japoneses, são um povo ocidental? Mais ainda: antes de meados do século XIX (mais precisamente de 1866 a 1869) o povo japonês vivia praticamente no que hoje facilmente chamaríamos (porém talvez ocultando o fato de que são japoneses) de “Pré-história”, pois a população quase que inteiramente não dispunha de nenhum saber tecnológico da época, vivendo num passado longínquo ainda atrelado a valores feudais, séculos atrás de todo o resto do mundo. Após a Restauração Meiji, o país foi aberto aos povos estrangeiros a busca de mercado e foi bombardeado por todo tipo de mercadoria e nova tecnologia. Após, relativamente falando em tempo histórico, poucos anos o Japão tornou-se uma potência econômica mundial polo de tecnologia e saberes ditos “evoluídos”, exemplo para todo o mundo. E pouco mais de cem anos antes era considerado atrasado, congelado. Estranhamos hoje a posição de domínio e o status quo atingido pelo povo japonês? E porquê então o fazemos com os povos indígenas? Será que usar roupas, relógios e celulares é tão prejudicial assim para a perda de identidade dos povos indígenas ou será que somos nós que não prestamos atenção nisso tudo? Ou será que todos os indivíduos decidiram usar roupas ocidentais ao mesmo tempo de um dia para o outro? Obviamente não.

Assim, concluo esta pequena reflexão (pessoal eu diria) com um convite a todos que ainda não se detiveram neste tópico em particular para que o façam e percebam o quanto estamos perdendo em termos de cultura e saberes justamente por essa desatenção para com nossos irmãos indígenas, como esse diálogo poderia ser plural e potencializar ainda mais nossa identidade. Como poderíamos progredir, juntos, caso nos entendêssemos como entidade coletiva e não como duas identidades sob a mesma bandeira? Quem sabe, ao contrário do que burramente pensamos, nós, homens ditos brancos, é que temos algo a aprender com eles e não o contrário? Quem sabe, esses costumes “novos” que achamos estranho que apresentem na verdade demonstram que eles já aprenderam o suficiente conosco e que talvez seja hora de finalmente fazermos o caminho contrário e aprendermos com eles? Esta sim é uma pergunta instigante que merece uma resposta adequada, infelizmente, o tempo é o único capacitado a respondê-la.

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Responses

  1. Texto legal, realmente temos mania de imaginar os índios como vimos no primário ou nas historinhas da turma da Mônica.
    Não é só essa desvalorização que me perturba, hoje ouvi alguém zoar um colega por ele ser do interior e talz, e perguntar como ele podia saber de coisas ” atuais” se vivia no ”meio do mato”.
    É incrível como pessoas da ”cidade grande” se esquecem que as tecnologias se desenvolveram de uma forma tremenda e áreas antes deixadas de lado devem ser amplamente consideradas.
    Só isso, fuiz


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