Publicado por: - TCZ - | quarta-feira, 13 maio 2009

Treze de Maio pra quem mesmo?

Hoje, faz alguns bons muitos anos, uma princesa muito feia (fisicamente) fazia uma coisa muito bonita e abolia uma coisa mais feia ainda, a escravidão. Isso é o que eu aprendi na escola e é também o que eu aprendi no dia a dia que está inevitavelmente errado.

 

 

Todos os anos, nesta mesma data, crianças em todo o Brasil fazem ou apresentam ou participam de trabalhos que comemoram a abolição da escravatura no Brasil, como numa grande celebração desse ato, ícone da democracia que celebramos diariamente quando do exercício de nossa cidadania. Muito bonito, realmente muito bonito. Isso infelizmente apresenta um grande problema que a meu ver acaba de certa forma manchando esta data e tornando o Treze de Maio mais uma data como qualquer outra que comemoramos mais por costume que por crença ou respeito – uma data artificial. 

Comemoramos ao treze-do-cinco a abolição da escravidão, escravidão que definimos mais usualmente como trabalho forçado. Sim, pois o que mais nos gera compaixão é o que menos desejamos para nós mesmos e quando ao verificar isto no outro passamos a sentir um pouco daquela dor e desejar menos ainda aquilo para nós, e na escravidão isto é o trabalho forçado pois acredito que ninguém de fato GOSTA de trabalhar: antes gosta dos frutos de seu trabalho (sejam eles materiais ou morais) e nums sistema escravagista (e eu não sei se essa palavra sequer existe) esses frutos não existem para o trabalhador, indo diretamente para quem o controla.

Escravidão também pode ser tomada também como um cerceamento das liberdades do indivíduo em nome de um senhor, alguém em situação de poder superior ao indivíduo que possui o controle de suas ações, tolhendo-lhe a capacidade de decidir por si mesmo e obrigando-o a fazer diversas ações apenas em nome da simples violência física ou da sanção social. Temos então que cerceamento de liberdade por si só é apenas aprisionamento, e cerceamento de liberdade quando existe a presença de um senhor é escravidão – mas apenas quando associada ao conceito de trabalhos forçados, entendendo trabalho aqui como qualquer atividade exercida pelo chamado escravo que não lhe é de vontade própria mas determinada por outro agora determinado senhor e, como mencionado anteriormente, trabalho que seus frutos não são usufruidos pelo trabalhador. Até aqui tudo bem, sabemos o que é escravidão. E o mais interessante, não falamos em momento algum sobre a cor da pele necessária para caracterizar o escravo.

Pela história da humanidade tivemos as mais diversas etnias sob a condição de escravo, várias situações diferentes do curso da história desenvolveram a dialética do senhor e do escravo e nem sempre os núbios foram escravizados tendo mesmo alguns estudiosos apresentado diversos exemplos de escravidão de outras etnias, seja no Brasil Colonial antes da introdução do Africano nas relações de produção, seja na europa quando os povos do norte da África capturavam escravos brancos provenientes da Europa e constituíam comércio com os mesmos ou no extremo oriente, quando membros de uma mesma etnia escravizavam seus iguais por motivos diversos. Sabemos então que tanto por definição quanto por exemplos históricos, escravidão não necessariamente diz respeito a NEGROS.

Ai chegamos no ponto que eu queria destacar: abolimos MESMO a escravidão ou na verdade apenas abolimos OFICIALMENTE, legalmente a SERVIDÃO RACIAL? (oficialmente, oficiosamente ela ainda existe) Aquela famosa canetada à pena de outro realmente adiantou de alguma coisa além de nos incluir enquanto nação tentando deixar de ser bárbara no ilustre rol dos Países Esclarecidos? Atualmente podemos ver em nosso dia a dia que as características que dizem respeito ao enquadramento do indivíduo como escravo ou da relação social como escravidão estão amplamente satisfeitas, só questão de ver. Temos ainda senhores e escravos e temos ainda restrições sociais e até mesmo físicas no que diz respeito as relações de trabalho. TODOS nós (e não apenas os ditos pobres como podemos pensar) somos escravos do sistema, trabalhamos para não sofrer sanções, para não nos tornarmos párias ou até mesmo para garantir a nossa sobrevivência frente a condições artificiais, todos entramos na “corrida dos ratos”. Digo mais até, digo que o sistema é tão eficiente nesta tarefa de escravizar que nos usurpou das condições naturais de subsistência, hoje quem deseja sair da dialética de submissão não pode, pois afinal de contas me diga quem tem a liberdade efetiva de largar tudo e viver da terra se não tiver dinheiro para comprar o seu quinhão agrário? A escravidão hoje toma muitos artifícios muito mais cruéis e restritores que nos tempos coloniais – pelo menos o Negros tinham pra onde e como fugir, seja pelos campos ou em suas mentes, pois enquanto a capoeira sempre foi um instrumento poderoso de contracultura, até esta nos dias de hoje foi já abarcada pelo establishment e é cada vez mais complicado fugir do mesmo, pois nos dias atuais “tudo é cultura”, tudo é absorvível, amalgamável.

Assim sendo, o Treze de Maio pra mim é outra data artificial e ilusória, uma data que serve só pra carregar um nome e preencher um calendário e, de mais a mais, para  mim nem feriado de verdade é, pois todos trabalhamos e estudamos e ultimamente, depois de muito refletir, esta é a única função real que um feriado pode desempenhar na vida comum dos seres humanos.

Anúncios

Responses

  1. Bom texto. Hoje os feriados só existem mesmo é para se ter folga no trabalho… É mais fácil hoje, por exemplo, você fazer uma festa no 2 de novembro do que guardar luto pelos entes falecidos…

    E ainda existem as datas que só existem para o consumismo… dia dos namorados, por exemplo… é uma data feita unicamente com o pretexto de se gastar com presentes para o seu par…

    Se de fato os feriados fossem levados literalmente a sério, o 13 de maio seria celebrado somente por uma ‘minoria’, mas vou parar por aqui pra evitar polêmicas…

  2. Escravagista existe, sim.

    De fato, a assinatura da Lei Áurea não foi mágica. Não libertou todos os escravos automaticamente, não corrigiu as injustiças, não reparou danos. Mas foi um grande passo. Melhor que exista uma lei abolindo a escravatura do que uma lei a permitindo.

    Existe escravidão ainda hoje? Física? Com certeza. No entanto, existem outras muito, muito piores. A escravidão emocional – as pessoas que têm necessidade de se sentirem adoradas o tempo todo, de pular de uma emoção forte pra outra; a escravidão intelectual – as pessoas que não querem pensar por si próprias, tomarem suas decisões de vida; e a escravidão espiritual – as pessoas que não conseguem determinar suas próprias crenças e compram um pacote pronto que garanta a salvação – são tão cruéis quanto a física e não são sequer lembradas.

    Antes um 13 de maio do que nenhum 13 de maio.

  3. Com todo respeito, mais quero deixar aqui a minha opinião, sobre a abolição da escravidão, como todos nós sabemos que é comemorado no dia 13 de maio, em meu ponto de vista não deveria haver essa outra data que criaram para comemorar o dia da consciência negra que é dia 20 de novembro e que é decretado feriado nacional, olhe se existe o dia 13 de maio, essa data já caracteriza a abolição e a consciência negra, essa é minha opinião.

  4. Está na hora de reduzir essas datas comemorativas o Brasil tem que procurar escolher melhor os seus representates.

  5. A escravidão na realidade nunca deixou de existir, só que hoje é uma escravidão mais moderna, onde os pobres são escravizados e excluídos da sociedade, não importa a cor. O proprio Governo descrimina os negros, no momento em que determina cotas para negros em universidades, e os proprios negros procuram-se discriminar, pois procuram logo pintar os cabelos de louros.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: