Publicado por: yumejin | sexta-feira, 29 maio 2009

Do Críton

Críton é um diálogo escrito por Platão logo no início de sua vida como filósofo. Formando um par com a Apologia de Sócrates, que discorre sobre o julgamento e subsequente condenação de Sócrates, Críton trata da oferta de fuga por parte de um discípulo [que dá nome ao livro] e a recusa oferecida pelo filósofo ateniense.

A parte que importa no livro todo [não que ele seja dispensável, é só que é o cerne da questão] é a justificativa de Sócrates para não fugir. Para isso, é preciso discutir algumas características de Sócrates que geralmente são ignoradas. Todos sabemos que ele era um homem inteligente que abordava todo tipo de pessoa na praça de Atenas para tentar fazer com que elas pensassem além do mundano e, mais importante ainda, por si próprias.

Pois bem, a parte que quase ninguém lembra [e que, possivelmente, é o real motivo pelo qual Sócrates foi condenado à morte] é que Sócrates era favorável a Esparta, a maior rival de Atenas da época. Ele não gostava da democracia da pólis, preferindo a monarquia espartana. As duas instâncias em que ele diz ter defendido a cidade resumem-se a participar de uma guerra em uma posição não muito perigosa e em não cumprir uma ordem judicial quando da ditadura dos 30 Tiranos, em abril de 404 a.C. Por outro lado, um de seus discípulos, Alcibíades, tornou-se chefe da facção dos 400, em 411 a.C., um período de interrupção da democracia na cidade.

Não estou dizendo que Sócrates seja um lobo transvestido de cordeiro, longe disso. Sócrates ainda é um expoente da filosofia e grande contribuinte para o desenvolvimento da sua linha de filósofos [Platão provavelmente jamais seria um filósofo se não tivesse sido iniciado pelo seu mestre, permanecendo como um jovem rico e alienado]. Só quero deixar bem claro uma característica dele: o amor pelas Leis.

Não digo as leis normais e comuns, mas as que ele chamou de Leis com maiúscula mesmo. E é por causa delas que ele decide não fugir. Sócrates argumenta que, ao fugir, ele ajudará na destruição delas somente para impedir que elas a destruam. Imaginando um diálogo com as Leis, Sócrates lembra como elas foram benéficas e justas para ele até aquele momento e que fugir, ainda que acreditasse que uma injustiça havia sido cometida, seria realmente “cuspir no prato em que comeu”.

Esse texto me veio bem a calhar porque recentemente participei de uma discussão sobre se era necessário mudar “o sistema” por dentro ou por fora. De fato, mudar por fora é mais simples de ser feito – atente-se que não estou dizendo que seja mais simples de começar, estou dizendo que, no geral, é menos complexo do que mudar por dentro. Mas, ao desrespeitar regras e regulamentos, ainda que por uma causa justa, você enfraquecerá sua futura [possível] posição como mantenedor das leis.

E isso é particularmente relevante para o Brasil, um país onde as leis podem “colar” ou não, onde a maioria das pessoas se vê como exceção à regra e procuram sempre um jeito de burlar impedimentos, reclamando quando outros o fazem. Valeria a pena atacar as leis, mesmo elas estando erradas? Ou é melhor acatá-las, pelo bem do estado? Deve o homem perecer pela pátria ou a pátria pelo homem? Sócrates deu a sua resposta há 2.400 anos, mas isso é tão somente a escolha pessoal de um homem.

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Responses

  1. Viu isso só prova uma coisa: Sócrates nunca existiu! Afinal, como poderia, qualquer homem numa situação dessas fugiria! (odeio quando rima sem querer)

    Além do que havia uma lei Ateniense que permitia o preso fugir, desde que nunca retornasse a cidade. Pois bem, Sócrates podia sim ter fugido e isso era sim legal, mas preferiu ficar, morrer e ser cabeça-dura, mostrando que tanto sabia que o que pregava era verdade que valia a pena morrer por isso.

    Vê como não faz sentido? Das duas uma, ou Sócrates é personagem ou ele era BEM estúpido! Bem, ele acabou dando no Platão que é outra cavalgadura, então acho que não é de se estranhar que não fosse assim tão coerente…

    E VIVA ESTAGIRA! \o/


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