Publicado por: Ehrrieff, o Nobre | quarta-feira, 29 julho 2009

Então, continuando o tal conto…

Bem, a idéia é publicar semanalmente os capítulos restantes; isso deve levar mais uma ou duas semanas… ou talvez trinta e quatro.

XXX

Capítulo 0,1: Pulomeço

14:22. Meta levantou de uma vez, estendendo o pulo que não conseguiu completar por ter sido decapitado antes de flexionar as pernas. Fazia tempo que não lembrava de um sonho, e tomou esse como um presságio; não que acreditasse nesse tipo de coisa realmente, mas  iria de bom grado crer em qualquer coisa que lhe indicasse alguma perspectiva de mudança em sua vidinha pré-cozida.

De seu rosto, ovóide e irregular, brotavam alguns pequenos e finos pêlos pela primeira vez. O tempo passava, e seu rosto sabia disso. Assim como seus intestinos, pouco contentes em processar todo o miojo com cheetos e molho de alho da noite anterior. A visão de sua cara feiosa no espelho o angustiou mais que a lembrança de ter sua cabeça arrancada bruscamente por um alicate gigante; não porque sabia que sua bizarra decaptação havia sido só um sonho, mas porque suspeitava que, morto, não teria que se preocupar com a falta de sua cabeça.

Trocou a camisa empapada de suor, vestiu sua velha bermuda cinzenta e calçou suas sandálias de borracha rachadas na sola. Fazia sol lá fora, mas sob a luz amarelenta só conseguia ver minúsculos flocos de poeira por todo lado, espiralando graciosamente em frente a bulbosa e oleosa ponta de seu comprido nariz. Seu estômago doía, e quase sentia-o tremer por baixo de sua barriga macilenta. Procurava as chaves no meio dos pacotes de miojo abertos sobre a mesa; lembrou-se de Melopéia; seu estômago doeu mais ainda. Bateu com a cabeça na parede, sem muita força, para ver se a dor da pancada tiraria sua atenção dos protestos indignados de seu estômago. Não funcionou, e meta teve certeza de que Melopéia estava certa: ele era um idiota, afinal.

Antes de entrar no elevador voltou, como era de praxe, para checar se havia esquecido a porta aberta. Estava angustiado : era tarde, tarde demais. Era dia 22 (se não tivesse esquecido de arrancar a última página do calendariozinho pregado por um ímã da porta da geladeira) e nada havia acontecido; talvez a predição da drag-queen cigana da noite passada estivesse errada, talvez aquele seria só mais um janeiro suarento e tedioso; se sentiu mais estúpido ainda por se fiar em algo assim. Provavelmente passaria mais um dia assassinando o tempo, e com requintes de crueldade – sabia que o bastardo iria ressuscitar, e por isso não tinha dó.

Saiu do elevador, os olhinhos pequenos, redondos e amarelos semicerrados, e ao passar pelo porteiro dirigiu-lhe a palavra, sem no entanto fitar o homem: “boa tarde” – e sua voz soou como a de um preso se dirigindo ao carceireiro. Aquele curto cumprimento era usado quase como um encantamento: meta esperava que sua forçosa amabilidade apelasse à consciência do homenzinho franzino de chinelos e uniforme azul, e diminuísse as chances deste, tomado pela cobiça, invadir-lhe o apartamento enquanto estivesse fora para roubar seu lindo guarda chuva amarelo,  displicentemente empunhado num dia chuvoso a alguns meses atrás (havia perdido sua sombrinha florida herdada da mãe, que comumente usava) sob o atento e, suspeitava, cobiçoso olhar do funcionário.

Passou finalmente pelo portão recentemente pintado de seu prédio (tomou especial cuidado em não encostar na tinta fresca e cancerígina) e desceu a longa rua  em direção ao metrô, atento ao chão para não pisar em algum infecto cocô de cachorro, e ainda repetindo mentalmente, como um mantra que deveria salvaguardá-lo dos perigos do mundo, ou ao menos de sua própria paranóia: “boa tarde, boa tarde, boa tarde…”

XXX

Bom, é isso. Deixem seus comentários… ou não. Sei lá, vocês que sabem. Até, provavelmente, semana que vem. Ou a outra. Ou… ontem.  Quem sabe não desenvolvo uma forma de me mover pelo tempo ou algo assim.

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Responses

  1. Ainda aguardo mais. Quero trama! Quero paixão! QIERO ROSQUITAS!

  2. Rolassa

  3. (insira elogio com o duplo propósito de denotar a real e boa qualidade do trabalho & alimentar o ego do autor de modo que ele dê continuidade)

  4. só eu nao gostei?

  5. Só. RECALQUE. \o

  6. Tô adorando msm, cotinua amor…


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