Publicado por: Melquíades | domingo, 1 novembro 2009

A Besta e o Homem

Tenho andado muito ausente daqui, mas, achem vocês bom ou ruim, não morri. Reparei que a literatura aqui no nosso querido blog tem aumentado em quantidade e variedade: atualmente, temos  algumas densas reflexões de cunho filosófico, pérolas humorísticas, tentativas frustradas de fazer humor, divulgação de eventos, resenhas, críticas, contos para os mais diversos gostos, relatos (in)verídicos, alguns ensaios geniais, demonstrações lamentáveis de opacidade de pensamento e desconhecimento das regras de concordância verbal e nominal em número e emprego do modo subjuntivo e… Enfim, estamos fazendo jus a nossa causa; somos de fato um Movimento Quodlibetário.

Porém tenho de confessar que até hoje, mesmo tendo sido responsável por apenas 3 postagens aqui, não variei muito na forma do que postei: sempre uns textos com alma dissertativa, reflexivos e loooooongos. Portanto, resolvi voltar em grande estilo: fazendo da categoria “Melquíades” uma categoria mais quodlibetária! Segue para vocês a primeira parte do que a maioria classificará como um conto, mas que eu, particularmente, não enquadro em qualquer categoria que não seja a de uma homenagem.

A Besta e o Homem

Parte I – retorno ao lar

Luto com unhas e dentes para convencê-la do contrário, mas a Mame tem razão: com 56,5kg e 1,73m, o risco de eu ser feito de pipa pelo primeiro vento que me pegue é alarmante. Não se engane: adoro comer, e nada desses modismos “light” para mocinhas. Eu diria que como mais em massa & (massa engordiet)/massa que a maioria dos homens que conheço, e ainda assim… Confesso que nunca passei dos 57kg.

Uma suposição que me ocorre, e que me parece particularmente plausível, é que talvez seja em parte por esse risco de de repente ser levado pelos ares que adoro perambular por aí em dias de vento; acho que eu nunca quis oferecer muita resistência ao que sei que pode me fazer voar, seja lá para onde for. Fico grato ao meu metabolismo bizarramente acelerado, que me permite ter um comportamento alimentar de glutão sem aumentar a inércia do meu corpo – ainda que com uma pequena pitada de consternação, pela aflição que isso causa à Mame.

A vida, contudo, é assim mesmo: realmente injusta… Vejo todo o mundo à minha volta reclamando, e eu aqui constatando que até os meus problemas me fazem bem. Enfim… Eis que, um dia desses, acordei com uma sensação estranha. Quando abri os olhos, senti que enxergava aquelas manchas em forma de olho na madeira dos lambris do teto do meu quarto com olhos que não eram meus. O Yes comandava uma performance violenta, quase wagneriana de “Close to the Edge” em minha vitrola mental, a revelia da minha vontade, enquanto uma dor aguda, que eu quase conseguia ouvir, castigava lentamente minha coluna lombar.

Novamente me enfiei debaixo das cobertas e tentei voltar a dormir, mas a música em minha cabeça, a dor e seu ruído não deixavam. Dei-me conta de que estava encharcado de suor e sentindo muito calor… Consegui uma desagradável cãibra na panturrilha esquerda ao desvencilhar-me bruta e desajeitadamente dos lençóis e do edredom que me envolviam. Senti uma urgência grande para me levantar, mas quando tentei fazê-lo, minha coluna pareceu gritar em protesto. O suor já empapava a roupa de cama de um jeito repulsivo. Definitivamente eu queria me levantar, mas… Queria mesmo? Talvez para querer levantar, houvesse a necessidade de, como condição, querer algo mais que simplesmente levantar…

A dor. Isso é o que eu tinha que querer para poder querer levantar: sentir a dor na íntegra, deixar que ela golpeasse minha coluna com toda a força e de uma vez só. E como eu quis! A conclusão me tomou de maneira tão abrupta que, quando dei por mim, o estalo das minhas vértebras lombares já havia desligado a minha vitrola mental havia uns 3 segundos, e eu estava de pé, degustando com curiosidade científica os ecos da dor que senti ao sair daquela cama que na noite anterior era tão confortável e aconchegante, mas que agora parecia feita de areia movediça, a exalar a pestilência modorrenta do meu próprio suor. Embora nunca tivesse deixado de sê-lo, naquele momento, eu voltara a ser eu.

Anúncios

Responses

  1. Poizé, aproveite enquanto seu metabolismo não se vira contra você! Porque ai amigo, é ladeira abaixo…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: