Publicado por: yumejin | sábado, 5 dezembro 2009

Do Exame Nacional do Ensino Médio, o Todo Poderoso ENEM

[Ei, Al Capone, vê se te orienta… assim dessa maneira, nego, Chicago não aguenta]

Garoto-propaganda do Novo ENEM - Pagando bem, que mal tem?

Pela graça do Bom Deus, há quatro anos qualquer coisa relacionada a Vestibular não me diz respeito. Qualquer um que ingressou em uma universidade após passar pelo processo de seleção deve ter uma sensação parecida – de repente, toda aquela confusão sobre provas específicas, provas não-específicas, questões objetivas, primeira fase, segunda fase, redação, nota de corte, reclassificação e mais não sei o quê, simplesmente não significa nada.

Minha mãe volta e meia comentava como o vestibular que ela prestou era diferente, um provão unificado, da Cesgranrio. De repente, não mais que de repente, as regras do jogo estão prestes a mudar novamente e, provavelmente, meu filho prestará um exame diferente do que eu fiz. Possivelmente, nosso herói do título do post, o salve salve glorioso, em defesa dos fracos e oprimidos, ENEM!

Desde sempre, todo mundo sabe que exames periódicos, seja o teste e a prova do bimestre na escola, seja a P1 e a P2 na faculdade, não são o método do mundo ideal para avaliar o aprendizado dos alunos, mas até agora não surgiu alternativa muito convincente, então continuamos com eles.

O Vestibular, sempre um pesadelo para os estudantes do Ensino Médio, especialmente os do 3º Ano, constantemente é criticado por sua “injustiça”. Primeiro, porque é uma prova só contra 3 anos de Ensino Médio. Segundo, porque a abrangência das matérias acaba deixando o estudante meio perdido de por onde começar a estudar e se ele algum dia vai conseguir ver todo o conteúdo. Terceiro, porque os estudantes de escolas particulares têm uma carga horário diferenciada e qualidade nas aulas nitidamente superior aos egressos das escolas públicas. [Não, não vou entrar no assunto “cotas”, não estou no espírito pra isso]

Oi, meu único livro sem Socialismo ou Trabalho no nome se chama "Desorganizando o Consenso". Eu sou ou não sou maneiro?

Nosso Ministro da Educação, cujo nome é Fernando Haddad [mas aposto que você sabia… caso contrário, a cola está aqui], sucessor na pasta do também atual Ministro da Justiça Tarso Genro [isso eu aposto que você já tinha esquecido… afinal de contas, os dois Ministérios, Educação e Justiça, são parecidíssimos], anunciou, então, que o Governo Federal tinha resolvido acabar com essa multiplicidade de vestibulares, um diferente pra cada Universidade Federal, e instituir um exame único. Para unir o útil ao agradável, decidiu criar uma forma evoluída do seu Exame já existente, o ENEM.

Quando eu estava no 3º ano, não fiz o ENEM por um único motivo: a prova era tão desprezível que nenhuma faculdade pública a levava em conta, somente as particulares. Então, como eu queria estudar em uma universidade pública, não tinha motivos para gastar tempo e dinheiro com aquilo.

Oras, não é exatamente um elogio ao próprio trabalho quando as faculdades de um governo se recusam a adotar uma de suas provas nacionais porque consideram que ela não serve como método de avaliação dos estudantes aptos a ingressar no Ensino Superior.

Mas, tudo bem, o novo ENEM parece ser diferente do antigo ENEM. A maior parte das universidades federais resolveu agir com cautela, ainda assim. Como pode ser acompanhado neste mapa, disponibilizado gentilmente pelo MEC, a maior parte delas o utilizará como uma etapa preliminar ou equivalendo a uma percentagem dos pontos totais. Algumas o utilizarão como nota total, verdade, mas outras nem em 2010 o adotarão.

Acho injusto falar de uma coisa sem que tenhamos a justificativa oficial para ela. Então, com a palavra, o MEC:

20 – Por que mudar o Enem?
A proposta tem como principais objetivos democratizar as oportunidades de acesso às vagas federais de ensino superior, possibilitar a mobilidade acadêmica e induzir a reestruturação dos currículos do ensino médio. A grande vantagem que o MEC está buscando com o novo Enem é a reformulação do currículo do ensino médio. O vestibular nos moldes de hoje produz efeitos insalubres sobre o currículo do ensino médio, que está cada vez mais voltado para o acúmulo excessivo de conteúdos. A proposta é sinalizar para o ensino médio outro tipo de formação, mais voltada para a solução de problemas. Outra vantagem de um exame unificado é promover a mobilidade dos alunos pelo País. Centralizar os exames seletivos é mais uma forma de democratizar o acesso a todas as universidades. O Ministério da Educação apresentou uma proposta de reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e sua utilização como forma de seleção unificada nos processos seletivos das universidades públicas federais.

Então, temos três principais objetivos. Vamos analisá-los rapidamente, de trás pra frente. “Induzir a reestruturação dos currículos do ensino médio” é o terceiro citado. De fato, o currículo do Ensino Médio precisa ser revisto, urgentemente, assim como o do Ensino Fundamental. Contudo, eu tinha quase certeza que era possível fazer isso com novas diretrizes para a ementa das matérias ensinadas. Aliás, na verdade, parece-me bem mais lógico. Ajudaria também a adoção de sistemas de avaliação da qualidade da didática dos professores, mandando pra reciclagem aqueles que falharem e premiando os que se mostrarem exemplos. Mas eu ignoro, claro, o fator monetário – é mais fácil mudar a prova no final do caminho do que o caminho em si.

Segundo objetivo principal: “possibilitar a mobilidade acadêmica”. Não vou negar, esse é um objetivo curioso pra caramba. Realmente, se aqui no Brasil ocorresse um fenômeno comum nos Estados Unidos, outro país de proporções continentais, em que estudantes da Costa Leste vão estudar na Costa Oeste e vice-versa, com estudantes do Sul indo estudar no Norte e os do Nordeste no Centro-Oeste e reciprocamente, a interação entre as origens diferentes certamente produziria algo interessante.

Mas!, e sempre há um mas, acredito que o maior desafio para a “mobilidade acadêmica” jamais foi o vestibular [embora ele esteja entre um dos fatores, dado que a maior parte das provas de Literatura e História esbarra em regionalismos e os locais de prova precisam ser em cidades no entorno da universidade em si], mas onde morar quando você é do Maranhão e passou para a Universidade Federal de Pelotas. Afinal de contas, os alojamentos das universidades federais estão muito, mas muito aquém da demanda. Como eu disse ali em cima, uma prova unifica resolve um dos problemas, mas não vejo projeto nenhum para lidar com o principal deles – onde essa gente vai ficar? Estou sentindo um “dá teu jeito” vindo aí.

Por fim, o primeiro dos objetivos declarados, “democratizar as oportunidades de acesso às vagas federais de ensino superior”. Então, para tornar a seleção justa, todo mundo vai fazer a mesma prova. Faz sentido. Só que continua sendo injusta se os candidatos não têm condições semelhantes de preparo. Para isso, seria necessário melhorar a qualidade das escolas públicas. Ah, sim, eu mesmo já me dei a resposta: “é mais fácil mudar a prova no final do caminho do que o caminho em si”.

Enfim, boa sorte aos que estão prestando o ENEM este ano. Que vocês tenham notas proporcionais ao seu merecimento!

[A minha enfermeira tem mania de artista. Trepa em minha cama crente que é uma trapezista.]

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