Publicado por: - TCZ - | quarta-feira, 3 julho 2013

Uma barata chamada Franz

A primeira vez que ouvi falar do escritor austríaco foi em uma música, veja só.

A banda era a Inimigos do Rei e o álbum era alguma coletânea de “Rock Brasil” dos anos oitenta e eu lembro de achar, no auge dos meus (no máximo) dez anos, a letra divertidíssima. Era alguma coisa sobre um cara que ia na cozinha e encontrava uma barata e a chamava para sair (?) e a barata, que também falava, respondia que sim(?!). Lembro que tinha um trocadilho horrível – “vem kafkar comigo” – e, muito tempo depois, lembro de ter associado com uso de drogas. Mas ai já não era tão divertida a música e eu já não era tão inocente.

Mas antes disso eu lembro da segunda vez que me encontrei com Kafka. A essa altura eu já sabia que aquela música não era, assim, tão sem sentido e que existia um livro que contava a história dum homem que virava uma barata gigante escrito por esse tal Kafka, mas nada além disso: ainda achava uma idéia estranha e também achava que “kafka” era nome de comida árabe (na verdade sempre achei o sr. Gregor Samsa com algo de super-herói, que virava inseto ou algo assim. Um Kamen Rider talvez). Até que uma vez quando estava no primário, em Petrópolis, onde passava os recreios enfiado na biblioteca da escola, encontrei um livro desse Franz, “O Castelo”, numa edição bem antiga, dos anos setenta talvez, machucada pelo tempo e já amarelando bonito. Mas tinha um problema: era em espanhol. Nunca soube do que se tratava a história, apesar de ter pego emprestado o livro e lido até a metade. Pena que minha facilidade com línguas jamais andou junto com minha capacidade de entendimento (aliás, descobri que “Castillo” era castelo depois de velho)

Os anos passaram e eu tive meu terceiro encontro com Kafka já na faculdade, inebriado pela pretensa atmosfera intelectual que me propiciava o ambiente acadêmico. Fiz Filosofia, o que torna “ler Kafka” quase um pré-requisito para poder respirar naqueles corredores e estava começando a me defrontar com os títulos obrigatórios dos primeiros períodos. Lembro que na época me digladiava especialmente com grandes campeões da política como Aristóteles e Hobbes, especialmente este último que em seu Leviatã se tornava o oásis da juventude arrogante e anti-social da qual até então eu estava começando a fazer parte.

Querendo começar “bem”, decidi comprar os livros para poder me aprofundar no assunto. Juntei meus parcos cobres e fui a uma grande papelaria da minha cidade, na rua principal bem em frente ao obelisco da praça, e sai à cata dos dois títulos que procurava. Achei-os com relativa facilidade, porque era o lançamento da coleção duma editora nova, que traduzia obras clássicas e as editava em formato acessível, com preços módicos. Um néctar para qualquer estudante universitário modesto (a editora era a famigerada Martin Claret que muito tempo depois eu aprendi a evitar, com muito custo – literalmente) Porém vi que havia uma promoção onde, levando três livros, eu obteria um desconto irrisório. Decidi então levar mais um – “O Processo” e ai começou minha terceira, e derradeira, batalha.

Nem preciso dizer que não terminei. O livro era muito confuso, muito complexo, contava a história de um cara que se via preso por pessoas que não conhecia, sem saber o porquê, integrante de um processo – criminal mesmo – de que não fazia idéia do que se tratava. O livro te dá uma sensação claustrofóbica, opressora, de uma ansiedade enorme. Daí acabei lembrando que anos antes, no meio desses encontros todos, também tinha lido meio livro do autor, o tal da barata, e que lá também tinha encontrado o mesmo sentimento: em “A Metamorfose” eu não encontrei um x-men meio-inseto mas um homem confrontado com uma situação absurda e trágica, de transformar-se em algo indesejado, por motivos alheios ao seu entendimento. Em algo que lhe causava repulsão mas que no decorrer da história acaba sendo compreendido, suplantado pela dimensão inescapável do eu – ninguém foge de si mesmo – foi o que a barata me ensinou em meio a todo enjoo, asco e náusea e era isso o que todos aqueles “vai-e-vems” do processo tentavam me dizer. Que existem situações na vida da gente que são surreais, mesmo que não sejam protagonizadas por insetos ou coisas do tipo.

Mas também não terminei aquele livro, como não terminei nenhum deles. Na faculdade aprendi que a gente consegue um diploma lendo apenas um livro inteiro, quando muito, de capítulos diversos de obras diferentes de todos os autores possíveis, então aprendi a me dar por satisfeito com pouco – não tenho essa obsessão por finais. Mas Kafka sempre foi diferente. Acho que nunca li nenhum livro até o final porque eu nunca precisei de verdade, o que tinha até a metade me bastava e me fazia enxergar melhor – depois de um choque (seja da sensação de nojo, impotência diante do “sistema”, ou mesmo duma barreira linguística) – quem sou e como as coisas, no final, acabam funcionando.

Hoje faz 130 anos do nascimento de Franz Kafka e só hoje eu percebi a importância desse homem, que me fez entender mais com metade de seus livros do que muito calhamaço por ai que eu devoro de capa a capa. É algo a se notar.

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